
Ouça este conteúdo
O comportamento público de nosso atual presidente nos mostra alguns contextos em Lula se sente bem à vontade: ambientes luxuosos, confraternizações com ditadores e valer-se de lorotas quando tem o domínio do discurso. Acostumou-se tanto a viver em uma bolha de colegâncias de poder que se distanciou do povo a quem deveria servir. Trabalha apenas para acudir os anseios dos poucos que compartilham o mando de seu reino. Se precisar retocar a realidade, que seja. Quem trabalha em seus governos acaba virando especialista em maquiagem.
Na educação, a luz que guia as políticas de seu Estado já balofo, mas ainda guloso, são os interesses das diretorias de sindicatos e fornecedores do setor. O aprendizado dos alunos, em particular dos mais pobres, é o refém eterno que justifica o contínuo aumento de recursos que geram contribuições sindicais, construções e venda de materiais educativos de baixa qualidade. Quem não lembra dos donos de faculdades que ficaram bilionários com o financiamento estudantil de cursos de péssima qualidade que hoje fornecem mão de obra infinita à Uber e afins?
Se a população brasileira alcançar a autonomia cognitiva e laboral por meio de educação efetiva, seu rebanho cativo se dispersa. É preciso manter a pose de salvador, mesmo que seja fazendo alguma sombra à verdade. Vou mostrar alguns exemplos de como se faz de conta no campo da educação.
O primeiro é uma armação descarada arquitetada pelo Inep na divulgação do Pisa 2025. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) elabora as provas de aferição da qualidade da educação básica regular (Saeb, que permite a divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), as provas de acesso ao ensino superior (Enem) e coordena a aplicação de provas internacionais como o Pisa, o TIMSS e o PIRLS.
Essa autarquia custa aos nossos cofres públicos cerca de R$ 1,4 bilhão por ano. O potencial criativo de seus técnicos já é famoso por causa das questões cheias de cacos ideológicos do Enem, mas parece que tomaram gosto por viver no mundo da fantasia, em que avaliação de proficiência é peça de propaganda, e não um instrumento para ajudar governos a tomar decisões sérias.
No dia 8 de setembro deste ano, a secretaria-geral da OCDE divulgou os resultados do exame Pisa aplicado no primeiro semestre de 2025. Entre os países membros, o desconforto foi gigantesco, porque as proficiências médias nas três áreas (leitura, matemática e ciências) continuam a cair, mostrando, entre outras causas, os efeitos duradouros da suspensão de atividades letivas causada pela pandemia de 2020–2021, agravados pelo uso excessivo de tecnologia por boa parte dos alunos.
Se a população brasileira alcançar a autonomia cognitiva e laboral por meio de educação efetiva, seu rebanho cativo se dispersa. É preciso manter a pose de salvador, mesmo que seja fazendo alguma sombra à verdade
Enquanto na Europa ministros e ex-ministros trocavam acusações e a imprensa de cada país apresentava ao público uma vergonha a ser superada, o Brasil acordou com a seguinte “manchete” no site do Inep e do governo federal: “Pisa: Brasil está entre os países que mais avançaram em educação nos últimos 20 anos”.
A presidência dessa custosa autarquia conseguiu torcer de tal forma a realidade que usou o fato de que a média dos países da OCDE caiu nas últimas edições para dizer que o Brasil subiu! Não sei se é crime fazer isso, mas é possível que seja, pelo menos, uma grande irregularidade administrativa.
A verdade é que o Brasil jamais mudou de patamar desde a primeira edição do Pisa, em 2000, em nenhuma das áreas avaliadas. Em 2009, o Inep fez uma gracinha estatística, tirando os alunos mais atrasados da amostra, mas a direção do Pisa informou o cambalacho no relatório técnico daquele ano (que ninguém lê) e fez a correção estatística nos anos seguintes.
A proficiência dos alunos brasileiros encontra-se na pontuação mínima, no nível mais baixo da escala da avaliação (nível 2 – indicado como sendo o que separa os analfabetos funcionais dos que realmente conseguem fazer a prova) para a avaliação de compreensão leitora. Para matemática e ciências, nem chega a esse patamar elementar. De 2022 para 2025, a proficiência média dos alunos brasileiros caiu alguns pontos não estatisticamente significativos em leitura e matemática e subiu na mesma proporção – traço em miências.
