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Opinião do dia 1

Como a sociedade deve encarar o divórcio

Para compreender o que é o divórcio, é preciso, antes, salientar o que é casamento, instituição esta bastante ignorada quanto ao seu sentido mais estrito.

O que constitui o casamento não é um mero sentimento romântico e pueril, espontâneo e cheio de sensações; estes sintomas psicofisiológicos podem sustentar a primeira fase de um namoro, mas jamais subsidiar um casamento maduro. Este exige, por sua natureza, compromisso e entrega totalizadoras entre homem e mulher, capazes de levá-los a se desenvolver continuamente sob o impulso de beneficiar o outro e, portanto, a própria união. Decorre daí que o casamento é um pacto, um selo de unidade cujo objetivo maior é constituir uma família.

O assustador número de dissolvências conjugais das últimas décadas só tem cooperado para aumentar os transtornos psíquicos e sociais entre crianças e jovens, que, diferentemente do que muitos pensam (que o divórcio dos pais é um alívio), apresentam-se como forma de expressar um sofrimento: o da ruptura do contrato conjugal de seus pais, que para os filhos é o mesmo que falta de amor. O divórcio é sempre um "corte na carne" dos filhos, e sempre muito doloroso mesmo para casais em estado de conflito permanente.

As queixas de crianças e jovens após a separação dos pais vão desde dificuldades escolares até consumo de drogas, passando por estados depressivos, distúrbios alimentares, ingresso precoce na sexualidade e estabelecimento de relações pessoais superficiais. Outro grande problema causado pelo divórcio é a ausência da figura paterna no lar, o que acarreta, nos meninos, insegurança quanto à identidade masculina, e nas meninas, sentimento de desproteção e tendência a envolver-se em relacionamentos inadequados.

Quando analisamos com rigor, vemos que a facilidade com que muitos casais chegam ao divórcio é assustadora e os motivos frágeis, subjetivos, e até mesmo infantis, caracterizando um acentuado despreparo emocional e uma expressiva imaturidade nos relacionamentos de pessoas cronologicamente adultas, mas operativamente limitadas quanto à capacidade de lidar com as naturais dificuldades da vida a dois. Ora, o casamento exige que se trabalhe nele, não há nada que sobreviva sem cuidado, sendo os cônjuges, obviamente, os primeiros responsáveis pelo sucesso do seu casamento. Para isto, é necessário que marido e mulher se administrem e se moldem às exigências da vida em família; é inerente à vida conjugal promover a melhora de si mesmo e do outro para o bem de todos, sendo que em caso de se apresentar problemas excessivamente difíceis para o casal, a busca de ajuda externa revela a tentativa de salvar o sistema familiar. Afinal, não há no mundo grupo tão importante como o da família bem constituída. É ele que dá o suporte para uma sociedade sadia e ordenada. Sociologicamente falando, o desfacelamento dos valores que devem reger uma sociedade passa necessariamente pela desestruturação da família.

Uma das justificativas referidas para que um casamento acabe em divórcio é o término do amor. O amor, no entanto, não acaba – e nunca esteve em crise. Em crise estão algumas pessoas que confundem o amor com sensações; estas sim, naturalmente acabam, enquanto o amor permanece; não, porém, onde há mesquinhez.

Pesquisas indicam que até os anos 80, as principais causas alegadas para o pedido de divórcio eram questões concretas, como a infidelidade, a violência doméstica e problemas graves com a família do cônjuge. Mais tarde, os motivos ficaram mais subjetivos, como a falta de comunicação e de entrosamento entre o casal e a disputa de poder entre ambos, o que evidencia claramente uma postura omissa e descomprometida com relação ao objetivo primordial de formar e manter uma família.

É inegável que o divórcio em alguns raríssimos casos deve ser aplicado, por conta de condutas destrutivas e patológicas apresentadas por um dos cônjuges ou pelos dois, e que comprometem a vida de ambos e dos filhos. Entretanto, convém honrar a instituição matrimonial, aquela que dá sustentabilidade real a uma humanidade que carrega em seu bojo a carência da intimidade pessoal que só uma família pode dispor. O pragmatismo de uma realidade anti-natural como o divórcio tem deixado marcas dolorosas nos filhos, e, em muitos ex-casais, uma sensação de fracasso sem luta.

Como psicóloga, e, portanto, profissional da saúde, seria uma incoerência se, após 20 anos vendo o sofrimento contido ou expresso de tantos filhos do divórcio, e todo um séqüito de perdas, como doenças, pobreza e desesperança, eu ousasse compactuar com ele.

Lélia Cristina Bueno de Melo é psicóloga clínica especializada em desenvolvimento pessoal e familiar (IEF), neuropsicologia (PUC-PR) e educação especial (UFPR).

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