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Os usuários de aplicativos de relacionamento estão infelizes, mas a culpa não é da tecnologia

mulheres aplicativos de relacionamento
Homens e mulheres estão infelizes com aplicativos de relacionamento, mas o verdadeiro problema é a mentalidade moderna sobre o que significa amar. (Foto: Mircea Iancu/Pixabay)

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Estudos sugerem que quase metade dos jovens adultos americanos de 18 a 29 anos já usou um aplicativo de relacionamento. Quando os millennials são incluídos nesse grupo, a porcentagem é um pouco menor, mas ainda abrange mais de um terço da população. Em outras palavras, bem mais da metade das pessoas atualmente solteiras sabe ao menos como funcionam os aplicativos de relacionamento, quais escolher quando se busca um amor duradouro (em vez de uma aventura casual) e, acima de tudo, quão raramente seu uso as tornou mais felizes. Junto com a familiaridade com os aplicativos de relacionamento vem toda uma série de problemas e insatisfações que eles provocam. Vale a pena perguntar, então, se abandonar os aplicativos resolveria nossos problemas amorosos. Os encontros presenciais tornariam o namoro mais fácil e levariam a relacionamentos bem-sucedidos com mais frequência?

Infelizmente, minha resposta é não. Nosso problema com os relacionamentos tem raízes muito mais profundas, assentadas em uma compreensão empobrecida da pessoa e das relações humanas, e em uma concepção equivocada de nossa liberdade na escolha do amor. É isso que as pessoas solteiras têm a oferecer hoje – mesmo quando se encontram na vida real.

Minhas entrevistas recentes com jovens adultos solteiros da região de Austin, Texas, confirmaram ambas as constatações: o uso generalizado dos aplicativos, por um lado, e uma crítica profunda e bem fundamentada ao novo meio, por outro. Além da baixa taxa de sucesso (afinal, todos os meus entrevistados ainda estavam solteiros), tanto homens quanto mulheres expressaram sérias preocupações sobre a maneira como os aplicativos objetificam seus usuários. Ficar deslizando os dedos pelos perfis de potenciais parceiros na tela, como se faz com produtos da Amazon, pensavam eles, não é lá uma boa maneira de se aproximar de uma relação humana. “Não acho que seja uma ferramenta saudável apresentar tantas opções. Além disso, isso acaba desumanizando as pessoas”, disse um jovem, ecoado por uma mulher de 24 anos: “Acho que eles [os aplicativos] são cada vez piores para a sua saúde mental”.

Ambos os sexos também estavam conscientes de como a ilusão da escolha infinita pode estar afetando suas mentes, prejudicando sua disposição ou capacidade de assumir um compromisso – algo que psicólogos vêm apontando há anos. “Sentimos que existem tantas opções, mas, na realidade, não há ninguém. Você conversa com tantas pessoas on-line, mas nada disso realmente se concretiza. E há tanta desconfiança”, contou-nos uma jovem. “Eu não gosto disso. Não gosto da maneira como isso simplesmente cria a percepção de que existem tantas opções”. Nas palavras de um solteiro de 30 anos à procura de compromisso, “acho que [o namoro on-line] provavelmente me faz sentir mais carente, como se você precisasse de validação, porque parece que você foi rejeitado muitas vezes”.

Além da baixa taxa de sucesso, tanto homens quanto mulheres que usam os aplicativos expressaram sérias preocupações sobre a maneira como eles objetificam seus usuários

Os homens, de fato, também relatam problemas sistêmicos. Vários entrevistados mencionaram o modo como os aplicativos de relacionamento favorecem as mulheres. Em certa medida, eles estão mesmo certos. Em todas as plataformas, a porcentagem de homens tende a ser maior que a de mulheres, distorcendo o jogo desde o início. Além disso, enquanto os homens têm critérios de escolha mais amplos, “curtindo” uma grande variedade de mulheres, o sexo feminino é bem mais seletivo. Como resultado, apenas uma minoria dos homens (10% a 15%) recebe a maioria das respostas ou abordagens diretas das mulheres, deixando todos os demais não apenas sem correspondência, mas também suscetíveis ao desespero. O fracasso no mundo dos aplicativos de relacionamento geralmente leva a níveis mais baixos de confiança, à diminuição da autoestima e, às vezes, até à depressão.

