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Distintas visões

Em vez de amordaçar a educação, o Projeto Escola sem Partido a liberta para o pensamento independente

  • PorRicardo da Costa
  • 04/12/2018 23:01
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| Foto: Reprodução

Um dos pontos mais sensíveis da proposta de lei do Programa Escola sem Partido trata da necessidade de os professores apresentarem equanimemente distintas versões e interpretações de temas políticos, culturais, econômicos etc. de forma justa – com a mesma profundidade e seriedade. Terreno pantanoso, pois diz respeito às visões de mundo dos professores – nas ciências humanas, Dilthey as chamou de Weltanschauung, modo de entender a vida no tempo que, muitas vezes, precede a apresentação dos fatos do passado. Por isso a pergunta vital: como ensinar um determinado assunto com a devida imparcialidade? Questão difícil, espinhosa.

Antes de abordá-la, preciso indicar o âmbito disciplinar onde ela mais incide no ensino superior: nas disciplinas “Metodologia de Pesquisa” e “Teoria e Metodologia”. São elas o palco em que o professor deveria apresentar as interpretações dos processos históricos – por exemplo: “qual a importância do indivíduo nas transformações sociais?”, ou “as relações econômicas determinam a vida social?”, ou, ainda, “o que define uma classe?”; “todas as sociedades na história foram sociedades de classes?”. Não devo escamotear o tema: disse “deveria” (e não “deve”) porque há décadas as ciências humanas em nosso país, em maior ou menor grau, são o espaço par excellence da clássica cosmovisão denominada de materialismo (histórico e dialético) – a tese de que a base de todas as estruturas sociais, suas causas últimas se encontram na produção daquelas sociedades e na mudança de seus produtos, isto é, na economia, e a que afirma que é a matéria a primazia e o substrato de toda a realidade. Contudo, desde o surgimento dessa interpretação das sociedades humanas houve outras, algumas inclusive concorrentes. Ou seja: ela não é uma verdade histórica, mas uma teoria.

Não é meu intento compará-las, nem propor a que considero a melhor, mas endossar a proposta de lei do Escola sem Partido que determina que em todas as salas de aula seja fixado um cartaz com os deveres dos professores – sim, a celeuma é sobre um cartaz! E, especificamente, sobre seu quarto item – a imparcialidade na apresentação de diferentes interpretações. Para deixar mais clara a minha argumentação, desejo explicar minha posição com um exemplo prático: um fato e suas interpretações. O tema? O amor. Mais leve que as relações econômicas...

Leia também: O Escola sem Partido e a doutrinação no ensino (editorial de 2 de dezembro de 2018)

Leia também: Por uma lei contra o abuso da liberdade de ensinar (artigo de Miguel Nagib, publicado em 25 de novembro de 2014)

Sabemos que, em um determinado momento da história humana, os homens começaram a escrever poemas e canções para as mulheres. Viram eles que poderiam se apaixonar. E se apaixonaram. De um modo relativamente súbito, nas camadas superiores daquelas sociedades que aprendemos a chamar de “feudais”, surgiram centenas de compositores que escreveram canções de amor. Há 800 anos, no sul da Europa. Fato novo, inédito: se um grego clássico (ou um romano imperial, ou um viking) ouvisse que poderia se apaixonar por uma mulher, sofrer por ela e compor poesias amorosas, provavelmente riria. Pois não há registro dessa possibilidade antes de meados do século 12. Esse é o fato.

O problema da “apresentação justa das distintas versões de um determinado assunto” que o Escola sem Partido propõe destacar recai no “por quê”. Por que aquilo aconteceu daquela forma e não de outra? Por que as coisas mudam de um jeito e não de outro? Esse é o “x” da questão. E essa é a resposta mais difícil de todas as perguntas das ciências humanas. Essa, considero eu, é a última pergunta que se deve fazer em uma pesquisa – e teorias como o materialismo (ou a psicanálise) fazem sua exposição dos temas com ideias preconcebidas que estruturam toda a explicação posterior.

