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Como o algoritmo substituiu o palanque na disputa política

O carisma clássico descrito por Max Weber continua relevante, mas encontra concorrência em ecossistemas digitais permanentes, nos quais memes, inteligência artificial, vídeos virais e circulação algorítmica. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Um jovem de vinte anos não carrega memória política concreta da formação histórica do lulismo. Sua experiência pública nasceu em outro território: telas curtas, memes, algoritmos e guerras narrativas permanentes. A política das novas gerações já não se organiza prioritariamente em sindicatos, partidos ou grandes movimentos coletivos. Organiza-se em fluxos digitais fragmentados, movidos por velocidade emocional contínua.

A memória afetiva ligada ao lulismo foi construída ao longo de décadas, desde o sindicalismo do fim da ditadura e das campanhas presidenciais iniciadas em 1989 até a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, em 2002. Para muitos jovens, principalmente aqueles fora do circuito universitário, essa trajetória não existe como experiência política vivida. Existe apenas como narrativa disputada em vídeos curtos, redes sociais e fragmentos emocionais que circulam em velocidade muito maior que qualquer comício.

Durante décadas, partidos, sindicatos, universidades e movimentos sociais funcionaram como grandes mediadores da formação política. Produziam linguagem, organizavam identidades e construíam referências simbólicas relativamente estáveis. Hoje, parte desse poder foi deslocada para plataformas digitais que operam segundo outra lógica: rapidez, fragmentação, repetição e impacto emocional contínuo.

A política continua sendo disputa de poder, linguagem e emoção. Mas o espaço dessa disputa mudou profundamente. O comício perde espaço para o algoritmo. A memória histórica disputa atenção com o vídeo de quinze segundos

Isso ajuda a explicar um dos fenômenos centrais da política contemporânea: lideranças tradicionais ainda possuem densidade histórica, mas já não controlam sozinhas a imaginação pública. O carisma clássico descrito por Max Weber continua relevante, mas encontra concorrência em ecossistemas digitais permanentes, nos quais memes, inteligência artificial, vídeos virais e circulação algorítmica disputam atenção segundo regras muito diferentes das antigas estruturas partidárias.

Nesse cenário, Luiz Inácio Lula da Silva ainda conserva forte capital simbólico acumulado ao longo de décadas. O mesmo ocorreu com Jair Bolsonaro, cuja liderança se consolidou não apenas pela política tradicional, mas também pela capacidade de mobilização emocional contínua nas redes digitais. Ambos representam formas contemporâneas de carisma político de massas em um país historicamente marcado pela personalização da liderança.

O problema para a direita brasileira é que, fora Jair Bolsonaro, ainda não surgiu liderança nacional com densidade carismática equivalente. Isso ajuda a explicar por que parte desse campo político passou a depender fortemente de redes descentralizadas de comunicação digital. Sem um líder capaz de monopolizar afetos coletivos em escala nacional, memes, influenciadores, inteligência artificial e circulação algorítmica tornam-se instrumentos fundamentais de mobilização política.

O meme substitui parcialmente o panfleto. O algoritmo ocupa espaço antes reservado ao palanque. O comício exigia presença física. O algoritmo exige apenas um polegar. A viralização dissolve parcialmente a centralidade da liderança em múltiplos polos de influência capazes de produzir mobilização sem depender inteiramente das antigas estruturas partidárias. Isso não significa o desaparecimento do carisma político. Significa sua mutação.

A liderança carismática continua importante, mas já não monopoliza a produção simbólica da política. A autoridade emocional tornou-se mais dispersa, mais instantânea e mais dependente da circulação digital permanente. A política já não pede longas fidelidades. Pede reações instantâneas.

Nesse cenário, o ambiente universitário ocupa posição ambígua. Universidades continuam produzindo reflexão crítica, linguagem política e disputas simbólicas relevantes. Mas acreditar que ainda organizam sozinhas a consciência política das novas gerações talvez seja uma ilusão nostálgica. A maior parte da juventude brasileira vive fora desse universo discursivo e constrói suas percepções políticas em ambientes digitais fragmentados, velozes e frequentemente pouco permeáveis às mediações intelectuais clássicas.

A política continua sendo disputa de poder, linguagem e emoção. Mas o espaço dessa disputa mudou profundamente. O comício perde espaço para o algoritmo. A memória histórica disputa atenção com o vídeo de quinze segundos. O líder carismático continua relevante, mas já não governa sozinho o imaginário coletivo. O algoritmo possui velocidade. A memória histórica exige tempo.

Carlos Henrique Gileno é professor doutor do Departamento de Ciências Sociais da Unesp, campus de Araraquara.

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