Dizer, porém, que esses mecanismos favorecem as mulheres é um tanto enganoso. Sim, elas são inundadas de curtidas e primeiras abordagens, mas essas mulheres superestimuladas raramente são apreciadas por quem realmente são: os homens clicam em fotos atraentes, não em biografias interessantes ou em valores compartilhados. Depois vem a vulgaridade, com mensagens (ou imagens) explícitas sendo muito mais facilmente compartilhadas nas plataformas on-line do que em público. A segurança das mulheres também está em jogo, com o risco de se encontrar perfis falsos e de compartilhar informações privadas com golpistas determinados a explorar as vulnerabilidades e os sonhos românticos dessas mulheres. Alguns comentaristas sugerem que, no fim das contas, será a mesma pequena porcentagem de mulheres que acabará formando um casal com alguém compatível. Se isso for verdade – como sugere fortemente a evidência anedótica de meus amigos solteiros –, a maioria da população simplesmente terá desperdiçado muito tempo tentando chegar lá.

A armadilha dos aplicativos de relacionamento

Para piorar as coisas, uma análise recente revelou que as razões subjacentes para estar on-line frequentemente são diferentes daquelas declaradas. Mesmo as pessoas que realmente procuram um relacionamento estável ainda podem acabar caçando perfis simplesmente para escapar do tédio ou aumentar sua autoconfiança. Uma de nossas entrevistadas admitiu fazer isso: “Recebi a atenção que queria, e isso me fez sentir um pouco menos sozinha ou mais desejada”. Em todos os aplicativos, esse fenômeno afeta tanto homens quanto mulheres, contribuindo inevitavelmente para a frustração, a confusão e a insatisfação dos usuários. “Eles são péssimos”, disse-nos um jovem. Outro comentou: “É uma armadilha”.

Segundo estatísticas recentes, “armadilha” pode ser o termo adequado. A taxa de sucesso dos aplicativos de relacionamento, medida pela porcentagem de primeiros encontros que se transformam em relacionamentos, é atualmente estimada em 12%. A quantidade de tempo e esforço necessária para chegar lá é bastante significativa (70 a 100 “matches” antes mesmo de se chegar a um encontro). O que significa “sucesso”, além disso, também permanece pouco claro. É ficar junto por um mês, um ano ou uma vida inteira? É casamento, morar junto ou um relacionamento aberto? Ninguém sabe; os aplicativos de relacionamento não são antigos o suficiente para que existam dados suficientes. Há uma crença relativamente popular de que as pessoas que se conhecem on-line se divorciam menos, mas esse tipo de afirmação abrangente é difícil de verificar. “As evidências são inconsistentes demais”, diz o Claude, a ferramenta de IA. Segundo um estudo britânico, especialmente nos primeiros três anos de casamento, os casais que se conheceram por meio de aplicativos parecem apresentar taxas mais altas de divórcio. Embora esse tenha sido um relatório isolado, a explicação parece bastante razoável: pessoas que se conhecem on-line, em vez de por meio de amigos ou familiares em comum, ou de conexões proporcionadas pelo ambiente em que vivem, são relativamente estranhas umas às outras. Alguns anos podem ser exatamente o tempo de que precisam para descobrir que não eram compatíveis.

Nesse ponto, alguns ainda podem permanecer juntos: seja porque encontraram a tão desejada alma gêmea, seja porque, de maneira mais brutal, temem a ideia de passar novamente pela saga dos “100 matches” antes de dar certo. Se passarem novamente por tudo isso, os usuários de aplicativos de relacionamento aprenderão coisas sobre si mesmos que nossos avós nem sequer consideravam (experimente perguntar à sua avó sobre seus “impedimentos” ou “fatores inegociáveis”). E, no entanto, eles se casavam jovens e permaneciam casados. Nós não. Com base nos dados de nossas entrevistas, o número de pessoas que repetem esse ciclo é significativo: várias relataram relacionamentos que começaram nos aplicativos e duraram mais do que algumas semanas ou meses, mas, com exceção de um homem noivo e de uma mulher que está adiando (mas considerando) um noivado, todos esses encontros iniciados nos aplicativos terminaram.

Não surpreende, portanto, que ninguém goste dos aplicativos de relacionamento. As mulheres supostamente “favorecidas” dizem que eles aumentaram sobretudo sua probabilidade de se envolver em sexo casual, e não de encontrar o amor. “As pessoas dão match com você com base em suas características faciais ou em algumas frases que você escreveu”, disse uma delas. Uma estudante de pós-graduação afirmou: “Na maioria das vezes, acaba sendo um convite para ir à casa de alguém, terminando em uma relação sexual”. Uma mulher atraída pelo mesmo sexo, que considera útil selecionar outras mulheres lésbicas por meio dos filtros do aplicativo, comentou de maneira semelhante: “Muitas das minhas experiências no aplicativo de relacionamento não evoluíram para relacionamentos românticos”.

