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Opinião do dia 1

Brasileiros go home!

Mark Twain em um de seus livros, "Inocentes no Exterior", ironizava o caipirismo de seus compatriotas que, ao irem pela primeira vez à Europa, descobriam, para seu profundo espanto, que quando a Bíblia relata a criação do mundo não se refere aos Estados Unidos e que o bom Deus não falava inglês quando expulsou Adam and Eve (oops, Adão e Eva) do paraíso. O etnocentrismo americano é mais do que conhecido e só com muito esforço a economia globalizada das empresas do país está se transformando em uma cultura globalizada de seu povo.

Nós brasileiros somos exatamente o oposto: a população é curiosa (até demais) em relação ao resto do mundo, ansiosa (até demais) para incorporar as novidades que vêm de fora; adora uma imitação. Já as empresas são extremamente conservadoras, resistem às inovações, têm preguiça de se adaptar a outras economias e de abandonar velhos hábitos para assumir novos papéis no mundo globalizado.

Se olharmos para a história econômica de nosso país, veremos que esse caipirismo empresarial é um traço persistente de nossa formação nacional e que a política estatal tem uma parcela substancial de culpa nele. Nós nunca vendemos ativamente nossos produtos no exterior: estes foram sempre comprados por empresas estrangeiras que se instalavam no Brasil para organizar, coordenar e centralizar as atividades de exportação. Por décadas, tivemos um papel dominante no comércio mundial de café mas os produtores brasileiros nunca passaram além da porta dos armazéns em que entregavam sua produção aos exportadores. O mesmo com o açúcar; o mesmo com a soja, em que as cooperativas, por mais fortes que fossem, se limitavam a entregar o produto aos grandes "traders" internacionais. Na economia moderna, deu-se o mesmo com as manufaturas.

Se observarmos o comércio internacional brasileiro, veremos que uma parte substancial é realizada por multinacionais e transnacionais estrangeiras que operam no Brasil. Ou seja, as decisões sobre a exportação ou não de produtos brasileiros está muito mais nas mãos dos executivos estrangeiros das empresas globais do que nas mãos dos brasileiros eles próprios.

E onde é que entrava o governo? Em tudo ou quase tudo. Estabelecendo preços mínimos para exportar, exigindo registros prévios, centralizando as atividades comerciais em suas mãos, dificultando a iniciativa privada sempre em nome de uniformizar, otimizar, maximizar e outros verbos do jargão burocrático. Em alguns casos, como o do café, o nível de intervenção governamental era sufocante. Em outros, como o da cana-de-açúcar, a intervenção beirava o ridículo para proteger interesses regionalistas fortemente entranhados na política brasileira. Durante décadas os industriais do açúcar e do álcool do Sudeste não puderam modernizar seus parques industriais sem autorização prévia do Instituto de Açúcar e do Álcool, que sistematicamente negava tais licenças baseado na suposta preservação dos empregos na indústria sucro-alcooleira do Nordeste. No trigo, a situação era pior ainda, com o governo centralizando a compra da matéria-prima e impondo a necessidade de que os candidatos a industriais tivessem uma cota de produção concedida pelo governo federal; um verdadeiro cartório. A produção da folha de flandres era um virtual monopólio da CSN e as indústrias de papel e celulose viviam de Herodes para Pilatos para driblar contingenciamentos e cotas de exportação. Essa mistura letal entre empresários tímidos e acomodados de um lado e governo onipresente de outro só podia dar no que deu: no final de 1990, o Brasil representava menos de 1% do comércio mundial embora sua participação no PIB mundial passasse de 3%.

Nos últimos quinze anos, a situação começou a mudar e essa mudança se acelerou de 2000 para cá. A abertura abrupta da economia representou um choque de realidade para muitos empresários, deitados comodamente no berço esplêndido do protecionismo. Diga-se de passagem que o protecionismo não beneficiava apenas os locais mas igualmente as multinacionais que operavam no Brasil. Ao mesmo tempo, o Estado desistiu de bancar o empresário e vendeu suas empresas ao setor privado que rapidamente multiplicou o seu tamanho e sua presença externa. De 2000 para cá, o Brasil passou a ser um exportador minimamente respeitável, triplicando as vendas externas apesar do dólar ter se desvalorizado nos últimos três anos mais de 35%.

Agora, lemos que as empresas brasileiras estão investindo pesadamente no exterior para aumentar a sua competitividade global: os aviões da Embraer já são sino-brasileiros, a WEG, a Gerdau, a Brahma e a Vale do Rio Doce e um punhado de outras empresas cosmopolitas brasileiras estão se instalando no exterior e exportando capital e tecnologia em busca de mercados. Pelo andar da carruagem, dentro em pouco viveremos o dia em que em muitos países farão passeatas e exigindo: Brazilians, go home! Ou na versão bolivariana, tão ao gosto de nossos profetas do atraso, Brasileños fuera!

Belmiro Valverde Jobim Castor é Professor do Doutorado em Administração da PUCPR.

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