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Colin Powell, ex-secretário de Estado dos EUA, em foto de agosto de 2020
Colin Powell, ex-secretário de Estado dos EUA, em foto de agosto de 2020| Foto: EFE/EPA/DNCC

A história da vida de Colin Powell mistura-se com os eventos que definiram o fim do século 20 e o início do atual. Filho de imigrantes jamaicanos, estudou no City College, em Nova York, lugar em que participou de um programa de treinamento para formar futuras lideranças militares. E foi nesse ambiente que Powell progressivamente ascendeu até chegar ao posto de maior centralidade decisória das forças armadas, o de comandante do Estado-Maior dos EUA durante o governo de George H. W. Bush (pai), além de ser secretário de Estado, com George W. Bush (filho).

A passagem de Powell pelo Vietnã, que lhe rendeu uma medalha de honra, seguida de seu trabalho como assistente direto de Caspar Weinberber, secretário de Defesa do ex-presidente Ronald Reagan, foi decisiva para projetar a sua figura como uma das pessoas mais populares dos EUA, assim como para estabelecer a “Doutrina Powell”. A experiência formativa do Vietnã e a oposição direta à participação dos EUA em uma operação de guerra entre Israel e Líbano, que deixou 241 americanos mortos em 1983, assentou as bases da sua doutrina, inicialmente elaborada nos seguintes seis princípios: 1. o “engajamento” deve ser considerado vital para os interesses nacionais dos EUA ou de seus aliados; 2. as forças armadas só devem ser enviadas com a “clara intenção de vencer”; 3. ao colocar vidas americanas em risco, “deveríamos ter obrigações políticas e militares claramente definidas”; 4. o tamanho e propósito da força enviada para lutar deveria ser “continuamente reavaliadas e ajustadas, se necessário”; 5. as tropas devem ter a garantia, antes de irem para o exterior lutar e possivelmente morrer, que têm “o apoio do povo americano e do Congresso”.

Após desenvolver e ficar conhecido por esse conjunto de princípios reticente ao engajamento militar, Powell viu uma virada em sua trajetória de glória e prestígio como secretário de Estado do governo George W. Bush. Um militar e político com perfil moderado e negociador esteve à frente das duas maiores operações de guerra no Oriente Médio após o 11 de Setembro: a invasão ao Afeganistão, que se tornou a maior guerra em que os EUA se envolveram em sua história; e a invasão ao Iraque, seguida pela deposição de Saddam Hussein. E foi essa última que deixou a cicatriz de maior escuridão em sua trajetória pessoal, assim como para a própria história contemporânea.

De um general herói, crítico do intervencionismo externo, tornou-se chanceler vilão, que defendeu as duas maiores e mais desastrosas operações de guerra dos EUA no Oriente Médio.

O enigma Powell é derivado do seguinte quebra-cabeça: como um general/chanceler com uma história crítica à intervenção militar foi até as Nações Unidas defender a intervenção no Iraque, afirmando a existência de armas de destruição em massa em território iraquiano? As provas de que não havia um programa nuclear ativo no Iraque ficaram totalmente evidentes após a intervenção e levaram Powell a ser substituído no segundo mandato de Bush filho. A quimera deriva da ilusão do secretário de Estado sobre a existência desse programa existia, somada à sua fidelidade ao presidente.

O governo Bush filho foi formado, para os assuntos internacionais, por uma divisão: de um lado, Powell e Condoleezza Rice, antes conselheira de Segurança Nacional e conduzida ao cargo de secretária de Estado no segundo mandato de Bush filho; do outro, o vice-presidente Dick Cheney e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld. Essa composição estabeleceu uma dualidade no processo decisório de política externa e de defesa, na qual Powell representava o perfil moderado e diplomático, enquanto Cheney e Rumsfeld eram os intervencionistas. E, de fato, Powell era inicialmente contra a intervenção no Iraque, enquanto a dupla Cheney-Rumsfeld era artífice do engajamento dos EUA.

O ponto de virada, seguido pelo alinhamento em direção à intervenção, ocorreu quando a CIA, a agência de inteligência americana, blindou a falta de evidências concretas da existência de um programa nuclear iraquiano. Powell foi convencido da existência das armas e, em seguida, foi decisivo para convencer a opinião pública, após seu discurso nas Nações Unidas. A legitimidade e a força da figura de Powell defendendo a suposta existência de armas de destruição em massa em posse de Sadam Husseim foram a bala de prata para a operação, que mudou a geometria de forças do Oriente Médio, ao destruir o poder regional representado pelo Iraque.

Em vias de síntese, Powell esteve à frente dessas duas ações que moldaram a história contemporânea: as guerras no Afeganistão e Iraque. De um general herói, crítico do intervencionismo externo, tornou-se chanceler vilão, que defendeu as duas maiores e mais desastrosas operações de guerra dos EUA no Oriente Médio.

André Frota é professor de Relações Internacionais e Geociências do Centro Universitário Internacional Uninter.

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