
Ouça este conteúdo
Theodore Roosevelt deve estar se revirando no túmulo. E talvez Woodrow Wilson esteja girando junto com ele. Por quê? Bem, a visão progressista de um “governo de especialistas” sofreu um grande baque nos últimos dias. Alguém como Anthony Fauci não era exatamente aquilo que nenhum dos dois presidentes americanos tinha em mente. Ou era?
E o que exatamente esses presidentes diziam ter em mente? Expertise desinteressada. “Desinteressada” no sentido de neutra, e não no sentido de indiferente. A ideia era que as agências reguladoras funcionassem como aconselhadoras e como árbitras. Nada mais que isso, no que lhes dizia respeito. Ou não?
A Constituição de 1787 poderia ter sido um excelente ponto de partida – pelo menos para Roosevelt, e talvez não tanto para Wilson. Apesar das possíveis diferenças, ambos achavam que a vida no início do século 20 tinha se tornado complicada demais para ser administrada por meros funcionários eleitos. O governo dividido talvez ainda não fosse coisa do passado, mas um governo americano moderno certamente precisava de ajuda para conduzir o país em uma direção progressista. Por que, então, não recorrer aos especialistas? Congressistas e presidentes não poderiam (nem deveriam) administrar tudo sozinhos. A elaboração, o debate, a aprovação e a sanção das leis deveriam, de algum modo, estar acima da atividade mesquinha da política.
Por isso, eles achavam que já era hora de a Constituição original do fim do século 18 dar lugar a uma “Constituição viva” para o século 20 e além. Esse certamente era o termo preferido de Wilson. Naturalmente, não seria necessário passar pelo incômodo de uma série de emendas constitucionais para conseguir isso, até porque, na melhor das hipóteses, seria muito demorado. Além disso, aquele processo tão desajeitado não passava de um vestígio do século 18. É verdade que eles se deram ao trabalho de aprovar uma emenda constitucional para estabelecer a eleição direta dos senadores, em vez de sua escolha pelas legislaturas estaduais, mas não passou disso – e ao menos eles estavam dispostos a manter o Senado, ao contrário de alguns “progressistas” atuais que desejam sua eliminação.
Theodore Roosevelt ou Woodrow Wilson previram que um dia haveria um Anthony Fauci? Provavelmente não
Em outras palavras, os progressistas originais geralmente se contentavam em manter a Constituição e contorná-la quando necessário. O presidente da Câmara, Joe Cannon, colocou a questão desta maneira: “a Constituição não tinha mais serventia para Roosevelt do que uma certidão de casamento tinha serventia para um gato macho”. O próprio presidente certa vez disse – e disse para todos ouvirem – “que se dane a Constituição”. Por quê? Ele havia mobilizado os militares para manter as minas de carvão abertas em meio a uma greve, porque “o povo precisa de carvão”.
Wilson tinha um linguajar menos profano quando se referia à Constituição, mas não estava menos disposto a contorná-la quando julgava necessário. Na verdade, há muitas evidências de que ele presumia que o governo poderia se tornar muito mais eficiente graças à expertise administrativa. De qualquer modo, em maior ou menor grau, tanto Roosevelt quanto Wilson estavam determinados a construir uma burocracia federal extraconstitucional – e a fazê-lo para auxiliar, e não de substituir ou contornar, o governo representativo.
Também é importante ter em mente que o movimento progressista era bipartidário, e não simplesmente porque Roosevelt era republicano e Wilson era democrata. Cada um dos grandes partidos tinha uma ala progressista e uma ala conservadora, mas nenhum dos progressistas, de que partido fosse, previa que a burocracia federal se tornaria essencialmente um poderoso braço de um partido em vez do outro. Lembre-se do seu objetivo: criar quadros permanentes de especialistas profissionais e neutros.
Ambos os presidentes promoveram a criação de agências reguladoras que continuam importantes hoje, agências que abriram caminho para a criação e o preenchimento de muitas outras instituições federais semelhantes ao longo do século que se seguiu. A Food and Drug Administration (FDA), sob Roosevelt, e a Federal Trade Commission (FTC), sob Wilson, são exemplos importantes.
