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Crianças erotizadas: não pode!

Dias atrás, as fotografias do ensaio intitulado "Sombra e Água Fresca", da revista Vogue Kids, foram alvo de contundentes críticas por parte da sociedade em geral, especialmente nas redes sociais, por apresentarem meninas em poses sensuais e mesmo erotizadas. A grande questão colocada dizia respeito ao fato de que tais fotografias valiam-se de crianças representadas como se mulheres adultas fossem, fazendo caras e bocas costumeiras às modelos adultas, mas incompatíveis com a faixa etária das meninas fotografadas.

Eram fotos que apresentavam as meninas em um cenário praiano, mas elas não estavam correndo ou brincando no mar ou na areia, como seria natural. Aliás, nem sorrindo estavam. Com semblantes mais fechados e expressões lânguidas, posaram em posições de clara fragilidade, tirando a blusa e olhando por cima do ombro; com a alça da roupa caída para mostrar o biquíni de um dos lados; e com o corpo deitado e as pernas entreabertas. Difícil explicar sem mostrar.

Importante é ressaltar que a sensação de desconforto com as imagens foi praticamente um consenso entre mães, pais, especialistas em infância, estudantes, instituições que trabalham em prol da garantia dos direitos das crianças etc. Enfim, houve um repúdio generalizado por parte da sociedade brasileira.

Vale ainda ressaltar que as fotos faziam parte de um editorial de moda, com vistas à promoção do consumo de produtos de vestuário diversos, no interior de uma revista sobre moda infantil vendida em todo o país como encarte da revista Vogue. Não se tratava, pois, de um ensaio fotográfico meramente artístico ou de acesso restrito.

Além de promover a venda das roupas e acessórios, o ensaio continha uma estética no sentido de direcionar a infância ao consumo e mesmo à adultização da infância e à objetificação feminina. Isso sem falar no fato de que as meninas retratadas, ao participarem do referido ensaio, trabalharam, sendo que a legislação brasileira veda o trabalho infantil, permitindo que a sua forma artística aconteça, desde que tenha as devidas autorizações, a fim de se garantir o respeito ao direito da criança de ter seus interesses preservados.

Não há dúvidas quanto à importância de as crianças serem representadas na mídia, até para serem vistas e enxergadas na sociedade como sujeitos de direitos que são. No entanto, as produções culturais devem contribuir para o desenvolvimento infantil ou, ao menos, não o prejudicar. No caso, as fotos, da forma como foram apresentadas, e até por toda a repercussão que causaram, certamente prejudicaram o melhor e o maior interesse das meninas retratadas, que, de um dia para o outro, viram-se no centro de uma ampla discussão acerca dos processos de trabalho infantil, erotização e adultização precoce aos quais acabaram sendo submetidas.

A intensa mobilização social, que culminou em uma série de denúncias de pessoas físicas diversas aos órgãos responsáveis, levou a uma denúncia formal por parte do Ministério Público do Trabalho, que, por conseguinte, gerou uma decisão da Justiça do Trabalho determinando a retirada da revista Vogue Kids de circulação e das fotos de todas as mídias digitais. Ponto para a sociedade brasileira, que se valeu do Judiciário e das leis que garantem prioridade absoluta na proteção das crianças!

Isabella Henriques é diretora do Instituto Alana.

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