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Produtividade aumentou durante a pandemia, mas efeito é temporário
Imagem ilustrativa.| Foto: Pixabay

Olhamos para o horizonte de um parque florestal e reconhecemos uma pedreira de basalto ao fundo, um bosque de pau-brasil, uns cavalos atravessando o rio e seres humanos brincando num gramado verdejante. Então, percebemos que somos uma forma entre outras formas, uma unidade de processo entre outras unidades, um ser entre outros seres.

Nesse olhar panorâmico, notamos que todos os seres, cada um deles, é uma unidade. Essa pedra aqui é diferente daquela árvore que, por sua vez, não tem qualquer relação com aquele cavalo e, este, com o próprio homem. Também notamos que a pedra, a árvore, o cavalo e o homem possuem uma organização interna, em que cada parte cumpre uma função num todo dotado de organicidade, e sempre tensionado para a autorrealização, para uma plenitude de seu próprio desenvolvimento.

Todavia, esse olhar não fica nesse estágio. Ele agudiza-se na mesma proporção em que a investigação científica avança, a qual, por sua vez, depende, como condição de possibilidade, da inteligibilidade daquela natureza mirada por nosso olhar. Ao longo da história da ciência, várias foram as formas estabelecidas para o reconhecimento do caráter cognoscível da natureza.

Então, notamos que a realidade que nos circunda é caracterizada por ser analógica. Ela se torna compreensível para nós mediante um trabalho cognitivo de reconhecimento, muitas vezes destilado ao longo de tempos e eras, de atributos comuns, semelhanças e diferenças entre os seres.

Quando substituímos a abordagem analógica da realidade pela abordagem quantitativa, aumentamos nosso poder de intervenção sobre ela, mas ao custo de perder a capacidade de compreendê-la, sobretudo naquilo que atine ao dado relativo à autorrealização dos seres.

Por que houve essa substituição? Porque a digitalização da realidade não só nos conduz à quantificação da mesma realidade como ainda leva esse processo de quantificação ao limite, na medida em que tudo passa a ser convertido em dados, números, planilhas e gráficos.

E para um homem que, desde Descartes, resolveu “tornar-se senhor e possuidor da natureza” e, com Marx (e mesmo com Adam Smith), levou ao extremo a promoção absolutizante do trabalho, podemos dizer que tal digitalização faz com que o homem dance a realidade conforme a música dos algoritmos. Desde os algoritmos de produtividade laborativa até os algoritmos representativos de suas preferências pessoais em ferramentas de busca para suas leituras, marcas de roupas, tipos de comida e até formas de lazer familiar.

Como efeito disso, surge, na práxis social, uma nova forma efetiva de governo de fato, chamado, com muito acerto por Alfonso Ballesteros, de “digitocracia”, concretizada, sobretudo, por meio de tecnologias de reputação e tecnologias de busca.

As tecnologias de reputação nos classificam, avaliam e pontuam. Elas nos apresentam aos outros e a nós mesmos como resultado de informações interpretadas por algoritmos. Essas tecnologias nos dizem como somos percebidos e o crédito de reputação que temos.

Tanto as grandes empresas de tecnologia quanto os governos, sobretudo os autoritários, usam esses recursos incansavelmente. No Ocidente, as Big Techs usam as tecnologias de reputação como fonte de negócios. Para aumentar nosso crédito reputacional, devemos nos exibir constantemente, disponibilizando todas as nossas experiências de vida, fazendo do Instagram o passeio público de cada um. Com esses dados, as tecnologias de pesquisa são aprimoradas e, por sua vez, servem para prender nossa atenção por mais tempo e coletar mais dados para prever nossos comportamentos futuros.

A China utiliza tecnologias de reputação para medir a integridade do indivíduo em seus diferentes relacionamentos e conferir-lhe certo crédito ou descrédito social. Em ambos os casos, a digitalização está orientada para o sonho esclarecido de organizar a sociedade da forma mais eficiente, seja pelos interesses do puro capital ou de um governo dirigente.

Com as tecnologias de busca, as empresas de tecnologia produzem o mundo que querem nos mostrar e nos mostram por meio de dispositivos digitais. O mundo mostrado ao indivíduo depende de sua reputação. De acordo com o quanto as sabem sobre nós, elas nos apresentam a realidade que mais nos agradará ao final das contas.

Os problemas de cada uma dessas tecnologias são óbvios. No primeiro caso, colocam o problema de saber se a identidade do indivíduo pode ser reduzida à informação, a um ente comensurável e intercambiável. Por sua vez, no segundo caso, existe uma clara obstrução do senso de realidade ou do senso comum.