Estamos “escolhendo” amar?

Uma das mulheres citadas acima fez uma afirmação bastante razoável: “No fim, todos queremos a mesma coisa, que é o amor e o [sentimento de] pertencimento”. E acho que isso é mesmo verdade. Não importa quão grande seja a atual hostilidade entre os sexos, é isso que todos os meus amigos e conhecidos querem. Mas, se esse é o caso, se tanto homens quanto mulheres ainda querem, em última análise, amar e ser amados, e pertencer a alguém, por que continuamos usando um sistema que não funciona? E, como sugerido acima, será que o sistema realmente não é o problema?

Em círculos mais conservadores, alguns estão convencidos de que os aplicativos são o problema e, por isso, cada vez mais tentam conhecer outros solteiros organicamente por meio de grupos de igrejas, clubes de leitura e outros eventos comunitários. Mas os resultados, mesmo nesses casos, são pouco animadores. Talvez ainda nos faltem dados sobre isso, mas temos evidências locais. Na diocese católica de Austin, por exemplo, é significativo o número de jovens adultos que procuram um cônjuge. Ainda assim, mesmo dentro desse grupo católico, que organiza encontros semanais, os casamentos são muito, muito poucos.

Nosso hábito de tratar os outros como produtos que usamos ou descartamos de acordo com nossas próprias necessidades e caprichos não desaparece quando abandonamos o mundo on-line

Nosso problema, creio eu, não é a tecnologia. Sem dúvida, os aplicativos de relacionamento não ajudaram; mas eles estão agravando problemas que já existiam. Foram seres humanos que criaram esses aplicativos, e os moldaram de acordo com seus ideais e preferências preexistentes. É disso que precisamos tratar antes de nos preocuparmos com algoritmos. Nosso hábito de tratar os outros como produtos que usamos ou descartamos de acordo com nossas próprias necessidades e caprichos não desaparece quando abandonamos o mundo on-line, e tampouco desaparece nossa relutância em assumir compromissos. Se os aplicativos de relacionamento serviram para alguma coisa, foi para trazer à luz nossa compreensão empobrecida da pessoa, dos relacionamentos e do que realmente significa e exige “escolher” um parceiro.

Nesse último aspecto, consciente ou inconscientemente, muitos acreditam que precisamos de muitas opções para poder escolher livremente. Quanto maior o grupo de candidatos, maiores seriam nossas chances de encontrar o amor – é o que pensamos. Por isso, baixamos aplicativos com milhões de usuários; olhamos para além de nossas cidades e círculos sociais, sempre buscando algo maior para aumentar nossa probabilidade de encontrar um cônjuge (as taxas mais altas de casamento nas pequenas cidades, enquanto isso, demonstram desde o início que nossa teoria está errada).

Mas os seres humanos não são objetos destinados a ser comparados e avaliados uns em relação aos outros, nem conjuntos de atributos que aprovamos ou desaprovamos. É claro que os valores, a política e os interesses de uma pessoa dizem muito sobre ela e são importantes quando se trata de compatibilidade. Com frequência excessiva, porém, paramos aí, nesses rótulos e características. Raramente, se é que alguma vez o fizemos, perguntamos “por quê”: por que pensam como pensam, votam como votam, vestem-se como se vestem. São essas respostas, e não as primeiras, que nos farão querer compartilhar nossa vida com uma pessoa específica. Essas razões e explicações são as respostas pessoais que nenhum companheiro de IA jamais poderia gerar. Os relacionamentos se desenvolvem ao longo do tempo e no curso de experiências compartilhadas, e não depois de uma avaliação superficial de características.

No cenário atual dos relacionamentos, as experiências compartilhadas já não são um componente fundamental para avaliar a compatibilidade; queremos encontrar nosso par de maneira rápida, eficiente e decisiva. As pessoas, porém, não são estáticas, e nossos relacionamentos com elas também não são. Elas são complexas e precisam ser plenamente compreendidas ao longo de uma vida inteira.

Os seres humanos não são objetos destinados a ser comparados e avaliados uns em relação aos outros, nem conjuntos de atributos que aprovamos ou desaprovamos

Alguns anos atrás, David Brooks descreveu todas essas dinâmicas em um capítulo de livro com o sugestivo título “Como não enxergar uma pessoa”. Em suas palavras, nossa incapacidade de realmente “fazer perguntas”, generalizando e colocando as pessoas em diferentes categorias, impede-nos de perceber que “cada vida em particular é muito mais extraordinária e imprevisível do que qualquer uma das generalizações” que possamos fazer. Inevitavelmente, eu acrescentaria, enxergar os outros como listas de propriedades também afeta a maneira como olhamos para nós mesmos: nós também nos tornamos nada mais do que conjuntos de pontuações, notas, experiências de currículo e, é claro, altura, peso e saldo da conta bancária.

