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Por que 72% dos brasileiros dormem mal? Sono virou problema de saúde pública

Estima-se que mais de 70% dos brasileiros apresentem algum problema relacionado ao sono. Estresse, ansiedade, depressão, excesso de telas, energéticos, álcool e cigarros eletrônicos vêm comprometendo o descanso de adolescentes e adultos em uma escala sem precedente. (Foto: Sander Sammy/Unsplash )

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Acabo de participar do XXIII Congresso Paulista de Medicina do Sono, em São Paulo, onde especialistas de todo o país discutiram os avanços mais recentes sobre os distúrbios do sono e seus impactos na saúde. Saí do evento com uma convicção: precisamos despertar para uma das maiores epidemias silenciosas do nosso tempo.

Estima-se que mais de 70% dos brasileiros apresentem algum problema relacionado ao sono. Estresse, ansiedade, depressão, excesso de telas, energéticos, álcool e cigarros eletrônicos vêm comprometendo o descanso de adolescentes e adultos em uma escala sem precedentes. O problema é que dormir mal não significa apenas acordar cansado. A má qualidade do sono está associada ao aumento do risco de obesidade, diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, depressão, declínio cognitivo, acidentes e morte prematura.

Entre os distúrbios mais preocupantes, além da insônia, está a apneia obstrutiva do sono. Frequentemente confundida com um simples ronco, ela afeta pelo menos um terço da população adulta, enquanto cerca de 80% dos casos permanecem sem diagnóstico. Durante a noite, centenas de interrupções respiratórias reduzem a oxigenação do organismo e submetem coração e cérebro a um estresse contínuo.

As consequências são graves: maior risco de infarto, AVC, diabetes, Alzheimer, acidentes de trânsito e morte súbita. Além disso, a apneia compromete memória, atenção, aprendizagem, produtividade e qualidade de vida. Entre idosos, aumenta o risco de quedas, fraturas e hospitalizações. Não se trata apenas de um problema médico, mas de um desafio social, econômico e de saúde pública.

Investir em saúde do sono não é criar uma nova despesa. É reduzir gastos futuros, prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida da população

Os reflexos dessa realidade são percebidos diariamente no SUS. Hipertensão, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, ansiedade e depressão estão entre as principais causas de consultas, exames, medicamentos e internações. O que raramente se discute é que muitas dessas condições possuem relação direta ou indireta com distúrbios do sono não diagnosticados ou inadequadamente tratados.

Continuamos investindo bilhões no tratamento das consequências, enquanto pouco fazemos para identificar e combater as causas. “É como enxugar gelo.”

Por isso, é hora de chamar os gestores públicos à responsabilidade. A saúde do sono precisa integrar as políticas de prevenção e promoção da saúde. É fundamental investir em educação sobre sono, capacitar equipes da atenção primária para identificar pacientes de risco, implementar protocolos de rastreamento para ronco, apneia e insônia e ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento.

A boa notícia é que existem tratamentos eficazes e respaldados por evidências científicas. Médicos, cirurgiões-dentistas, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e profissionais de educação física podem atuar de forma integrada na prevenção e no tratamento dos distúrbios do sono, reduzindo sintomas, comorbidades e custos assistenciais.

Há profissionais qualificados, universidades, hospitais-escola e serviços de referência. O conhecimento técnico existe. O desafio agora é transformar esse conhecimento em políticas públicas capazes de ampliar o acesso da população ao diagnóstico e ao tratamento.

Investir em saúde do sono não é criar uma nova despesa. É reduzir gastos futuros, prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida da população. Poucas ações têm potencial para impactar simultaneamente tantas condições que hoje sobrecarregam unidades básicas, ambulatórios, serviços de urgência e hospitais.

É uma necessidade biológica fundamental. É uma questão de saúde pública. E está na hora de transformá-la em prioridade.

Félix Ribeiro é pós-graduado em Odontologia na Medicina do Sono.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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