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Um texto de meu ex-professor, Miroslav Volf, publicado na revista americana Christianity Today, ganhou o prêmio de melhor artigo de teologia de 2025. Apesar de gostar de muita coisa que Miroslav escreve, esse texto eu achei surpreendentemente fraco. Parece-me que ele se encolhe, deixando de confrontar o problema principal, ou talvez simplesmente falha em perceber a natureza real do problema do transumanismo.
Mas, antes de tecer minhas críticas ao teólogo, deixe-me explicar os problemas do transumanismo. Miroslav usa as declarações de Yuval Harari em seu livro Homo Deus como exemplo de apologia ao transumanismo materialista por excelência e, nisso, ele acerta.
Harari defende que a humanidade está entrando numa nova fase histórica em que biologia, inteligência artificial e processamento de dados permitirão ao ser humano superar antigos limites, como sofrimento, doença, envelhecimento e talvez até a própria morte. Ele apresenta o transumanismo como a continuação natural do humanismo moderno.
Não questiona: é a marcha inexorável do progresso, sendo que, se a ciência já derrotou boa parte da fome, das epidemias e da miséria física, por que parar antes de redesenhar a própria consciência humana? A ideia central é que o ser humano seria, no fundo, um sistema biológico de processamento de informação, um algoritmo sofisticado que pode ser melhorado.
No momento em que reduzimos a pessoa humana a matéria manipulável, destruímos também o fundamento da dignidade humana. Direitos passam a existir apenas como acordos temporários, facilmente descartáveis quando se tornam 'ineficientes'
Nesse modelo, liberdade vira otimização; moralidade vira eficiência, que já tinha virado desde o surgimento da ética utilitária; e salvação vira aprimoramento tecnológico. Harari sugere que a evolução por seleção natural está sendo substituída por uma evolução guiada por inteligência, e que agora o “designer” seria o próprio ser humano.
É claro que essa visão de mundo é fascinante. Ela promete libertação da dor, expansão da inteligência, controle emocional, longevidade indefinida e talvez imortalidade. Ela seduz especialmente sociedades modernas já moldadas pelo materialismo e pela dependência tecnológica. Mas o que Harari está fazendo? Está traduzindo antigos desejos religiosos em linguagem científica. Harari propõe nada mais do que uma nova versão de fé que, como disse o filósofo político Eric Voegelin, “imanentiza o eschaton”.
O velho sonho humano de vida eterna, transcendência, conhecimento absoluto e fuga do sofrimento continua existindo; apenas mudou de roupa. Deus desaparece, mas a estrutura do desejo religioso permanece. O Vale do Silício vira uma espécie de catedral secular. Dados substituem revelação. O engenheiro toma o lugar do sacerdote.
Só que os milênios de experiência humana deixaram registrados, em estudos filosóficos e teológicos, que a ideia de que o ser humano pode ser reduzido à biologia ou ao processamento de informação é não apenas reducionista, mas destrutiva da essência de nossa humanidade. O ser humano não é apenas um animal inteligente ou uma máquina complexa. Ele é criatura. Sua dignidade vem do fato de participar de uma realidade maior que a matéria. Deus criou o mundo.
O transumanismo científico atual não é apenas uma questão ética individual. É suicídio da espécie vestido com a linguagem do progresso. Nada de novo debaixo do sol. A alma ocidental, cada vez mais cansada de si mesma, tenta novamente se destruir
É esse conceito “arcaico” e talvez “danoso para a humanidade”, segundo alguns inimigos da cultura judaico-cristã, que sustenta toda nossa crença na dignidade humana e no “direito” que temos de melhorar. Essa é uma convicção ontológica, ou seja, nos dá senso de origem e destino, e teleológica, nos dá propósito. Saber-nos criados à imagem de Deus, todos nós, seres humanos, sem exceções, sem limitação de classe, cor, poder financeiro, país de origem, gera em nós a obrigação de pertencer um ao outro, porque somos todos iguais, filhos do mesmo Pai, criados com a mesma finura e beleza, nas mesmas condições, com o mesmo valor inato. Esta criação nos atribui dignidade.
Consciência, amor sacrificial, beleza, senso moral, adoração, busca por significado – nada disso pode ser explicado completamente por utilidade evolutiva ou análise de dados. O ser humano possui interioridade, alma, profundidade simbólica e responsabilidade moral. No momento em que reduzimos a pessoa humana a matéria manipulável, destruímos também o fundamento da dignidade humana. Direitos passam a existir apenas como acordos temporários, facilmente descartáveis quando se tornam “ineficientes”.
