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Temos de retomar e apresentar a estas crianças que no brincar existem possibilidades infinitas, e o significado das relações que se estabelecem neste ato.
Temos de retomar e apresentar a estas crianças que no brincar existem possibilidades infinitas, e o significado das relações que se estabelecem neste ato.| Foto: BigStock

Se perguntássemos aos profissionais da educação, em março de 2020, se eles acreditavam que a pandemia da Covid-19 perduraria por dois anos, grande parte deles acharia um absurdo, até porque os primeiros comunicados de suspensão das aulas presenciais foram de no máximo 15 dias. Quanta água passou embaixo da ponte depois disso?

E se naquele mesmo período tivéssemos agachado um pouco (ou muito) nossos joelhos e fizéssemos a seguinte pergunta a uma criança de 4 anos, que acabara de ingressar na educação infantil: “você sabe que poderá ficar dois anos dentro de casa e sem qualquer possibilidade de trocar suas experiências, sentimentos ou conhecimento com seus pares?”

Pois é exatamente essa criança que ingressou no ensino fundamental em 2022. Ela não conviveu, nem experimentou a vida em um grupo social diferente da família. E ainda lhe foi tirada toda e qualquer possibilidade de aprender com o outro, conversar, compreender as diferenças ou aprender a discordar de outra pessoa que não representasse uma figura parental.

E é dessa criança que falaremos hoje, sem diminuir qualquer importância das demais faixas etárias – porque sim, podemos falar também dos bebês que conheceram seus tios ou avós cinco ou seis meses após o nascimento, como das meninas e meninos que floresceram a adolescência dentro do quarto, ou até dos idosos que comemoraram seus aniversários isolados, como nos vídeos que circularam na internet. A verdade é que ninguém saiu ileso.

No entanto, desta vez falaremos da Melissa. Filha única, foi planejada e a expectativa em torno da sua vida era grande. Quando completou 4 anos, os pais tomaram uma importante decisão: era chegada a hora de explorar novos territórios, pois tinham a vontade de a menina desbravar o universo escolar. Um mês se passou desde o início das suas aulas. Ela ia feliz para a escola e todo fim de tarde, durante o retorno para casa, contava as novidades. De repente, numa segunda-feira, sua escola e todas as outras fecharam suas portas fisicamente. Então, um outro desafio começou: o ensino on-line.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostrou que 653.499 mil crianças de até 5 anos saíram da educação infantil entre 2019 e 2021. Ou seja, a pandemia pode ter estreitado relações familiares no sentido de permitir aos pais que estivessem por mais tempo com seus filhos, mas as perdas são inegáveis.

Os pais de Melissa foram daqueles que permaneceram e aceitaram o ensino oferecido pela escola, de 40 minutos por dia, com o objetivo principal de manter uma relação de troca com professores e demais alunos. Da mesma forma, também recebiam os famosos kits nos drive-thrus promovidos pela instituição, e diariamente realizavam algumas das atividades com a garota. Mesmo porque sabiam que, se Melissa não estivesse com a aula em frente ao tablet, estaria inevitavelmente assistindo a alguns desses YouTubers que ficam abrindo brinquedos nos vídeos. Afinal de contas, eles permaneceram trabalhando em home office sem que estivessem disponíveis para ela todo o tempo ou sem qualquer rede de apoio.

A menina ficou com aulas on-line entre 2020 e 2021. Mas neste ano, vacinada, retornou à escola carregando na mochila, junto com seus lápis novos, dois sentimentos indispensáveis: felicidade e expectativa. No primeiro dia de aula, com o coração batendo a mil, ela chegou à escola. Não se importou tanto com o distanciamento, as máscaras e muito álcool em gel, já que o importante era estar ali. Acontece que Melissa entrou direto no ensino fundamental, com demandas completamente diferentes daquelas da educação infantil; e é exatamente para isso que precisamos, com urgência, voltar nossos olhos e corações.

O início da alfabetização ocorre neste período e há uma ansiedade velada dos pais, professores e até das crianças na busca por aprender a ler e a escrever. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), informa que o número de crianças de 6 e 7 anos no Brasil que não sabem ler e escrever cresceu 66,3% de 2019 para 2021. O que pode angustiar ainda mais esses pais. Por isso mesmo, desta vez, o ensinar a ler necessita ser mais brincante e acolhedor do que nunca.

Temos de retomar e apresentar a estas crianças que no brincar existem possibilidades infinitas, e o significado das relações que se estabelecem neste ato. Necessitam, em 2022 (e para sempre), estarem lá fora, de pés descalços, inventando moda, com profissionais que saibam da importância de retomar de onde paramos: com as rodas de conversa, na construção dos acordos da sala de aula, colocando as propostas coletivas como prioridade, entre tantas outras demandas vividas na educação infantil que se fazem tão necessárias no fundamental neste momento.

Temos de retomar e apresentar a estas crianças que no brincar existem possibilidades infinitas, e o significado das relações que se estabelecem neste ato.

Estes dias, observando o recreio da escola onde trabalho, um aluno perguntou ao outro: “você quer brincar de batata quente com a bola de borracha?” O outro rapidamente acenou com a cabeça, arregalou os olhos e disse: “sim, mas eu não sei muito bem”. Pois é, eles não sabem. Ou grande parte não sabe. Mas eles retornaram à escola e agora vamos ensiná-los.

Sugiro abrir mão um pouco da obrigatoriedade de registros nos cadernos e utilizar os azulejos, as caixas de areia, os muros ou o papel kraft? Quem sabe isso pode nos levar ao despertar sobre uma nova forma de ensinar. Sei que alguns leitores podem afirmar que ensinar por meio de atividades lúdicas e brincadeiras não é uma novidade. Mas posso dizer que, para muitos, é novidade, sim. E mais: para outros, ainda é inconcebível.

Vamos pensar sobre as Melissas, Brunos, Marias que ficaram dois anos importantíssimos de suas vidas dentro de seus apartamentos ou casas, sem nem mesmo poderem ir ao parquinho. Proponho uma reflexão de uma mudança de paradigma sobre o ensinar e o aprender. A escola é uma instituição potente que provou, neste tempo pandêmico, como pode ser versátil. Então, voltar e reinventar pode significar uma possibilidade de recomeço destas crianças que estão diferentes das que conhecíamos há dois anos atrás.

É importante mencionar que a metodologia de cada escola deve ser respeitada. Não há aqui uma discussão do que é certo ou errado. A questão é outra. É como vamos lidar com as crianças que não sabem brincar porque para elas não foi possível aprender.

Colocar as crianças de seis anos olhando por quatro horas a nuca do amigo da frente e retomar o mesmo modelo, como se nada tivesse acontecido na vida delas, será um fruto que colheremos com sabor amargo no futuro. Para ler o mundo através das letras, antes é essencial ler através das relações.

Carolina Paschoal é pedagoga e diretora da Escola Pedro Apóstolo, em Curitiba (PR).

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