VEJA TAMBÉM:
O número, o poder e o alcance dessas agências cresceram exponencialmente desde que os progressistas originais começaram, há muito tempo, a legislar para criá-las. O resultado é o que alguns hoje chamam de “Estado profundo” (Deep State) e outros, de “Estado administrativo”. Mais do que isso, a Suprema Corte, por meio do que ficou conhecido como “doutrina Chevron”, endossou a deferência à opinião dos burocratas federais ao decidir sobre a constitucionalidade desta ou daquela legislação ou sobre a interpretação burocrática dessa legislação.
É verdade que, nos últimos anos, a corte começou a reduzir essa deferência, mas essa disputa entre funcionários eleitos e não eleitos está longe de terminar. Talvez o recente “não depoimento” de Anthony Fauci, juntamente com aquilo que agora sabemos sobre seus pensamentos e seu conhecimento durante o que poderia ser chamado de “era da Covid”, contribua para pôr fim a essa deferência. Certamente deveria.
Roosevelt ou Wilson previram que um dia haveria um Anthony Fauci? Provavelmente não – embora Wilson, primeiro como professor universitário e depois como presidente em tempos de guerra, estivesse bastante entusiasmado com as possibilidades de um governo administrado por especialistas. Eles chegaram a prever que uma burocracia federal desinteressada se tornaria essencialmente um braço ou um aliado de um partido em vez do outro? Certamente não. Mas foi exatamente isso que gradualmente aconteceu ao longo de mais de um século desde que seus mandatos na Casa Branca terminaram.
Tampouco os dois presidentes previram que membros dessa burocracia seriam menos do que sinceros tanto com os funcionários eleitos quanto com o povo americano. E, no entanto, agora sabemos que esse foi claramente o caso de Anthony Fauci. Hoje é bastante evidente que o “Fauci privado” conhecia a verdade sobre a Covid, enquanto o “Fauci público” escondia essa verdade. E isso não se limita à questão das origens do vírus, mas também à sua disseminação, seus efeitos e seu impacto.
Em vez de servir como uma fonte independente de informações autorizadas, a burocracia tem objetivos e interesses próprios
Além disso, nem Roosevelt nem Wilson previram que a burocracia federal se tornaria, na prática, um grupo de interesse por si só. E, no entanto, é também isso que aconteceu ao longo dos muitos anos desde que a era progressista original foi dominante. Alguém duvida que Fauci tenha interesses próprios? Da mesma forma, alguém duvida que ele seja a ponta de um iceberg muito maior? É difícil (ou melhor, impossível) chegar a outra conclusão.
Segundo os progressistas originais, a função dos especialistas profissionais desinteressados era oferecer aconselhamento profissional desinteressado aos funcionários eleitos. Não foi isso que Fauci ofereceu ao presidente Trump em 2020. Graças ao diário de Fauci, agora sabemos disso – aliás, “diário” não; registros feitos em um computador do governo e que, como tais, mereciam ser tornados públicos.
E, graças ao próprio Anthony Fauci, também sabemos que a burocracia federal não funciona da maneira como foi concebida para funcionar – ou, pelo menos, da maneira como foi apresentada ao público. Quanta surpresa! Em vez de servir como uma fonte independente de informações autorizadas, a burocracia tem objetivos e interesses próprios – mais especificamente, objetivos e interesses que frequentemente parecem coincidir com os de um partido político, e não do outro. Isso também deveria estar evidente a esta altura. O que faremos a respeito de tudo isso continua muito incerto. Mas algo sério e diferente precisa ser feito em relação à obra de Roosevelt e Wilson e de seus aliados progressistas.
Ironicamente, dois poderosos presidentes da era progressista contribuíram para criar algo que equivale a um quarto ramo do governo, que agora atua contra o poder presidencial – ou, pelo menos, atua contra o poder presidencial de um dos nossos dois grandes partidos. Wilson talvez não se opusesse a isso, mas Roosevelt certamente se oporia.
John C. “Chuck” Chalberg é doutor em História, foi professor do Normandale Community College e costuma interpretar Theodore Roosevelt e outros personagens históricos.
©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: Spinning in His Grave? TR, Fauci, & the Bureaucratic Beast



