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Interior da Biblioteca Nacional
Biblioteca Nacional| Foto: BibliotecaNacional/divulgação

Na era tecnicista, ainda mais agora que a pandemia nos empurrou para o plano da cibernética, algo parece inútil: cultura. O termo ganhou ares de pedantismo desde que toda forma de criatividade indistinta resolveu se avolumar ao seu significado.

Mas, basicamente, colere, do latim, significa “cultivo”, “cuidado”, e “crescimento” como resultado. Trata-se, no sentido de aplicação humana, de aprimoramento enquanto desenvolvimento das habilidades intelectuais, condição que distingue o homem dos outros seres animados. Ser culto, portanto, é ser trabalhado nas aptidões humanas, treinado na capacidade intelectiva para reconhecer o bom e se satisfazer com o belo.

Todavia, entre nossos representantes, observo, poucos são os que ainda apreciam arte e se interessam por história. Nos sermões do clero, nem a retórica é valorizada. Foi-se a época em que os chefes ocupavam as tribunas dos teatros, os abastados eram colecionadores de acervos e, nas rodas sociais, os influenciadores se exibiam por meio da boa educação e do discurso com referências literárias. Mesmo os homens modestos tinham para seu próprio conforto uma poesia decorada e o seu orgulho estava em manter tradições. Atestava-se, como certificação de competência, que os que mereciam as cadeiras públicas eram pessoas com algum percurso na área de humanidades, polimento, erudição, ao menos fala ou boa escrita (no Paraná, é oportuno destacar que, atualmente, dois senadores, o vice-governador e o prefeito da capital são membros da Academia Paranaense de Letras, mas isso não é tão frequente).

Com as salas de apresentação fechadas, bem como museus e bibliotecas, alguns podem aventar uma avaliação sobre a utilidade do aparato cultural para a prática contemporânea, uma vez que constatamos que é possível viver sem frequentar esses ambientes que não representam uma prioridade para a salvação num contexto de emergência. Com o heroísmo de profissionais de saúde, nos hospitais se salva a condição biológica; mas há a dimensão humana, que precisa também ser cuidada para que, depois dessa crise, nossa sobrevivência não termine na frustração de seres racionais vegetando ante a estupenda performance de computadores. Daí a necessidade daquela satisfação de reencontrar um livro clássico na prateleira, vasculhar a memória daqueles que nos precederam e conseguir ainda se embasbacar por um painel pincelado por mão humana.

Iuri Gagarin, ao chegar ao espaço, teria proferido “não vi Deus”. Não me parece que ele tivesse essa expectativa teológica tão impactante. Na verdade, acho mais surpreendente descobrir neste diário de bordo que indagações metafísicas acompanham o homem onde esteja, e que não podemos rejeitar nossa alta vocação à filosofia antes de sermos astronautas.  A cultura pode nos regenerar, sarar o luto e lustrar o sentimento alegre de admiração pela própria existência e as coisas belas, e até mesmo técnicas, que produzimos e que, por isso, estão abaixo de nós. Do contrário, a geração forjada para a robotização, se não for no teletransporte, pode se desintegrar na tristeza por não saber se admirar nem das próprias realizações, se para isso não formos cultivados.

Khae Lhucas Ferreira Pereira é doutorando em Filosofia. 

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