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O presidente russo, Vladimir Putin, em celebração pelo oitavo aniversário da anexação da Crimeia, em março
O presidente russo, Vladimir Putin, em celebração pelo oitavo aniversário da anexação da Crimeia, em março| Foto: EFE/EPA/RAMIL SITDIKOV/SPUTNIK

Globalização, crescimento econômico, acordos internacionais e instituições multilaterais. Esses eram os princípios pelos quais as nações estavam se relacionando nos últimos 30 anos. Vivíamos em um mundo baseado no liberalismo dentro das relações internacionais e acreditávamos que as competições entre nações seriam, durante anos a fio, apenas focadas em mercados consumidores, desenvolvimento de tecnologias e competição entre empresas multinacionais. Um grande engano.

Em 2022 tudo mudou quando o presidente da Rússia, Vladimir Putin, decidiu fazer o inimaginável: uma invasão militar em uma nação eminentemente europeia. Assim começou não apenas a guerra na Ucrânia, mas também o fim de um longo período de liberalismo e a abertura de um período de realismo nas relações internacionais.

Mas o que significa isso? O realismo significa que as nações passam a operar com uma ótica diferente. Nesta visão, os Estados são os principais agentes das relações internacionais. O sistema político internacional é anárquico e não há uma coordenação global capaz de exercer uma ordem sobre todos. Os Estados procuram ampliar seu poder, principalmente o militar, para garantir sua própria autopreservação e sua capacidade estratégica.

Não há exemplo mais claro do que as sanções econômicas aplicadas pela União Europeia, pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido contra a Rússia. Apesar de elas serem, do ponto de vista estratégico, a maneira mais assertiva de contra-atacar a incursão militar russa na Ucrânia sem começar uma Terceira Guerra Mundial, seus efeitos estão sendo sentidos nas economias pelo mundo inteiro, seja no formato de inflação, pela diminuição do ritmo econômico – podendo chegar até ao desabastecimento de algumas commodities em um futuro próximo –, seja pela segurança e pela integridade das nações que são mais importantes que a economia neste momento, características clássicas do realismo que não víamos havia décadas.

Para muitos, o que nos espera após o fim deste conflito no Leste Europeu é um complexo novo mundo. Não se sabe exatamente como esta guerra vai terminar, mas algumas consequências já são claras e certas. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ganhou uma nova razão de ser, e deve ser não apenas expandida como também fortalecida pelos seus membros com o objetivo de impedir novas tentativas expansionistas russas ou de outras nações não liberais. A União Europeia tornou-se mais unida e mais coesa em suas decisões, principalmente do ponto de vista da defesa militar do grupo e de seus interesses estratégicos, e por isso vem revisando sua dependência em relação à Rússia. Nações como a Alemanha e o Japão estão ampliando de maneira significativa seus investimentos militares e em nações ocidentais, e isso deve dar início a uma nova era de corrida armamentista.

O ponto principal que devemos acompanhar após o fim da guerra na Ucrânia será definitivamente a entrada do mundo em uma “Guerra Fria 2.0”, mas que não será caracterizada como uma disputa entre capitalismo e comunismo como no século XX, até porque na realidade não existem mais nações comunistas, apenas ditaduras que usam a bandeira do comunismo para subjugar sua população. A nova Guerra Fria será dentro do capitalismo do ponto de vista do sistema de produção; a disputa dar-se-á entre as democracias liberais e as nações não liberais. Cada uma delas vai tentar colocar seus pontos de vista e seus interesses dentro do contexto internacional e expandir suas zonas de influência e poder militar.

A nova Guerra Fria será dentro do capitalismo do ponto de vista do sistema de produção; a disputa dar-se-á entre as democracias liberais e as nações não liberais

Uma certeza que podemos ter a respeito desta guerra é que a economia russa deverá regredir uns 20 anos no tocante à credibilidade, à liberdade econômica e à capacidade de internacionalização. O presidente Putin criou uma realidade alternativa – infelizmente crível para dois terços da população russa – para seu próprio povo em relação às razões para a ocorrência da guerra, mas que deve levar o país a um cenário de inflação, recessão e falta de confiança durante anos, tornando a Rússia um pária internacional, colocando-a, talvez, em um time abaixo das 20 maiores economias do planeta.

Outra certeza é de que a União Europeia deverá se tornar um player muito mais importante em todos os aspectos das relações internacionais. Sua capacidade de expansão, seu mercado consumidor, o euro e, agora, a liderança alinhada entre Alemanha, França e Itália, as três maiores economias do bloco, mostram que existe vontade política e aprovação da população para uma maior integração e ação exterior, principalmente no campo militar.

Para nós, no Brasil, será necessário entender que somos uma nação de paz, que condenamos as guerras e acreditamos na diplomacia como solução para conflitos, como foi dito por nosso embaixador, Ronaldo Costa Filho, no Conselho de Segurança da ONU. Também é importante lembrar que temos nossos próprios interesses: com os Estados Unidos no campo da tecnologia aeroespacial, com os europeus no acordo Mercosul-União Europeia; com os chineses na área comercial; e com os russos em tecnologia. Apesar de defendermos sempre o diálogo e condenarmos ações militares, nunca poderemos nos alinhar unilateralmente em conflitos internacionais sem levar em conta nossos próprios interesses. As nações não têm amigos, elas têm interesses e agem em prol dos interesses de suas populações e de suas empresas. Não podemos jamais nos furtar a essa realidade.

Igor Macedo de Lucena, economista e empresário, é doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa e membro da Chatham House – The Royal Institute of International Affairs e da Associação Portuguesa de Ciência Política.

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