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Como explicar o paradoxo da pobreza humana em paraísos ecológicos

  • PorRodrigo Penna-Firme
  • 27/12/2019 16:09
Como explicar o paradoxo da pobreza humana em paraísos ecológicos
| Foto: Marcos Tavares/Thapcom

Durante a COP 25, em Madri, em entrevista ao El País, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, fez declarações que sintetizam teses sobre elos entre pobreza e meio ambiente. Dentre suas declarações, mencionou que “se não resolvermos a pobreza, não haverá preocupação com o meio ambiente”. Salles ainda afirmou que “as pessoas que vivem na Amazônia têm a maior quantidade de recursos naturais e, ao mesmo tempo são as mais pobres de todo o país”. A primeira fala é tese mais popular: a degradação ambiental é, em parte, fruto de comportamentos antiecológicos de pobres, como resultado da luta diária pela sobrevivência. Afinal, quem passa fome ou necessidade básica não teria motivação para salvar o mico-leão dourado, a não ser que esta fosse estratégia de sobrevivência. A parte demograficamente errada e politicamente incorreta, que Salles não defendeu, é que pobres seriam antiecológicos porque geram mais filhos que ricos. Em outras palavras, mais gente consumindo recursos finitos de forma insustentável, e sem acesso às tecnologias e conhecimentos científicos atuais sobre gestão de recursos naturais.

A outra tese, implícita na segunda colocação de Salles, é paradoxal: esquemas de conservação da natureza podem manter pessoas em certo nível de pobreza. Voltarei a este ponto, mas antes vejamos sua antítese: o “ecologismo dos pobres”, identificado por Juan Martinez-Alier. Esta corrente defende que a degradação ambiental pode gerar pobreza. Além disso, mesmo quando degradação não produz pobreza, pobres são empurrados para locais de risco, degradados e poluídos, com menor valor de mercado. Degradação e pobreza seriam inerentes ao capitalismo. Uma versão do ecologismo de pobres é a florestania (cidadania florestal), conceito criado por Antônio Alves, poeta acreano, e difundido como política pública pela ex-presidenciável Marina Silva. A ideia central é que manter pessoas na natureza conservada, vivendo de práticas de manejo ecológico e ecoturismo, seria a solução da pobreza.

Florestanistas deixam de perceber, e parece ser isso que Salles aponta, que, apesar de benéficos tangíveis aos que vivem e habitam estas regiões, a função preconizada por discursos e políticas ambientalistas até então predominantes, que visa mantê-los como “guardiões da mata”, pode ser tiro que saiu pela culatra, visto que a adoção deste papel, em certas circunstâncias, limitou o desenvolvimento local. Nos casos em que a natureza ficou conservada, isso pode ter ocorrido à custa da pobreza local, em meio à riqueza exuberante de biomas como a Amazônia, situação que caracteriza a pobreza no paraíso.

Durante muito tempo se pensou que a degradação ecológica causaria redução no bem-estar humano. Mas não foi isso que a própria ONU apontou na Avaliação Ecossistêmica do Milênio, realizada entre 2001 e 2005. Paradoxalmente, o bem-estar aumentou nas últimas décadas, apesar dos declínios globais na maioria dos ecossistemas. Significa que degradar a natureza é bom, ou que é isso que devemos fazer? Absolutamente não. A observação da realidade também indica que não há país desenvolvido que tenha mantido sua natureza intocada ou quase, como pretendem ambientalistas radicais. Estes países deixaram pequena parcela do que sobrou de suas áreas naturais (seu capital natural) para o futuro. Historicamente, suas necessidades foram supridas à custa do uso de recursos naturais de outros países.

Mas como explicar o paradoxo da pobreza humana em paraísos ecológicos? Antes é preciso entender a pobreza como fenômeno multidimensional, além do critério de renda. Muitos ativistas defendem que indígenas, quilombolas e ribeirinhos não podem ser pobres, pois não se sentem assim e não dependem de dinheiro para viver. Isso é meia verdade. Pobreza pode incluir taxas de mortalidade elevadas, doenças muitas vezes já extintas em outros lugares, deficiências nutricionais, limitada educação formal, acesso precário ou inexistente a meios de transporte e eletrificação doméstica, saúde pública deplorável ou improvável, barreiras a mercados de consumo e trabalho. Enfim, um bloqueio múltiplo a liberdades, direitos constitucionais e universais. Existem exceções? Claro que sim. Há indígenas, tradicionais e rurais que estão satisfeitos com seus modos de vida, ou que por nenhuma destas medidas (coisa rara) seriam considerados pobres. Mas, como lembra Salles, deixem que eles, pobres ou não, falem por si mesmos sobre seus desejos e suas condições de vida. Acontece que também existem milhares de insatisfeitos, com ou sem nome e etnia, que, na medida em que se percebem como encarregados de salvar o planeta para franceses, noruegueses e brasileiros, isolados do desenvolvimento científico e tecnológico, crescentemente se recusam a serem cristalizados como pré-modernos.

Pobreza no paraíso existirá enquanto os habitantes destas regiões continuarem pagando o preço da conservação global da natureza, ao abrirem mão, por vontade própria e/ou coerção, dos benefícios da modernidade, vivendo cristalizados economicamente, para que ecossistemas do mundo inteiro sejam preservados. Quando e como serão recompensados pelo que fazem pela humanidade e pela natureza? Sobre esta tese, Salles tem muita razão.

