O Instituto de Engenharia, concluindo um ciclo importantíssimo de debates sobre as deficiências da infra-estrutura paranaense e brasileira, promoveu um seminário sobre educação, ciência e tecnologia e me distinguiu com um convite para ser um dos palestrantes. Falar sobre educação no Brasil é ao mesmo tempo fácil, monótono e frustrante. Fácil por que qualquer pessoa com um mínimo de acuidade é capaz de identificar os principais males do nosso processo educacional. Monótono porque, entra ano, sai ano, os problemas são os mesmos, os avanços são quase que imperceptíveis e os sucessos são esparsos e magnificados pela propaganda oficial. É frustrante porque não se vislumbra qualquer sinal de que despertaremos dessa letargia infinita para que, finalmente, decidamos fazer um esforço sério para romper esse compromisso silencioso e maligno com a ignorância.

Se retórica e conversa fiada levassem um país a vencer o atraso já seríamos uma nação de sábios. A preocupação com a educação está na boca de dez entre dez políticos e integrantes da elite brasileira e a falta de atenção oficial com ela provoca protestos indignados. Mas, na hora de realmente se fazer algo concreto, a realidade é bem outra. Algumas fontes como o do Instituto Anísio Teixeira e a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países mais ricos do mundo e publica um documento completíssimo sobre educação – o "Education at a Glance" (Olhar sobre a educação) –, demonstram que muito do que vem se dizendo sobre os avanços na educação brasileira é mero exagero publicitário. Quando os investimentos públicos em educação são comparados com o PIB per capita a realidade emerge e afasta as distorções habituais pois a mera comparação de gastos sem levar em conta o crescimento populacional falseia os resultados. Assim, emergem algumas verdades desagradáveis.

Em primeiro lugar, os gastos em educação primária e média no Brasil são os menores do mundo civilizado. Os governos, tanto o federal como o estadual, afirmam que os dispêndios em educação estão crescendo muito, mas isso é uma meia-verdade pois, comparados com o PIB per capita, continuam do mesmo tamanho há vários anos como atesta o Instituto Anísio Teixeira. Ou seja, o que é gasto com a educação de cada brasileiro continua o mesmo e o que se gastou a mais foi apenas para não deixar que o crescimento demográfico deteriorasse ainda mais a situação.

Enquanto isso, a qualidade da educação pública brasileira continua lamentável e tem sido maquiada por alguns truques burocráticos e estatísticos. Por exemplo: o número de estudantes que repetem o ano diminuiu radicalmente e isso é apresentado como resultado de um processo escolar mais eficiente. Infelizmente não o é; na maior parte trata-se simplesmente do resultado das políticas de progressão automática em que os alunos avançam de uma série para outra sem ter de passar por provas ou qualquer outra forma objetiva de aferição de seu nível de conhecimento. Resultado: as estatísticas melhoram, o ensino fica mais "eficiente" pois as vagas que antes seriam destinadas aos repetentes podem acomodar novos alunos, a burocracia fica encantada com os "avanços" mas a qualidade continua do mesmo tamanho.

O que surpreende e escandaliza é que não conseguimos aprender nem com nossos sucessos. Há 50 anos o Brasil mal e mal produzia bicicletas. Hoje é o segundo maior produtor de aeronaves leves no mundo. Entre uma realidade e outra estão os investimentos públicos na criação do ITA e do CTA para formar uma massa crítica capaz de dar esse salto colossal. A agricultura brasileira era um desastre de produtividade, a pecuária era dizimada pela aftosa e pela brucelose. Hoje, somos líderes mundiais no agronegócio, os maiores exportadores de carne bovina e ficamos em segundo entre os exportadores de aves e suínos. Entre uma e outra realidade, 30 anos de investimento intelectual da Embrapa e de um punhado de universidades e centros de pesquisa públicos e privados. Em 1960, estávamos engatinhando na área energética; hoje o Brasil é líder na tecnologia de construção de grandes barragens e usinas hidrelétricas graças ao investimento na formação de quadros técnicos em empresas então modelares como a Copel, a Cemig e em um pequeno número de universidades, como a nossa UFPR.

Agora me respondam: um país que é capaz de fazer avião a jato, que conseguiu em uma geração passar da mediocridade absoluta em produção agrícola para a liderança mundial, que foi capaz de construir uma Itaipu, pode ter dificuldades em garantir à sua população o acesso a uma educação básica decente? Aliás, nem é necessário responder.

PS: Que pensaria Parigot de Souza, o grande criador do padrão de excelência na Copel, dos novos projetos de investimentos da "sua" empresa? A sorte de alguns é que ele não está mais entre nós para saciar essa curiosidade.

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