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Anemia de absoluto

  • Robson de Oliveira
 
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O início do século 21 descortina um problema maiúsculo, cuja caracterização desafia a capacidade analítica dos pensadores hodiernos. A despeito do que prometeu o Círculo de Viena (1929), o triunfo da ciência não trouxe os benefícios sociais e humanos prometidos. Pelo contrário, temas que deveriam estar há muito superados teimam em retornar numa sociedade que expurgou da vida pública as questões de fundamento. É o caso do fanatismo político-religioso, que mostrou mais uma vez seu rosto na semana passada, em Paris.

Por que jovens de classe média, muitas vezes bastante bem-educados, cuja vida não padece de qualquer tipo de carência material, aderem a seitas fundamentalistas? Por que matam e ameaçam de morte outras pessoas por motivos francamente injustos e violentos? O assunto é um verdadeiro atoleiro, com não poucas armadilhas, mas necessita ser enfrentado com coragem. E uma pista de desembaraço parece ser dada pelo professor Kurt Gauger.

Em seu livro Cidade-Demônio, de 1957, o psiquiatra alemão apresentou uma perturbadora carta de um jovem detento a seus pais. Descartados os adâmicos exageros do rapaz, que culpa outros pelas próprias escolhas, a carta traz alguma luz acerca do desafio do fanatismo também em nossos dias. Grosso modo, a carta acusa os pais do condenado e sua geração de não acreditar vigorosamente nos valores que professavam. Segundo a denúncia do jovem, bastava que crianças resistissem brevemente às determinações educativas de seus pais e mestres e o “não” transformava-se em “sim”, ou um “sim” sem convicção do diretor da escola tornava-se um “não”. E esse delinquente, de dentro de uma penitenciária, faz um diagnóstico que bem pode iluminar o problema do extremismo: os jovens são fortes no mal porque os seus pais e educadores são fracos no bem. Os jovens buscam nas seitas o que não encontram em seus lares: vidas coerentes, valores de carne e osso.

O filósofo americano Hans Jonas discorre sobre a relação entre responsabilidade e liberdade. A ampla liberação dos limites morais e o descompasso na responsabilização das ações concretas proporcionaram discussões sobre os efeitos do uso da liberdade humana. O princípio da responsabilidade, de Jonas, é a tentativa de relacionar autoria e compromisso nas atitudes individuais e sociais. Ora, a juventude atual sofre de um mal crônico quando o assunto é responsabilidade, enquanto pretende ser autossuficiente no que concerne à liberação de limites. O divórcio entre a liberdade pessoal e o dever de responder pelas próprias ações gerou liliputianos morais, produziu pessoas sem fibra, anêmicas, que não cresceram no dever de construir uma vida responsável.

Nesse contexto, o fanatismo político de jovens anêmicos eticamente se encontra curiosamente próximo do fanatismo religioso de uma juventude anêmica filosoficamente. Por ironia, o esmaecimento dos valores morais no Ocidente, intentando ser o mais inclusivo possível, redunda na falta de princípios claros e seguros para a vida. E é justamente a falta desses valores que empurra os jovens para os braços de movimentos extremistas, ordinariamente de caráter revolucionário, os quais possuem todas as certezas e soluções dos problemas humanos, satisfazendo assim – aparentemente, é claro – a necessidade de Absoluto do homem. Parece-nos que os jovens extremistas de todas as latitudes acolhem esses movimentos, pois procuram um Absoluto para chamar de seu.

Robson de Oliveira, professor de Filosofia da PUC-RJ, é diretor do Centro Dom Vital.

O início do século 21 descortina um problema maiúsculo, cuja caracterização desafia a capacidade analítica dos pensadores hodiernos. A despeito do que prometeu o Círculo de Viena (1929), o triunfo da ciência não trouxe os benefícios sociais e humanos prometidos. Pelo contrário, temas que deveriam estar há muito superados teimam em retornar numa sociedade que expurgou da vida pública as questões de fundamento. É o caso do fanatismo político-religioso, que mostrou mais uma vez seu rosto na semana passada, em Paris.

Por que jovens de classe média, muitas vezes bastante bem-educados, cuja vida não padece de qualquer tipo de carência material, aderem a seitas fundamentalistas? Por que matam e ameaçam de morte outras pessoas por motivos francamente injustos e violentos? O assunto é um verdadeiro atoleiro, com não poucas armadilhas, mas necessita ser enfrentado com coragem. E uma pista de desembaraço parece ser dada pelo professor Kurt Gauger.

Em seu livro Cidade-Demônio, de 1957, o psiquiatra alemão apresentou uma perturbadora carta de um jovem detento a seus pais. Descartados os adâmicos exageros do rapaz, que culpa outros pelas próprias escolhas, a carta traz alguma luz acerca do desafio do fanatismo também em nossos dias. Grosso modo, a carta acusa os pais do condenado e sua geração de não acreditar vigorosamente nos valores que professavam. Segundo a denúncia do jovem, bastava que crianças resistissem brevemente às determinações educativas de seus pais e mestres e o “não” transformava-se em “sim”, ou um “sim” sem convicção do diretor da escola tornava-se um “não”. E esse delinquente, de dentro de uma penitenciária, faz um diagnóstico que bem pode iluminar o problema do extremismo: os jovens são fortes no mal porque os seus pais e educadores são fracos no bem. Os jovens buscam nas seitas o que não encontram em seus lares: vidas coerentes, valores de carne e osso.

O filósofo americano Hans Jonas discorre sobre a relação entre responsabilidade e liberdade. A ampla liberação dos limites morais e o descompasso na responsabilização das ações concretas proporcionaram discussões sobre os efeitos do uso da liberdade humana. O princípio da responsabilidade, de Jonas, é a tentativa de relacionar autoria e compromisso nas atitudes individuais e sociais. Ora, a juventude atual sofre de um mal crônico quando o assunto é responsabilidade, enquanto pretende ser autossuficiente no que concerne à liberação de limites. O divórcio entre a liberdade pessoal e o dever de responder pelas próprias ações gerou liliputianos morais, produziu pessoas sem fibra, anêmicas, que não cresceram no dever de construir uma vida responsável.

Nesse contexto, o fanatismo político de jovens anêmicos eticamente se encontra curiosamente próximo do fanatismo religioso de uma juventude anêmica filosoficamente. Por ironia, o esmaecimento dos valores morais no Ocidente, intentando ser o mais inclusivo possível, redunda na falta de princípios claros e seguros para a vida. E é justamente a falta desses valores que empurra os jovens para os braços de movimentos extremistas, ordinariamente de caráter revolucionário, os quais possuem todas as certezas e soluções dos problemas humanos, satisfazendo assim – aparentemente, é claro – a necessidade de Absoluto do homem. Parece-nos que os jovens extremistas de todas as latitudes acolhem esses movimentos, pois procuram um Absoluto para chamar de seu.

Robson de Oliveira, professor de Filosofia da PUC-RJ, é diretor do Centro Dom Vital.

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