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Em meio ao rearranjo da economia internacional, um conceito passou a ganhar espaço no debate estratégico: o chamado Acordo de Mar-a-Lago. O termo não designa um tratado formal nem um documento assinado entre governos. Trata-se, antes, de uma expressão analítica que faz referência à propriedade Mar-a-Lago, na Flórida, e serve como analogia informal ao Plaza Accord de 1985, batizado com o nome do hotel onde foi negociado. Sua utilidade está em descrever uma possível lógica de política econômica dos Estados Unidos, baseada na combinação entre tarifas, pressão negociadora, segurança econômica, dólar e reindustrialização.
A comparação mais frequente é, de fato, com o Plaza Accord de 1985, quando grandes economias coordenaram ações para depreciar o dólar. A diferença, agora, é que o debate atual não aponta para uma concertação multilateral clássica, mas para algo mais flexível, transacional e orientado pelos interesses estratégicos de Washington. Por isso, ainda que o nome soe informal, a discussão em torno dele não deve ser descartada como mero exagero retórico.
A pergunta central não é se existe um Acordo de Mar-a-Lago no sentido diplomático clássico. A pergunta mais útil é outra: os Estados Unidos estariam dispostos a usar, de forma cada vez mais integrada, comércio, moeda, finanças e segurança como componentes de uma mesma política de poder?
Parte importante dessa formulação foi associada ao economista Stephen Miran, que presidiu o Council of Economic Advisers. Em falas e textos amplamente citados, Miran sustentou que os Estados Unidos arcam com custos relevantes ao prover segurança e liquidez internacional, e que esse ônus deveria ser mais claramente repartido com parceiros e aliados. Nesse enquadramento, o dólar forte continua sendo um ativo de poder, mas também pode ser visto como obstáculo para exportações, indústria e recomposição produtiva doméstica.
É justamente aí que o tema ganha densidade. Quando tarifas deixam de ser apenas instrumento comercial e passam a dialogar com objetivos industriais, financeiros e estratégicos, muda-se a natureza do debate. O que antes parecia uma agenda fragmentada – câmbio, comércio, energia, reservas e segurança econômica – passa a se comportar como partes de uma mesma arquitetura de poder. Essa é a razão pela qual o debate sobre o “Mar-a-Lago Accord” interessa menos pelo rótulo e mais pela lógica que ele procura capturar.
Ao longo de 2025, esse tipo de leitura ganhou força porque Washington passou a adotar medidas tarifárias e mecanismos de negociação associados à ideia de segurança econômica. Isoladamente, cada movimento pode parecer apenas mais um capítulo de disputa comercial. Em conjunto, porém, eles sugerem um padrão mais coerente: o de uma política econômica que procura integrar moeda, indústria, comércio e poder estratégico em uma mesma equação.
Para economias do Cone Sul, o tema merece atenção por razões objetivas. Um rearranjo dessa natureza afeta preços relativos, influencia fluxos de capital, altera incentivos comerciais e repercute sobre a renda externa de países exportadores de commodities. Tarifas, nesse contexto, deixam de ser apenas barreiras clássicas e passam a funcionar também como linguagem de barganha. O debate, portanto, não é apenas aduaneiro: ele diz respeito à forma como grandes potências organizam seus instrumentos de influência em um ambiente internacional mais competitivo.
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O debate oscila com frequência entre dois extremos igualmente estéreis: a leitura conspiratória, como se houvesse um plano sigiloso já em execução, e a leitura apressada, que reduz tudo a retórica de campanha. Nenhuma das duas ajuda. Em estratégia internacional, o que importa não é a existência de um texto formal, mas a convergência entre ideias, incentivos e decisões práticas que, somadas, revelam uma direção. Essa talvez seja a principal utilidade do conceito.
Sob esse prisma, a pergunta central não é se existe um Acordo de Mar-a-Lago no sentido diplomático clássico. A pergunta mais útil é outra: os Estados Unidos estariam dispostos a usar, de forma cada vez mais integrada, comércio, moeda, finanças e segurança como componentes de uma mesma política de poder? Se a resposta for ao menos parcialmente positiva, então o assunto já deixou de ser periférico. Passa a tocar diretamente a previsibilidade cambial, planejamento industrial, custo de financiamento, reservas internacionais, indústria de defesa e margem de manobra estratégica de parceiros e competidores.
Para o Brasil, isso recomenda atenção serena, técnica e contínua. Não é tema para alarmismo, mas tampouco para desatenção. Países de grande porte, com inserção internacional relevante e sensibilidade a comércio, commodities e fluxos financeiros, precisam observar com cuidado sinais desse tipo. Em um ambiente externo menos linear, compreender cedo a lógica dos movimentos pode ser tão importante quanto reagir a seus efeitos já consumados.
O Acordo de Mar-a-Lago, portanto, talvez não exista como acordo, mas já funciona como lente útil. E, em estratégia, lentes importam. Elas ajudam a perceber continuidades, antecipar tendências e evitar que mudanças graduais sejam tratadas como ruído passageiro. Em um cenário internacional mais transacional, ignorar esse tipo de sinal pode custar previsibilidade cambial, margem de manobra industrial e, no limite, autonomia estratégica.
Eduardo Barros é bacharel em Administração e pesquisador de temas relacionados a segurança, tecnologia e direitos humanos.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







