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Parece que todo mundo está falando sobre data centers hoje em dia; eles tomaram conta da internet com memes e teorias da conspiração. Como professor de computação, decidi aplicar à situação um método acadêmico de pesquisa e separar o exagero e a emoção que frequentemente acompanham essas questões atuais e polarizadoras.
Dois pontos importantes para começar: o uso de água e de energia pela IA. Como demonstrei em meu artigo anterior, segundo fontes recentes, os data centers utilizam cerca de 0,02% do abastecimento de água dos Estados Unidos, e a maioria dos futuros data centers já está planejada para utilizar tecnologias avançadas de refrigeração que exigem pouquíssima água. Embora seja verdade que os data centers demandem muita eletricidade, seu impacto sobre os sistemas elétricos e os consumidores tem sido muito exagerado. Uma matéria da Bloomberg, frequentemente citada sobre o assunto, menciona que, no caso mais extremo, uma região do país registrou um aumento de 267% nos custos de energia no mercado atacadista. Esse dado, referente a uma única região e a um caso específico, tem sido utilizado de maneira incorreta para afirmar que esse seria o aumento esperado ou médio — quando, na verdade, trata-se do valor máximo — e sequer leva em conta o fato de que são custos de energia no atacado, que não se traduzem diretamente em custos para o consumidor. (Frequentemente, as próprias empresas de tecnologia absorvem esses aumentos.) O que esse dado nos mostra é que existem lugares onde simplesmente não deveríamos construir data centers. Esse é um problema que deve ser evitado. O outro problema são empresas que agem de maneira antiética.
Um dos exemplos mais graves de implantação antiética de um data center é o Colossus, da xAI, próximo a Memphis, no Tennessee. Anos atrás, a empresa prometeu que não dependeria do abastecimento local de água para o sistema de refrigeração. Não apenas continua utilizando água local diariamente, como a solução proposta foi adiada. Além disso, a xAI chegou a operar 35 turbinas a gás movidas a metano sem as devidas autorizações no Colossus 1, a partir de junho de 2024, gerando até 421 MW sem quaisquer licenças prévias de construção ou de operação para emissões atmosféricas previstas na Lei do Ar Limpo (Clean Air Act). Se algum exemplo pudesse mostrar como não se deve construir um data center, seria este.
Outro exemplo importante é o Project Blue, em Tucson, Arizona. Beale, o responsável pelo desenvolvimento do projeto, enganou deliberadamente a cidade e utilizou o abastecimento local de água para limpar a poeira do data center. E utilizou muita água. Isso fez com que Tucson interrompesse seu abastecimento de água. Não bastasse isso, funcionários da prefeitura e a Amazon haviam firmado um acordo para manter em segredo dos moradores informações sobre o centro durante três anos. Não é de surpreender que muitas comunidades desconfiem de empresas de tecnologia que chegam aos seus bairros e as enganam sobre seus planos e os benefícios que prometem trazer.
Há casos em que as empresas adotam uma postura antiética na implantação de data centers e há casos em que o local simplesmente não é adequado. Às vezes, os dois problemas ocorrem simultaneamente. O Colossus 1 é um exemplo de ambos: o engano foi extremo e seu uso de água está efetivamente causando problemas no aquífero local.
Um exemplo de escolha ruim de localização, mas com uma conduta ética, é o West US 3, da Microsoft, na região de Phoenix. A Microsoft concordou separadamente em investir US$ 40 milhões diretamente na empresa de abastecimento de água. A empresa está testando uma nova estratégia de refrigeração que não utiliza água, e publicou informações sobre seu consumo de água e outros dados relevantes em seu Relatório de Sustentabilidade Ambiental. No entanto, construiu esses data centers no meio de uma região extremamente árida e com pouca disponibilidade de água. Há razões para isso, mas, em termos gerais, retirar água do sistema de abastecimento de uma cidade desértica próxima não é o ideal. Não são só más notícias: a situação levou a Microsoft a investir em novas estratégias de refrigeração que não dependem do abastecimento local de água. Esse problema não deverá afetar tanto os futuros data centers, graças às novas tecnologias de refrigeração que exigem pouca ou nenhuma água do sistema local.
Provavelmente você não ouviu falar de muitos exemplos de projetos de data centers bem-sucedidos, e isso se deve, em parte, ao fato de que se algo funcionou, se está tudo bem, não costuma virar notícia. No entanto, a CNN publicou recentemente uma reportagem exatamente sobre isso: Quincy, no estado de Washington, abriga mais de 30 data centers e experimentou um crescimento extraordinário como resultado.
