Das dez marcas de café mais famosas do mundo, apenas uma é brasileira e é cultivada em Minas Gerais, para desgosto e frustração de nós paranaenses

A venda do Café Damasco para a multinacional Sara Lee tem um gosto amargo para os 150 funcionários que perderam seus empregos às vésperas do Natal, pois a nova proprietária vai transferir a produção para Jundiaí. Que fazer? Os resignados dirão que, com a universalização dos mercados, é inevitável que as grandes empresas, altamente capitalizadas, com gigantescas redes de distribuição, dominem os mercados locais e regionais e imponham sua supremacia. Seria, em síntese, o espírito do capitalismo moderno globalizado. Mas será mesmo moderno esse tipo de capitalismo destrutivo?

Quais são os três maiores produtores mundiais de café? O Brasil, o Vietnã e a Colômbia. Mas quem fatura mais com café no mundo? Torrefadores italianos, alemães e americanos. Italianos e alemães não produzem um grão, mas compram no exterior, beneficiam , criam valor agregado e vendem. E os americanos? Aqueles que até dez, quinze anos atrás bebiam uma água escura, levemente aromatizada e de gosto execrável à que denominavam de American coffee? Eles mesmos. A indústria de cafés finos nos Estados Unidos fatura anualmente 18 bilhões de dólares e cresce numa velocidade espantosa. Antigamente, o café (ou aquilo que supostamente se qualificava como tal) era servido junto com a comida, em xícaras grandes, para ajudar a empurrá-la goela abaixo. Hoje, quem pede um café para fechar um almoço ou um jantar num restaurante americano deve se preparar para ler um menu, com explicações detalhadas e pedantes a respeito das características de cada tipo de grão: o da Nicarágua "é cultivado artesanalmente nos altiplanos que recebem os ventos de dois oceanos, tirando daí seu aroma e sabor especiais". "O Moka da Etiópia é cultivado no Iêmen, ao sul da Adis-Abeba, o berço do café no mundo, por herdeiros diretos do pastor que, no século nono, levou suas cabras para pastar e viu que uma delas, depois de comer as frutinhas de um arbusto, saltava alegremente, cheia de energia". E assim por diante.

Na Itália, pedir um café numa tavola calda exige demorado treinamento anterior: qual café o senhor ou a senhora deseja, um corto, um doppio, um ristretto? Um caffelate, um capuccino. Con crema ou senza crema? Graças a isso, os italianos transformam uma saca do produto que custa menos de 250 dólares em 5,2 mil dólares, pois essa é a renda gerada por 4 mil doses vendidas em média a um euro cada uma. Enquanto isso, o Brasil – maior produtor mundial – patina. Das dez marcas mais famosas do mundo, apenas uma é brasileira e é cultivada em Minas Gerais, para desgosto e frustração de nós paranaenses que gostávamos de nos considerarmos "O" produtor de café brasileiro por excelência.

A Colômbia é um caso de sucesso que deveria servir de exemplo para nossa cafeicultura. Há 40 anos, a Federação dos Cafeicultores promove o café, com ajuda de um alto grau de profissionalismo de uma grande agência mundial de propaganda. Juan Valdez e seu burrico são os personagens de uma das mais bem-sucedidas campanhas publicitárias de todos os tempos, que criou na mente do consumidor americano, a imagem de um café artesanal, colhido à mão, selecionado grão a grão por um campesino simpático, o que muito possivelmente está mais no território dos mitos do que na realidade das fazendas modernas, em que máquinas automáticas fazem a colheita sacudindo impiedosamente os pés de café e a seleção dos grãos é feita por equipamentos eletrônicos. Resultado: como atestam as estatísticas da Organização Internacional do Café, o café brasileiro vale menos 15% nos mercados internacionais do que o similar da Colômbia.

É melancólico ver mais um produto paranaense desaparecer, mas isso não é o reflexo do capitalismo moderno, globalizado, e sim do tipo de capitalismo anacrônico que praticamos no Brasil, permanentemente de costas para os mercados e atrasado 20 anos em relação às suas exigências.

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do Doutorado em Administração da PUCPR.

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