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Doação de órgãos no Paraná: os sinais de desgaste de um sistema que já foi referência

A queda nas doações e transplantes no Paraná revela o desgaste de um sistema que precisa de investimento, renovação e prioridade política. (Foto: Albari Rosa/Arquivo AEN)

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Em 1963, o Paraná era líder nacional na produção de café. Seguiu-se um período de instabilidades: preços baixos, ferrugem e mudanças nas condições econômicas de produção. Até que, em 1975, a Geada Negra atingiu os cafezais e produziu uma ruptura brutal no ciclo seguinte. Era possível replantar. Recuperar a capacidade produtiva acumulada ao longo de décadas era outra história.

Em 2018, o Paraná registrou seu maior índice histórico de doações de órgãos para transplante, atingindo 47,7 doadores efetivos por milhão de população. Não foi um resultado espontâneo. Era produto de uma infraestrutura predominantemente humana: coordenadores treinados, equipes hospitalares mobilizadas, confiança das UTIs, experiência na identificação dos potenciais doadores e na comunicação com as famílias, logística, auditoria, feedback e uma cultura institucional orientada à doação.

Assim como ocorreu com o café, o sistema paranaense de doação e transplantes também apresenta sinais de instabilidade. 

Os dados do Registro Brasileiro de Transplantes mostram que, entre 2018 e 2025, houve uma queda de 18,4% no número de doadores efetivos por milhão de população no Paraná. A taxa de recusa familiar passou de 27% para 33% — seis pontos percentuais, ou um aumento relativo de 22,2%. No mesmo período, houve redução de 24,1% no número de transplantes de órgãos realizados.

Para quem trabalha diariamente com transplantes no Paraná, esses números não são mera oscilação estatística. Traduzem um desgaste que já pode ser percebido na operação do sistema. No caso da doação de órgãos, provavelmente não haverá um 18 de julho de 1975. E talvez por isso o fenômeno seja mais difícil de perceber do que uma geada.

A deterioração de um sistema complexo raramente acontece de uma só vez. Pode se manifestar pela perda progressiva de capacidade de transformar potencial em resultado: descontinuidade do treinamento, menor renovação do conhecimento nas equipes, dificuldades de comunicação, redução da conversão, menos doadores e, por fim, menor mobilização institucional.

As consequências potenciais são conhecidas: mais pacientes aguardando, maior exposição à mortalidade em lista, prolongamento de tratamentos de alto custo e, acima de tudo, sofrimento que poderia ser evitado

Seria um erro atribuir essa perda de desempenho aos profissionais que sustentam diariamente o Sistema Estadual de Transplantes. Em grande medida, são as mesmas pessoas que participaram da construção da liderança paranaense. Continuam trabalhando, acumulando experiência e tentando preservar resultados. O desgaste do sistema não decorre da falta de competência de quem o sustenta. Sistemas complexos não sobrevivem apenas ao esforço individual. Dependem de prioridade política, investimento, educação permanente, tecnologia, estrutura e capacidade de renovação.

Parte da resposta precisa ser procurada fora das paredes da Central Estadual de Transplantes. Um sistema dessa magnitude depende da ação cotidiana de seus servidores, mas depende igualmente das condições que o Poder Executivo oferece para que possam desempenhar seu trabalho. É preciso reconhecer que, nos últimos anos, a política estadual de doação e transplantes não recebeu do Poder Executivo o apoio compatível com a complexidade e a importância do sistema que o Paraná havia construído. E apoio, nesse contexto, tem significado concreto.

Educação continuada, capacitação periódica das comissões hospitalares, renovação tecnológica, estrutura administrativa e capacidade de implementar novas políticas não são acessórios. São manutenção do sistema. 

Não se pode exigir que servidores mantenham indefinidamente uma política de excelência apenas com o esforço individual e a memória institucional.

A liderança parece ter sido tratada como patrimônio permanente, quando, na verdade, era uma capacidade que precisava ser continuamente cultivada.

Seria ingenuidade tentar reconstruir fotograficamente o sistema de 2018. O mundo dos transplantes também mudou. Sistemas de perfusão e novas estratégias de preservação de órgãos, análise avançada de dados e ferramentas de apoio à decisão estão ampliando os limites do que pode ser preservado e transplantado.

O Paraná, contudo, já possui o componente mais difícil de construir: capital humano, experiência e memória institucional. Falta dar novamente a essas pessoas as condições de liderar. 

A cafeicultura paranaense não retornou ao que era quando o estado liderava a produção nacional. Reinventou-se: passou a buscar qualidade, tecnologia, cultivares adaptadas e cafés especiais. 

Cinquenta anos depois, diante da perda de protagonismo na doação de órgãos, a questão não é voltar ao Paraná de 2018. É construir o Sistema Estadual de Transplantes capaz de fazer o Paraná liderar a próxima década.

Fábio Silveira é médico, cirurgião de transplantes e vice-presidente do Instituto para Cuidado do Fígado.

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