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Argentina de Messi ou a Espanha de Yamal? Economia explica qual seleção é a melhor

Quando a Economia olha para um time de futebol, ela vê muito mais do que um espetáculo esportivo. Vê um laboratório extraordinário. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Neste domingo, quando Argentina e Espanha entrarem em campo para disputar a final da Copa do Mundo, milhões de pessoas esperarão que um craque decida o título. Na segunda-feira, as manchetes provavelmente terão um único protagonista: o autor do gol da vitória. Mas a Economia voltaria os olhos para outra coisa.

A maioria acompanhará a disputa esperando que um craque decida o título. Talvez Lionel Messi encontre um passe impossível. Talvez Lamine Yamal invente um drible inesperado. Talvez Julián Álvarez ou Nico Williams apareçam no momento decisivo. Na segunda-feira, muito provavelmente, as manchetes terão um único protagonista: o autor do gol da vitória. A Economia, porém, contaria outra história.

Antes de perguntar quem marcou o gol, ela faz uma pergunta mais interessante: quem realmente o produziu? O último toque costuma monopolizar os aplausos. Mas, antes dele, alguém recuperou a posse de bola, outro ocupou o espaço certo, um terceiro atraiu a marcação e um passe tornou possível o seguinte. O gol é apenas a parte visível de uma sequência de decisões coordenadas. É justamente aí que começa a explicação econômica do futebol.

Os olhos da torcida costumam enxergar um herói. A Economia procura revelar algo menos visível: a rede de interações que tornou aquele momento possível. Gols podem ter um autor, mas quase nunca são obra de uma única pessoa.

Essa mudança de perspectiva ajuda a compreender uma das ideias mais elegantes da teoria econômica: um time não é apenas a soma de onze jogadores talentosos. É uma organização na qual o desempenho de cada atleta depende, em grande medida, daquilo que seus companheiros conseguem produzir. Em Economia, essa abordagem ficou conhecida como Economics of Teams. Embora tenha sido desenvolvida para compreender empresas, hospitais, centros de pesquisa e organizações militares, poucos ambientes ilustram seus princípios com tanta clareza quanto um campo de futebol.

A teoria começou a ganhar forma quando os economistas Jacob Marschak e Roy Radner procuraram responder a uma pergunta que continua extremamente atual: como pessoas que possuem apenas informações parciais conseguem agir como se fossem uma única organização? O futebol oferece uma resposta quase perfeita.

Grandes equipes não são formadas pelos onze melhores jogadores. São formadas pelos onze jogadores que melhor funcionam juntos. Essa conclusão ultrapassa o futebol

Nenhum jogador consegue enxergar todo o campo. Cada atleta observa apenas uma pequena parte do jogo, interpreta informações incompletas e precisa decidir em poucos segundos. Ainda assim, onze jogadores conseguem coordenar centenas de decisões durante uma partida, ajustando continuamente seus movimentos às ações dos companheiros e dos adversários. É justamente dessa coordenação que nasce aquilo que o torcedor costuma chamar simplesmente de "entrosamento".

Para a Economia, porém, o fenômeno é mais profundo. Quando uma equipe funciona bem, ela passa a produzir algo que nenhum jogador conseguiria gerar sozinho. Foi essa percepção que levou Armen Alchian e Harold Demsetz, no início dos anos 1970, a ampliar a teoria das equipes por meio do conceito de produção conjunta. Em muitas atividades econômicas, argumentaram, não faz sentido tentar medir exatamente quanto cada indivíduo contribuiu para o resultado final, porque o produto simplesmente não existiria sem o esforço combinado de todos.

Poucos exemplos ilustram essa ideia tão bem quanto um gol. Quem realmente o produziu? O atacante que finalizou? O meia que deu o passe? O volante que recuperou a bola? O lateral que abriu espaço? O zagueiro que iniciou a construção? Ou o goleiro que começou toda a jogada com uma reposição precisa? A resposta da Economia é surpreendentemente simples: todos produziram o gol.

Quanto maior a complementaridade entre os jogadores, menor a importância de atribuir o resultado a um único atleta. O verdadeiro protagonista passa a ser a equipe. O valor de um jogador não está apenas no que ele faz, mas naquilo que permite que os demais façam. Essa forma de enxergar o jogo muda completamente a maneira de avaliar um atleta.

No futebol, costuma-se medir o desempenho por gols, assistências, desarmes ou defesas. São estatísticas importantes, mas insuficientes. Elas registram o resultado final da jogada, não a qualidade das conexões que a tornaram possível. É por isso que dois jogadores com números muito semelhantes podem produzir impactos completamente diferentes quando atuam em equipes distintas.

Um volante que protege a defesa permite que os laterais avancem com mais liberdade. Um centroavante que prende os zagueiros abre espaços para os pontas. Um meia acelera a circulação da bola e faz com que todos recebam a bola em melhores condições. Grande parte dessa contribuição nunca aparece na súmula da partida, mas aparece no desempenho coletivo. É justamente aí que a Economia oferece uma forma diferente de medir valor.

Edward Lazear, um dos criadores da Personnel Economics, mostrou que a produtividade raramente depende apenas das habilidades individuais. Ela resulta da interação entre pessoas, dos incentivos existentes e da forma como diferentes competências se complementam dentro de uma organização. No futebol acontece exatamente o mesmo.