Em 1992, muito antes de existirem aplicativos de relacionamento, um professor da Universidade da Califórnia em Berkeley escreveu um artigo ao qual recorro frequentemente em meu trabalho sobre esse tema. Em Conceptions of Choice and Conceptions of Autonomy (“Concepções de escolha e concepções de autonomia”), Meir Dan-Cohen mostrou como algumas de nossas experiências mais verdadeiras de liberdade e autonomia não têm relação com “escolher a melhor opção” entre um conjunto de alternativas. Por exemplo, ele descreve a experiência de desejar intensamente determinado alimento. Nossa escolha mais livre ocorre quando selecionamos o alimento que originalmente desejávamos, independentemente da amplitude das opções que nos foram apresentadas. Outro exemplo é o das atividades criativas, nas quais a liberdade do artista ao escrever determinada música ou desenhar determinada imagem em vez de outra não implica uma “seleção”, nem significa que o artista rejeitou outras opções. Trata-se, antes, de um processo independente de criação, uma “eleição”, um exercício livre e determinado da vontade.

É claro que nenhuma dessas duas formas de liberdade se aplica ao mundo dos relacionamentos. Evidentemente, não podemos “criar” nosso parceiro, nem esperar até encontrarmos exatamente a pessoa que “desejávamos”. Esses exemplos, porém, deveriam nos fazer perguntar se o amor pode ser apenas mais uma área em que um “conjunto amplo e variado de escolhas” tem pouca relevância. Na minha opinião, a verdadeira liberdade romântica – e a genuína autonomia – não vem tanto da abundância de opções iniciais, mas da nossa intencionalidade posterior. Primeiro, da nossa decisão de conhecer quem está diante de nós, para além dos rótulos; depois, de querer aquele parceiro para a vida, decidindo construir algo com ele. Em outras palavras, nossa liberdade e autonomia românticas dependem menos da possibilidade de alguém ser capaz de nos fazer esquecer todos os demais, e mais da nossa escolha de fazê-lo. O amor é uma mistura de acaso e livre arbítrio. O mundo moderno, porém, lembra-se apenas da primeira parte.

Para nós, tomistas, o que acabamos de descrever simplesmente confirmará o que Tomás de Aquino disse sobre a essência do amor oito séculos atrás. O amor não é um sentimento. Não é nem uma atração nem uma combinação de características e hobbies compatíveis. Amar é querer o bem do outro, ensinou-nos o santo. Os aplicativos de relacionamento, sustento eu, foram moldados (e agora são usados) por pessoas que ignoram isso. Presos na sala das escolhas e das considerações autorreferenciais, os usuários modernos de aplicativos não conseguem perceber que o amor começa depois, com um exercício da vontade. Dito de outra maneira, um verdadeiro par não é a pessoa que nos adora, mas aquela que desejamos fazer feliz. A questão é se, em última análise, queremos fazê-lo.

O amor não é um sentimento. Não é nem uma atração nem uma combinação de características e hobbies compatíveis. Amar é querer o bem do outro, ensinou-nos Tomás de Aquino

Existe cura?

Tanto on-line quanto presencialmente, a dura verdade que precisamos aprender é que o amor tem menos a ver comigo e mais a ver com você. Amar é querer promover o bem-estar de outra pessoa: vê-la usar seus talentos, cumprir a missão de sua vida. Nosso próprio bem, enquanto isso, estará nas mãos dela.

A tecnologia não é nosso problema. Nosso problema é a preocupação obsessiva com nosso próprio bem, nossa desconfiança em relação aos outros e o terror de nos perdermos. Nosso problema é termos objetificado a nós mesmos e aos outros. Nenhum algoritmo resolverá tudo isso, e nem alguns encontros presenciais semanais o farão. Resolver a crise do namoro e do casamento exige pensar mais profundamente e, então, investir nas comunidades e nos relacionamentos ao nosso redor. Se forem administrados adequadamente, até mesmo os aplicativos podem ajudar: a maneira como os usamos depende inteiramente de nós.

Marianna Orlandi é doutora em Direito pelas universidades de Pádua (Itália) e Innsbruck (Áustria), foi pesquisadora associada no departamento de Ciência Política da Universidade Princeton, e atualmente dirige o programa acadêmico do Austin Institute, no Texas, onde também é professora, palestrante e mentora de alunos.

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