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Os movimentos que hoje observamos têm direta relação com a crise internacional que se instalou em 2008

As movimentações populares que vêm derrubando governos nos países árabes estão atraindo atenção internacional e têm uma grande relevância em todo o mundo. Apesar de não haver, ainda, clareza sobre os destinos políticos desses países – pois não há certeza de que completarão as transições democráticas e não podemos prever possíveis resultados eleitorais –, questões importantes sobre essas movimentações políticas precisam ser discutidas.

Primeiramente, a mobilização popular que derrubou os governantes na Tunísia e no Egito e que vem pressionando os ditadores de Bahrein, Líbia, Irã, Iêmen e Argélia, não tem sua origem, exclusivamente, no interesse da população por maior participação nos processos decisórios dos países. Em grande medida, se analisarmos historicamente os momentos de queda de regimes ditatoriais ao redor do mundo, percebemos que são provenientes de uma combinação de fatores políticos e econômicos, o que significa que os governantes, mesmo se reprimirem suas populações pela utilização da força, tendem a não sofrer grandes pressões se fornecerem boas condições de vida. O fato de que o regime militar no Brasil, por exemplo, só passou a ser pressionado, com maior contundência, durante os anos 80, depois das mazelas econômicas decorrentes das crises dos anos 70, não é coincidência.

Os movimentos que hoje observamos têm direta relação com a crise internacional que se instalou em 2008. São originados por insatisfações econômicas e, somente a partir daí, ganharam as ruas e passaram a ter o apelo da "transição democrática". A origem da queda dessas ditaduras não está somente na ânsia por liberdade, mas, principalmente, na preocupação das populações com suas necessidades mais básicas. Assim, uma questão que surge dessa observação refere-se à passividade de uma população diante da opressão de uma ditadura, desde que o regime apresente relativo sucesso econômico. As transições que observamos são decorrentes de um interesse coletivo pela democracia ou de uma série de interesses econômicos individuais somados em um momento de crise?

Além dessa, outra questão se faz importante: se a economia é um fator fundamental para o entendimento dessas mobilizações, como explicar o fato de que antigos regimes ditatoriais do mundo árabe só estão ruindo agora? A resposta para essa pergunta vem sendo decifrada pelos grandes veículos de imprensa: somente com o advento de novas tecnologias de informação e com as facilidades que trazem à organização de movimentos de massa foi possível, para as populações dos países em questão, construir mobilizações eficientes e rápidas. As novas tecnologias utilizadas na divulgação e organização dos protestos, combinadas ao mau momento econômico e ao aumento das repressões pelos governos desses países, são variáveis essenciais na explicação sobre a duração e a efetividade dos movimentos que observamos.

Um terceiro questionamento refere-se à dimensão das movimentações. Por que tantos países vêm observando protestos concomitantemente? Novamente, a resposta passa pela velocidade com que as informações são transmitidas na atualidade, mas não se pode deixar de mencionar a importância das manifestações no Egito como grande exemplo aos demais povos árabes. Hosni Mubarak era um dos ditadores mais antigos da região, possuía o aval das grandes potências internacionais e não sofria pressões populares. Em pouco tempo, o nível de organização e de pressão imposto pela massa fez com que as estruturas governamentais sólidas do regime fossem rompidas.

Por fim, resta-nos a pergunta mais relevante para a compreensão da importância dessas mobilizações para os cenários políticos internacional e brasileiro. Se o exemplo do Egito serve para os povos árabes em suas lutas por regimes mais representativos de seu interesse, não podemos nós, brasileiros, que em tantos momentos nos sentimos mal representados por nossos líderes, também compreender que a população, quando organizada, pode contribuir para grandes alterações em regimes políticos?

O debate desses temas é fundamental para que possamos começar a compreender o verdadeiro significado que os movimentos de mudanças nos países árabes terão ao redor do globo.

Juliano da Silva Cortinhas é coordenador do curso de Relações Internacionais do UniCuritiba e membro do Projeto Cooperação em Segurança Regional, da Fundação Friedrich Ebert.

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