Campeões raramente são construídos pelo brilho isolado de um craque. Eles surgem quando talentos individuais conseguem produzir mais juntos do que produziriam separados

Um excelente lançador produz mais quando encontra um atacante capaz de atacar os espaços. Um lateral ofensivo torna-se mais eficiente quando conta com um volante disciplinado para proteger seu setor. Um goleiro com boa saída de bola vale ainda mais quando atua ao lado de zagueiros capazes de iniciar a construção das jogadas. A produtividade deixa de ser uma característica exclusivamente individual. Ela passa a ser uma propriedade da equipe. Contratar talentos é importante. Combinar talentos é decisivo. Essa talvez seja uma das ideias mais úteis que a Economia pode oferecer aos dirigentes esportivos.

O verdadeiro desafio de um clube ou seleção não consiste em reunir os melhores jogadores disponíveis. Consiste em formar combinações capazes de produzir complementaridades. É justamente por isso que treinadores conseguem, com frequência, transformar elencos modestos em equipes altamente competitivas. Eles raramente tornam seus jogadores mais talentosos. O que fazem é aumentar a qualidade das interações entre eles.

Em linguagem econômica, elevam a produtividade da produção conjunta. Sob essa perspectiva, o treinador deixa de ser apenas um estrategista ou motivador. Torna-se o arquiteto das complementaridades, responsável por construir um sistema em que o desempenho de cada atleta potencializa o dos demais. Talvez seja essa a razão pela qual os grandes técnicos estejam hoje entre os profissionais mais valorizados do futebol mundial.

A mesma lógica também explica um fenômeno aparentemente contraditório: por que tantas equipes repletas de estrelas fracassam. Mais talento nem sempre significa melhor desempenho coletivo. Quando vários jogadores ocupam os mesmos espaços, executam funções semelhantes ou disputam o protagonismo da mesma forma, surgem redundâncias. O resultado pode ser uma equipe menos eficiente justamente porque seus talentos deixam de ser complementares. A Economia desafia, assim, uma das crenças mais difundidas do esporte.

Grandes equipes não são formadas pelos onze melhores jogadores. São formadas pelos onze jogadores que melhor funcionam juntos. Essa conclusão ultrapassa o futebol.

Ela ajuda a explicar por que algumas empresas inovam mais do que outras, por que determinados hospitais obtêm melhores resultados, por que certos laboratórios produzem mais descobertas científicas e por que algumas organizações conseguem transformar recursos semelhantes em desempenhos extraordinários.

A vantagem competitiva raramente nasce apenas do talento individual. Ela nasce da qualidade das relações construídas entre pessoas. Essa forma de pensar muda não apenas a maneira de analisar partidas de futebol, mas também a forma como clubes são administrados.

Durante décadas, a estratégia dominante consistiu em reunir os melhores jogadores disponíveis. A Economia sugere uma pergunta diferente: esses jogadores conseguem produzir mais juntos do que produziriam separados? Essa mudança de perspectiva altera praticamente todas as decisões de um clube. Ela influencia a contratação de atletas, a montagem do elenco, a formação nas categorias de base, a escolha do treinador, o desenho dos sistemas táticos, os critérios de avaliação de desempenho e, cada vez mais, o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial capazes de identificar combinações de jogadores com maior potencial de complementaridade.

A tecnologia tornou-se sofisticada para medir velocidade, distância percorrida, precisão dos passes e dezenas de outros indicadores individuais. O desafio mais difícil continua sendo outro: medir a qualidade das interações entre pessoas. É justamente nesse ponto que a Economia das Equipes permanece surpreendentemente atual.

Seu principal argumento é simples: organizações extraordinárias não são aquelas que reúnem apenas indivíduos extraordinários. São aquelas capazes de transformar talentos individuais em desempenho coletivo. Essa talvez seja a maior vantagem competitiva de um grande clube. Mas a mesma lógica vale para empresas, hospitais, escritórios de advocacia, universidades, laboratórios de pesquisa e praticamente qualquer organização baseada em trabalho em equipe.

O desempenho raramente depende apenas da qualidade de cada profissional isoladamente. Depende da maneira como conhecimentos, habilidades e incentivos se combinam para produzir resultados que nenhum indivíduo conseguiria alcançar sozinho. É por isso que organizações semelhantes, com recursos parecidos e profissionais igualmente qualificados, frequentemente apresentam desempenhos muito diferentes. A diferença costuma estar menos no talento disponível do que na capacidade de coordená-lo.

Quando a Economia olha para um time de futebol, ela vê muito mais do que um espetáculo esportivo. Vê um laboratório extraordinário para compreender como pessoas transformam informação dispersa, habilidades diferentes e objetivos comuns em resultados coletivos.

Neste domingo, milhões de pessoas assistirão à final entre Argentina e Espanha esperando descobrir quem decidirá a Copa do Mundo. Na segunda-feira, as manchetes provavelmente destacarão o autor do gol do título. A Economia lembrará algo diferente: campeões raramente são construídos pelo brilho isolado de um craque. Eles surgem quando talentos individuais conseguem produzir mais juntos do que produziriam separados.

Talvez essa seja a principal lição da final entre Argentina e Espanha – e também uma das mais importantes para empresas, hospitais, universidades e qualquer organização que dependa de pessoas trabalhando em equipe. Porque a vantagem competitiva raramente está no melhor jogador. Está na melhor equipe.

Giacomo Balbinotto Neto é professor do Programa de Pós-Graduação em Economia (PPGE/UFRGS) desde 2000 e pesquisador na área de crescimento econômico. Atualmente é professor de Macroeconomia II da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS e revisor técnico de livros de economia.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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