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Há exatamente 30 anos o mundo inteiro tomou conhecimento do maior acidente nuclear da história depois dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki. Uma tragédia de proporções gigantescas com repercussões até os nossos dias. Até o momento do acidente, a extinta União Soviética ainda gozava de certa relevância e solidez em seu programa nuclear. Seu pioneirismo, em 1954, com a inauguração da primeira central nuclear do planeta é inegável.

O sistema de proteção da usina de Chernobyl estava seriamente comprometido. Esse acidente já estava sendo previsto desde 1981 por muitos especialistas, devido à baixa qualidade dos materiais usados na fabricação do reator que explodiu. Fontes oficiais do governo na época afirmavam que a possibilidade de acidente em Chernobyl era estimada na proporção de um por 10 milhões – mas, no dia 26 de abril de 1986, o acidente aconteceu.

Precisamos questionar se tudo o que é tecnicamente possível é eticamente desejável

A nuvem tóxica que saiu do reator de Chernobyl espalhou-se por muitos quilômetros e uma onda de medo varreu os países que naquele momento usavam ou não a energia nuclear como fonte alternativa de energia. Imensuráveis foram os impactos à saúde das pessoas, o temor e a angústia das consequências de tal contaminação. Nenhum setor da sociedade estava preparado para dar conta de tal realidade.

Ainda hoje, embora exista uma área de exclusão considerável do epicentro fatídico, as populações das redondezas que ali vivem não escondem o medo de conviver com os efeitos desconhecidos da radiação, cujo impacto não afetou apenas aqueles atingidos no momento da explosão, mas deixou uma marca hereditária em todos os seres vivos direta ou indiretamente relacionados ao evento. Algumas regiões se tornaram impróprias para qualquer cultivo e Chernobyl revelou que a tragédia com a energia nuclear, embora possa ser considerada regionalizada, tem impactos globais.

Nesse sentido, cabe a reflexão de que, embora sejamos capazes de criar notáveis artefatos para amenizar as dificuldades diárias, a técnica apresenta um caráter ambivalente, que ao mesmo tempo representa esperança, mas possui consequências e desdobramentos. Essa condição exige que o Homo sapiens questione se tudo o que é tecnicamente possível é eticamente desejável, de modo a impedir que as possíveis propostas de êxitos anunciadas diariamente, frutos do avanço tecnocientífico, sejam realizadas apenas para atender aos desejos do Homo faber.

O acidente de Chernobyl, portanto, além de um dilema ético – ao questionar se devemos ou não fazer certas ações na medida em que somos capazes de realizá-las –, suscita questões do universo da bioética, na medida em que a vida e a dignidade das pessoas, assim como a biodiversidade, devem estar em primeiro lugar, acima de qualquer interesse.

Se o aumento da capacidade tecnocientífica, ao mesmo tempo em que traz certa tranquilidade, também representa ameaça, coisifica e banaliza a vida, é urgente revisitarmos a proposta de Potter e recuperar o ideal de ponte entre a tecnociência e a ética. Embora seja muito difícil colocar um limite naquilo que mais nos orgulha, isto é, na capacidade humana de se autossuperar tecnicamente, é bom sempre nos lembrarmos da afirmação do filósofo Hans Jonas: “é possível viver sem um suposto bem supremo, mas não é possível viver com o mal extremo”.

Rosel Antonio Beraldo é mestrando em Bioética pela PUCPR. Anor Sganzerla, doutor em Filosofia, é professor do Programa de Pós-Graduação em Bioética da PUCPR. Daiane Priscila Simão Silva, doutora em Genética, é professora do Programa de Pós-Graduação em Bioética da PUCPR.
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