Em leitura, área em que nossos estudantes de 15 anos se saem menos mal, o percentual de alunos abaixo do nível 2 passou de 50,3% para 51,0% nesse período, enquanto a média da OCDE foi de 26,3% para 31,0%. Tipo assim: “perdeu, mané”, para eles, certo? Desde que não levemos em conta que a média do Brasil em 2025 foi de 408 pontos e a da OCDE, de 461 pontos: a diferença entre estar no grupo dos que quase não conseguem fazer a prova e os que compreendem minimamente o que leem. Melhor nem falar dos países asiáticos.
Ainda bem que a tapeação ficou só nos canais oficiais do governo. Nossa imprensa não dormiu no ponto, embora não consiga explicar mais sobre o Pisa do que nossa posição no ranking dos participantes.
Segundo exemplo: a mágica do avanço da alfabetização que não é alfabetização. Nossos Houdinis do governo federal estão cada vez mais craques em criar um mundo educacional à parte, no qual Lula e os sindicalistas possam ficar confortáveis. Se nossos alunos do 2º ano não alcançam o nível de fluência leitora comum ao dos países desenvolvidos (e ao dos alunos do Chile, do município de Sobral e de boa parte do estado do Ceará antes de Camilo Santana), vamos criar uma prova mais fácil, equivalente a uma pré-alfabetização, que deveria ter sido superada na educação infantil.
Nasce o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), que substituiu a Política Nacional de Alfabetização (PNA) do governo Bolsonaro, só que com uma pegadinha: sem os mesmos parâmetros de aferição da capacidade de ler e demonstrar compreensão, conhecidos como fluência leitora.
Nesses casos, os alunos devem ler textos mais longos e demonstrar compreensão de elementos do texto, como relações entre eventos e personagens, causalidades e agentes. Como referência, na tabela de fluência do município de Sobral, o aluno deve ler de forma autônoma cerca de 80 a 90 palavras por minuto para poder responder a perguntas de compreensão.
O Indicador Criança Alfabetizada é gerado a partir da aplicação de uma prova de “leitura” em que o aluno faz apenas reconhecimento global de palavras simples associadas à sua representação pictórica, “lê” histórias em quadrinhos só com imagens – ou seja, boa parte da prova não avalia a decodificação a partir do conhecimento do código alfabético – e, ao ler textos, apenas deve localizar informações óbvias ou inferir o tema em textos curtíssimos.
É muito importante que se saiba que a prova aplicada no 2º ano é lida em voz alta pelo aplicador, e não pelo aluno, como em Sobral ou no mundo real dos países menos subdesenvolvidos que nós. Além disso, as provas são elaboradas e aplicadas a partir de questões enviadas pelo Inep, mas com controle total no nível subnacional (estados e municípios), que podem locupletar-se com as avaliações que eles mesmos fazem, premiadas pelo benevolente governo federal.
Nada disso acontece ao acaso. As estruturas para enganar a população vão sendo lentamente concebidas, operacionalizadas e cristalizadas em normativas. Querem saber qual a próxima frente de enganação desse auspicioso governo de ilusionistas?
A Lei 15.436, de 17 de junho de 2026, que instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, foi votada nas duas Casas de forma simbólica entre março e maio deste ano. Havia consenso em torno do tema no Legislativo, e a normativa estava relativamente bem-feita.
Era preciso identificar os alunos de alto desempenho para poder prestar-lhes o melhor atendimento educacional possível. A ideia na lei era que estados e municípios identificassem o público-alvo e o atendessem em centros especializados, se assim desejassem (ou nas escolas de origem, de acordo com as possibilidades).
O que fez o nosso grande líder? Vetou todos os artigos da lei que faziam menção à identificação de pessoas com altas habilidades. Mas manteve os artigos que falam do uso de recursos do PAC para construir centros de atendimento. Vai rolar construção, mas não sabemos diferenciar os alunos que deverão ser atendidos nesses centros. Perceberam? Gênio! Como sempre com esse grandessíssimo caudilho: sindicatos e fornecedores passam na frente, enquanto a população paga a conta e fica sem atendimento.
Ilona Becskeházy, ex-secretária de Educação Básica do Ministério da Educação durante o governo Bolsonaro, é mestre e doutora em política educacional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), respectivamente. Foi diretora executiva da Fundação Lemann, consultora educacional e comentarista de Educação na rádio CBN.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



