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O segundo turno tornou a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela reeleição num dramático teste de sobrevivência política. Flávio Bolsonaro (PL) saiu à frente (47,03%) do presidente (45,16%) nos votos válidos e esse susto inicial apavorou a esquerda, eleitoralmente dependente do seu líder.
Na reta final, Lula apelou para o abuso político, com uso da máquina pública no período eleitoral em escala inédita. O vale-tudo inclui reajuste do Bolsa Família, perdão de dívidas para milhões de microempreendedores e até o anúncio de transporte gratuito. A compra de votos passa de R$ 300 bilhões.
O revés nas urnas levou a conflitos internos, à montagem de um comitê de crise e à revisão de estratégias. A deputada eleita Ana Elisa (PT-MG) foi chamada para reorganizar a comunicação digital de Lula e a atuação da própria jovem e emergente estrela petista foi contida com a exposição de suas fragilidades.
A convocação de jovens e artistas visou ajustes tardios de linguagem e de engajamento digital. A exasperação de Lula também se revelou no discurso, ao passar a falar de estímulo ao empreendedorismo, de referências bíblicas e do combate à criminalidade, incluindo a redução da maioridade penal.
Ofensiva digital para reagir à derrota iminente não garante sucesso final
O principal esforço da campanha de Lula para recuperar o terreno perdido nas redes sociais é o canal de WhatsApp Exército do Lula, iniciativa do deputado André Janones (Rede-MG), que atuou como uma usina de desinformação contra Flávio, chegando a ser suspenso pela Justiça Eleitoral.
A onda de distorções na campanha lulista flerta com várias ilegalidades, desde showmícios até coação de eleitores. Para fazer falsos alertas de ameaças ao Bolsa Família caso Flávio seja eleito, o PT distorceu declarações, impulsionou publicações em plataformas digitais e espalhou cartazes.
“É minha última campanha para presidente agora”, disse Lula em São Luís, no dia 20. A declaração dá à eleição um peso que supera eventual quarto mandato dele: mesmo a vitória adiaria, sem resolver, a sua sucessão. Uma derrota tiraria do PT a Presidência quando o maior fiador prepara a saída.
Na “mais bagunçada campanha eleitoral” de sua vida, segundo as palavras do próprio Lula, sobraram manobras para acelerar votações estratégicas no Congresso, como o fim da escala 6 por 1, pedidos de punição a rivais levados à Justiça Eleitoral e cobranças explícitas de posicionamento de famosos.
Sem Lula na Presidência, PT perde nomeações e chance de forjar alianças
A dimensão material pesa. Lula recebeu R$ 115 milhões do fundo eleitoral, incluindo R$ 30 milhões após o primeiro turno. A soma revela investimento partidário pesado na permanência no Palácio do Planalto, que se junta à dinheirama liberada irresponsavelmente pela caneta do chefe do Executivo.
De outro lado, depois do resultado do primeiro turno, partidos do Centrão, com exceção do PSD, declararam apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, incluindo 17 dos 27 diretórios estaduais do MDB. A movimentação mostra que a máquina estatal tem limites diante da chamada perspectiva de poder.
O mercado antecipou apostas na mudança: a Bolsa subiu 7,7% no pregão posterior ao primeiro turno. Investidores associam Flávio a uma maior contenção de gastos. Tal preferência amplia a pressão política sobre Lula, embora cotações não sejam votos e pesquisas ainda indiquem disputa equilibrada.
Nesse cenário, o PT investe em narrativas para justificar eventual derrota para o PL, alegando ingerência dos Estados Unidos, adesão da mídia tradicional ao rival, e, por fim favorecimento a Flávio Bolsonaro por plataformas digitais, com a Meta à frente. Vale apelar a tudo para não sair de cena.
A campanha do medo, a irresponsabilidade fiscal e as demonstrações explícitas de desespero, que se estende a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), sugerem ainda reações contra uma eventual derrota.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