Atualmente, os data centers respondem por uma estimativa de 57% da arrecadação do imposto predial de Quincy, financiando uma onda de projetos de infraestrutura pública: um centro aquático de US$ 15 milhões, um complexo esportivo coberto de 143 mil pés quadrados, uma escola de ensino médio de US$ 120 milhões, um novo hospital, biblioteca, postos policiais e de bombeiros, calçadas pavimentadas, sistemas de esgoto e uma estação de tratamento de águas residuais.
As tarifas residenciais de eletricidade no condado aumentaram 3,5% no ano passado, enquanto grandes consumidores industriais, como os próprios data centers, absorveram um aumento de 9,1%. Os data centers instalados na região estão pagando pelos custos adicionais de infraestrutura e de geração de energia que provocam, em vez de repassar esses custos às famílias.
Outra vantagem desse local é a abundância de energia hidrelétrica barata. Quanto à água, a Microsoft fez uma parceria com a cidade para construir uma instalação de reúso de água de US$ 30 milhões. A única ressalva realmente relevante é que os data centers geraram tanta receita e desenvolvimento econômico que os preços dos imóveis subiram em toda a região.
Matriz de localização e ética dos data centers
Como se pode ver, existem, sim, maneiras adequadas de construir data centers, e há exemplos de instalações que são éticas e benéficas. Os benefícios para uma comunidade local são substanciais. Não apenas a arrecadação tributária aumenta, mas os data centers também têm a vantagem de serem empreendimentos geralmente de baixo tráfego e relativamente silenciosos. A receita pode aumentar sem que seja necessário construir muitas estradas novas ou trazer grandes volumes de tráfego barulhento.
Isso se soma ao fato de que simplesmente precisamos de mais armazenamento de dados. Sim, a IA está impulsionando grande parte do crescimento atual, mas nós temos produzido continuamente mais dados e precisamos de um lugar para armazená-los. Tiramos fotos com nossos celulares, deixamos mensagens de voz e escrevemos e-mails. Com a autopublicação, hoje muitas pessoas também escrevem livros. São compostas muitas músicas e produzidos inúmeros vídeos digitais. Tudo isso vai para os data centers. Todos os seus aplicativos: data centers. Toda a internet: data centers. Praticamente todo o conhecimento humano está agora armazenado nesses centros de dados; eles são os arquivos modernos da criatividade, da educação e das realizações humanas.
Os ganhos de eficiência na IA são reais e impressionantes. Sam Altman, da OpenAI, observou que os modelos do ChatGPT se tornaram aproximadamente mil vezes mais eficientes para um determinado nível de inteligência em menos de dois anos. Mas isso não significa que a demanda por data centers acabará diminuindo; significa o contrário. Todas as vezes que um recurso computacional ficou muito mais barato, historicamente não passamos a utilizá-lo menos; encontramos mil novas utilizações para ele. A queda dos preços do armazenamento de dados não levou as pessoas a usar menos dados; hoje, ninguém apaga mais nada. A previsão de Altman de que utilizaremos IA e dados da mesma maneira que utilizamos serviços básicos como a água e a internet provavelmente se tornará realidade — e, de certa forma, isso já aconteceu.
Isso não está acontecendo apenas nos Estados Unidos. China, Europa, Oriente Médio e Sudeste Asiático estão todos correndo para construir data centers, e enfrentam problemas muito semelhantes. Trata-se de um fenômeno global e, pelo rumo que as coisas estão tomando, os data centers serão tão parte da infraestrutura moderna quanto aeroportos, linhas telefônicas e ferrovias, às quais as pessoas também já se opuseram no passado. Certa vez, agricultores acreditaram que as faíscas produzidas pelos trilhos das ferrovias poderiam incendiar suas terras, e médicos da época alertavam que o corpo humano não seria capaz de sobreviver viajando a velocidades superiores a 20 milhas por hora. Vemos os mesmos padrões de resistência a novas tecnologias se repetirem ao longo da história.
A verdade é que os data centers, por si só, não são o problema. Escolhas ruins de localização e práticas empresariais antiéticas é que provocam os problemas que temos visto. Se formos criteriosos sobre onde construir e em quem confiar, poderemos evitar as armadilhas e colher os benefícios.
Stephen Weese é professor de computação e consultor nas áreas de ciência da computação, tecnologia da informação e inteligência artificial. Ele também atua no setor de mídia e é CEO da Marvelous Spiral Studios.
©2026 Foundation for Economic Education. Publicado com permissão. Original em inglês: The Truth About Data Centers