Sob essa perspectiva, o transumanismo também interpreta mal o sofrimento e os limites humanos. O cristianismo, por exemplo, não vê finitude como defeito técnico a ser eliminado, mas como parte da condição da criatura, dentro da qual surgem humildade, dependência, amor, sacrifício e formação moral. Harari assume que sofrimento é apenas interrupção sem sentido, e não algo que também pode gerar sabedoria, compaixão ou redenção. Assim, o projeto transumanista não busca apenas curar o ser humano; ele acaba tentando abolir a própria condição humana.
Existe ainda um perigo político profundo embutido nessa visão. Se seres humanos são apenas algoritmos, então aqueles que controlam os algoritmos tornam-se a nova classe sacerdotal. Empresas tecnológicas, governos e elites científicas passam a ter autoridade inédita para definir o que significa melhoria, inteligência, saúde ou até humanidade. Por trás da linguagem da libertação pode surgir uma humanidade completamente administrada por vigilância, previsão comportamental e controle biológico. A palavra “aprimoramento” pode rapidamente se transformar em “seleção”.
Miroslav, em seu artigo, começa frágil, interpretando mal o texto clássico de Giovanni Pico della Mirandola. Ele diz que Pico, filósofo cristão do século XV, advogava o transumanismo. Pico, ao contrário, não estava defendendo a ideia moderna de que o ser humano pode se reinventar infinitamente através da tecnologia. Sua visão ainda era profundamente cristã. Para ele, o ser humano podia tanto se elevar quanto se degradar, mas sempre dentro de uma ordem criada por Deus. A liberdade humana em Pico não significa abolir os limites da criatura nem o transformar em máquina.
O transumanismo científico atual não é apenas uma questão ética individual. É suicídio da espécie vestido com a linguagem do progresso. Nada de novo debaixo do sol. A alma ocidental, cada vez mais cansada de si mesma, tenta novamente se destruir. A diferença agora é o poder tecnológico. Outras civilizações podiam apenas entrar em decadência moral, destruir povos, matar seus filhos. A nossa talvez finalmente consiga redesenhar o próprio ser humano até eliminá-lo.
O problema não é apenas “ir longe demais” com a tecnologia. O problema é mais profundo. O transumanismo dissolve a própria ideia do que é um ser humano. Ele separa inteligência do corpo, razão da formação moral, consciência da condição de criatura. O resultado é a substituição gradual do que nos torna humanos por eficiência, cálculo e máquina.
Volf tenta responder com humildade e cautela. Ele nos convida a manter uma “humildade antropológica”. O problema é que o materialismo não é e nunca será humilde. O orgulho e a prepotência são parte de sua crença fundamental. Pessoas como Yuval Noah Harari afirmam abertamente que qualquer avanço tecnológico é melhor do que limites morais, e que a razão sozinha basta para definir o que somos. Uma vez aceita essa lógica, qualquer inteligência superior à humana passa a ser vista não apenas como útil, mas como moralmente superior.
– Sim, professor, é grave assim.
O perigo central do transumanismo não é apenas orgulho humano. É o abandono da própria humanidade. Uma civilização que deixa de acreditar que o ser humano possui valor intrínseco inevitavelmente trocará humanidade por conforto, eficiência e capacidade técnica.
A ironia é brutal: a mesma cultura que passou décadas desconstruindo toda ideia transcendente de dignidade humana agora espera que os “direitos humanos” sobrevivam ao desaparecimento do próprio humano.
Só uma teologia corajosa, capaz de afirmar transcendência e, portanto, a realidade irredutível da criação divina, consegue resistir às pretensões morais materialistas do transumanismo. Não existe equilíbrio estável entre essas duas visões, ou concessões que os teólogos possam fazer ao materialismo. Ou vemos o ser humano como criatura, portadora de um significado anterior à utilidade, ou concedemos ao materialismo que nos trata apenas como matéria-prima esperando para ser redesenhada. A segunda alternativa jamais produziu nenhum bem na história da humanidade e o que pode fazer agora, montada no cavalo branco do poder tecnológico, é aterrador.
Braulia Ribeiro é mestre em Linguística, mestre em Divindade pela Yale University e doutora em História e Teologia Política pela University of St. Andrews (Escócia).
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