Rodrigo Penna-Firme, biólogo, mestre em Ciências Ambientais e Florestais e PhD em Antropologia, é professor do departamento de Geografia e Meio Ambiente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

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Comentários [ 14 ]

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    Alexandre

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    Correto e honesto! Excelente artigo!

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    WILSON ZETI

    ± 229 dias

    É muito simples, se eu puder viver do fruto de uma árvore ela fica em pé, se não vira carvão.

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    DENISSON HONORIO DA SILVA

    ± 229 dias

    Artigo brilhante que apenas poderiamos encontrar na Gazeta. É preciso desmitificar essas platitudes ditas ad nauseum pela tais midias progressistas. Para ser claro como o ministro já disse:querem que conservemos as matas, paguem por isso. O leitor abaixo, Eduardo Prestes, foi muito arguto como se é dependente do bem estar através de elementos da civilização. E deixar o indio ou ribeirinho na mata inóspita é sim condená-lo a uma indecorosa pobreza. Há muita hipocrisia neste tema. Depois da derrocada do comunismo é o que sobrou para a esquerda se vangloriar.

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    Luiz

    ± 229 dias

    Excelente artigo ... confortante saber que pessoas altamente preparadas são capazes de avaliar esta questão fundamental, especialmente para o Brasil, sob um ponto de vista humano e científico bem equilibrado, sem a visão distorcida geralmente adotada por partidos políticos que querem, ao mesmo tempo, "defender a floresta" e "defender as populações pobres que lá vivem", sem considerar que isto gera situações conflitantes e que tem um preço a ser pago

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    Paulo Eugênio Anunciação

    ± 229 dias

    Excelente artigo sobre um assunto tão sério, mas que tem sido usado ardilosamente para fins puramente ideológicos. Ainda bem que existe gente séria fazendo Ciência no mundo acadêmico!

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    Decio mango

    ± 229 dias

    Como disse Neruda "o índio e um pobre sentado em cima de um monte de ouro"....

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    Sandro Rones

    ± 229 dias

    OLHEM BEM O QUE VOCÊS APOIAM: '" a degradação ambiental é, em parte, fruto de comportamentos antiecológicos de pobres, como resultado da luta diária pela sobrevivência"...... FINALMENTE ELE CONSEGUIU EXPLICAR QUE O QUE DESTRÓI O ECOSSISTEMA NÃO É A AGRICULTURA AGRESSIVA, A MINERAÇÃO ILEGAL E A EXTRAÇÃO (ROUBO) DE MADEIRA!!!! livrai-me do mal, amém!!!!!!!!!

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  • E

    Eduardo Prestes

    ± 229 dias

    A natureza é cruel. Ser miserável é o estado natural do ser humano. Coloque um milionário na natureza e logo estará em risco de morrer. Se for um lugar frio, em poucas horas estará entre a vida e a morte. Num deserto, em 2 dias, por falta de água. Numa floresta tropical, em 3 ou 4 dias, por falta de comida. Para sobrevivermos, precisamos de cadeias produtivas, de organização e trabalho. A riqueza tem causa, a pobreza não, é apenas fruto de uma cadeia produtiva pouco eficiente.

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    • E

      Eduardo Prestes

      ± 229 dias

      O homem só sobrevive num ambiente civilizado, controlado. Sou montanhista e posso assegurar, a natureza é linda, mas cruel. Para sobreviver, é preciso levar uma mochila cheia de produtos. E depois de uns dias, é obrigatório voltar para a civilização, para se reequipar. A floresta intocada não permite a sobrevivência de ninguém. O ser humano precisa alterar o ambiente, criando estruturas, para conseguir se estabelecer e sobreviver. A riqueza depende de cadeias produtivas eficientes, como acontece nas democracias capitalistas ocidentais. Sem isso, as pessoas permanecem na pobreza ou miséria, que é o resultado inevitável de sistemas econômicos (e políticos) ineficientes.

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    • C

      Cidadão Brasileiro

      ± 229 dias

      Decio mango: tente elaborar melhor seu ponto de vista, dentro da realidade, e não da ficção ideológica, se possível.

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    • D

      Decio mango

      ± 229 dias

      Cidadão Brasileiro: mas que conversinha mais mediocre

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    • S

      Sandro Rones

      ± 229 dias

      Ivo, a erva daninha a qual você se refere é um ser com capacidade de pensar! Neste contexto de anestesia geral onde alguns cérebros ainda resistem , dizer que as populações pobres locais são o que destroem o ecossistema vai além da anestesia geral. É uma anestesia moral, onde você perde a vergonha na cara e qualquer tipo de decência humana para justificar as atrocidades contra a própria sobrevivência humana deste planeta.

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      IvoHM

      ± 229 dias

      Atenção, Eduardo: o seu comentário atraiu uma espécie daninha de melancia, daquelas que sorrateiramente, com uma conversinha muito linda, cheia de boas intenções, se instalam no processo produtivo, no final produzindo fome, miséria, morte e destruição.

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    • C

      Cidadão Brasileiro

      ± 229 dias

      A natureza não é cruel! O homem é capaz de cooperar em larga escala, enquanto que os biomas são o resultado do equilíbrio da coexistência de espécies incapazes. O único bicho que tem faculdades mentais para se sobrepor ao ecossistema é o homo sapiens. O problema é que o caminho mais curto para o enriquecimento - de alguns - não passa pela conservação, obviamente. O que pode promover a sustentabilidade é a educação, que é o que permite localizar e estabelecer cadeias produtivas de baixo impacto, ao invés de disputar merrecas pagas por madeireiros e mineradoras ilegais para ter como dar algo de almoço aos filhos.

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