Na medida em que a realidade comumente compartilhada desaparece, isto é, a realidade “real”, a própria continuidade de uma comunidade humana está seriamente em risco. Quando cada um passa a viver, atomizadamente, dentro de sua bolha virtual, em termos de bem comum, é a receita para um desastre social, já que seu tecido reclama por uma trama de fios comunitariamente constituída.

Contudo, para que a digitocracia “reine em paz” é preciso um labor consciente e persistente de redução antropológica do ser humano à condição de Animal digitalis. Trata-se de um processo de desvirtuamento, pela via tecnológica, de algumas dimensões do ser humano, particularmente suas capacidades contemplativa de si e da totalidade da existência, potencializando os processos mais “mecânicos” da mente humana, como o vício e os afetos, e criando outros, que poderíamos chamar de “diluição da singularidade” e “solidão entretida”, além de uma dimensão projetiva no tempo e no espaço.

A tecnologia digital é projetada para ser viciante. Sabemos que os smartphones provaram imitar as máquinas caça-níqueis de qualquer cassino com grande sucesso. Também, a tecnologia digital favorece os impulsos sobre os sentimentos do sujeito, porque aqueles são efêmeros e promovem uma comunicação expansiva, enquanto os sentimentos tendem a ser mais duradouros e promovem uma comunicação qualitativa.

É o que acontece com o sentimento de luto, o qual promove a criação de uma comunhão no mesmo sentimento, ao passo que os impulsos são fugazes e performáticos, na medida em que levam a “se exibir e a se comunicar digitalmente”, nas palavras de Byung-Chul Han.

Ainda a tecnologia digital acarreta a diluição da singularidade, porque liquida a distinção entre o privado e o público. Despojado de sua singularidade, o ser humano é reduzido ao crédito reputacional. O famoso “panóptico de Bentham” é substituído pelo “panóptico digital”, no qual cada um é exposto livremente ao olhar panóptico. Ele é a vítima sob vigilância e o agente em exibição.

A tecnologia também nos coloca em estado de “solidão entretida". A solidão é fundamental na vida humana, para encontrar-se consigo mesmo e com os outros. O problema da “solidão entretida” é que ela nos priva da reflexão acerca dos outros e, também, de nós mesmos.

Por fim, a tecnologia digital nos confina ao momento. A condição antropológica da temporalidade transforma-se num presente constante. Os desenhos atuais da tecnologia digital favorecem a destruição de nossa concentração e potencializam nosso desejo por notícias, imagens, estímulos sonoros e curtidas.

Desta forma, consegue-se a fidelização do indivíduo aos dispositivos digitais, encarregados de extrair continuamente os dados pessoais com os quais se pode prever e condicionar seu comportamento futuro, seja pelas Big Techs, seja por governos despóticos ou muito intrometidos na vida privada do cidadão.

Seja minando a capacidade contemplativa, seja a projetiva, em ambos os casos, assistimos à depauperação antropológica do indivíduo, que deixa a condição de Homo sapiens para assumir outra, a de Animal digitalis. Ao cabo, o resultado da negação daquelas capacidades toma a forma típica dos animais inferiores, isto é, o indivíduo acaba por viver tão-somente os fins biológicos de nossa espécie, sem qualquer abertura ao dado transcendente horizontal e vertical. O sujeito vive apenas das funções vegetativas pela via da captação de uma série de estímulos sensoriais externos e internos emitidos pela tecnologia digital.

Para evitar a digitocracia e, por tabela, a redução à condição de Animal digitalis, é preciso configurar uma arquitetura de tecnologia digital que, em vez de servir à eficiência dos mercados, das Big Techs e dos governos, seja colocada a serviço da liberdade e da igualdade humanas e garanta o acesso equânime e integral à informação, promova a participação social livre e ponderada, minimize o acesso e a conservação dos dados pessoais, tudo isso em prol do bem comum.

E, para assegurar o desenvolvimento do ser humano rumo a sua perfectibilidade como pessoa ou de sua autorrealização, a mesma arquitetura deve reforçar alguns direitos que nos protejam contra a manipulação da mente: os direitos à liberdade cognitiva, à privacidade mental e à integridade psicológica.

Do contrário, daqui a alguns anos, corremos o risco de estarmos todos mergulhados “vegetativamente” na festa constante e ambulante proporcionada por nossos smartphones e, certamente, o Google saberá muito mais dos brasileiros do que nós de nós mesmos.

André Gonçalves Fernandes, Post Ph.D., é juiz de direito, professor de Antropologia Filosófica da Academia Atlântico e pesquisador da UNICAMP.

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