Como o projeto de lei bem vislumbrou, na impossibilidade de ensinar uma narrativa inteiramente isenta de preconceitos (conceitos que antecedem o conhecimento dos fatos a serem expostos), que o professor divida, de modo equânime, distintas explicações para aquele tema. No caso do surgimento do amor que acima descrevi, há diferentes versões que tentam responder ao “por quê”: influências islâmicas (contatos interculturais), válvula de escape às pressões culturais cristãs, análises psicológicas (opostas às materiais), até machismo! Pior: até hoje não chegaram a uma conclusão majoritária. E talvez nunca cheguem. Mas realmente importa? Não seria suficiente a apresentação dos temas e, como diz o projeto, a indicação dos autores que tentam responder seu “por quê”?

Os professores, em vez de ensinarem Português, Geografia, História, passaram a usar suas disciplinas como palanque político

Além de todos esses problemas de natureza metodológica, o ambiente educacional brasileiro incentiva o autoritarismo pedagógico. Também é mais fácil ensinar para crianças e adolescentes que “foi assim por causa disso e pronto”, em vez de fazê-los conhecer a complexidade do mundo, da vida. Infelizmente, nossa educação ficou à deriva nas últimas décadas, e os professores, em vez de ensinarem Português, Geografia, História, passaram a usar suas disciplinas como palanque político. Para transformar a realidade, já complexa o suficiente para ser explicada.

Para começar essa justiça educacional, nas ementas das disciplinas cabe uma rigorosa divisão numérica na bibliografia. Autores divergentes, apresentados com o mesmo tempo em sala de aula, sem ironia, sem sarcasmo, sem ênfase. Difícil? Claro, mas necessário. A isso chamo honestidade intelectual. Trabalhoso? Naturalmente. Mas ensinar é a função trabalhosa per se. Exige estudo, dedicação. Reflexão.

Infelizmente, muitos livros adotados pelas escolas – e indicados pelo MEC – já contêm sua tendência interpretativa embutida em seus textos. São sub-reptícios. Infelizmente, muitos professores nem sequer seguem seus conteúdos. Infelizmente, pouco se lê em nosso país. Essa é a realidade brasileira que presenciei como professor em todos os níveis, das escolas (particulares e públicas) às universidades (particulares e públicas). Afirmo-o com pesar. Nosso sistema forma analfabetos funcionais e está nos últimos lugares na compreensão de textos (na última edição do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o Pisa, realizado com escolas de 70 países, o Brasil foi o 59.º colocado em leitura e ficou nos últimos lugares em Matemática e Ciências).

Luiz Felipe Pondé: Escola sem Partido (26 de novembro de 2018)

Francisco Razzo: Fui doutrinado na faculdade – graças a Deus (28 de novembro de 2018)

Nesse quadro, é ainda mais premente a fixação daquele cartaz, “controverso” porque diz o óbvio: não temos liberdade para falarmos o que quisermos, pois estamos limitados pelos conteúdos das matérias que ministramos. Temos a obrigação de ensinar que as sociedades humanas não se limitam a um só modo de vê-la, pois é tão rica e tão complexa que sempre foge aos nossos esquemas interpretativos. E que há muitas e diferentes interpretações. Não podemos nos valer de nossas cátedras para ensinar somente uma versão de um determinado tema.

Alunos não são bobos. E percebem, cada vez mais precocemente, as coisas, a vida. As novas tecnologias, em especial a internet, aceleraram nossa percepção e expuseram, como em uma vitrine do mundo, o mundo. Por isso, devemos ser cada vez mais transparentes, claros, simples. E, acima de tudo, precisamos ensinar aos alunos como manejar as ferramentas interpretativas, de modo democrático, e não manejá-las para eles, de modo autoritário. Ao enfatizar os deveres dos professores, constrangendo-os, em vez de amordaçar a educação, o Projeto Escola sem Partido a liberta. Para o pensamento independente. Livre.

Ricardo da Costa é professor de História da Arte na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
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