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Em agosto de 1963, o reverendo Martin Luther King Jr. pronunciava no Lincoln Memorial, em Washington, o marcante discurso I have a dream (Eu tenho um sonho), que ao final proclamava: "Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos, um dia, viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele e sim pelo conteúdo do seu caráter. Quando deixarmos soar a liberdade, quando a deixarmos soar em cada povoação e em cada lugarejo, em cada estado e em cada cidade, poderemos acelerar o advento daquele dia em que todos os filhos de Deus, homens negros e homens brancos, judeus e cristãos, protestantes e católicos, poderão se dar as mãos e cantar com as palavras do antigo ‘spiritual’ negro: Livres enfim. Livres enfim. Agradecemos a Deus, todo poderoso. Somos livres. Enfim."

Era o auge da Guerra Fria, do capitalismo versus comunismo: ou se estava de um lado ou se estava do outro. Como defesa, implantaram-se as ditaduras na América Latina. Ao mesmo tempo, o forte crescimento dos países centrais no pós-guerra propiciava a transferência dos ganhos de produtividade aos salários, fruto dos fortes movimentos sindicais comandados em sua maioria pela esquerda, inclusive, a revolucionária. Inviabilizava-se, desta forma, a realização da profecia marxista do fim do capitalismo pela exploração da classe trabalhadora.

Os países comunistas se enfraquecem, caiu o muro de Berlim em 1990. Era o fim das ditaduras de esquerda na Europa. Na Ásia, a China optou por trazer os ganhos do capitalismo para a solução da pobreza, abrindo ao capital internacional suas províncias costeiras. Tornou-se, assim, parte importante do sistema capitalista mundial, crescendo a cifras fantásticas de mais de 10% ao ano.

Na América Latina caíram as ditaduras. Cuba permanece, ainda, atada aos princípios de Fidel e ao embargo americano, o que garante relativa coesão interna. Mas, liberado o embargo, virá o "vírus" do capitalismo e o adeus regime.

Parte do sonho de King, assassinado em 1968, se realizou com o avanço dos direitos civis em seu país. Em novembro de 2008, foi eleito um negro para o governo americano. As lágrimas do reverendo Jackson, companheiro de King, no discurso de vitória de Obama, traduziram a emoção da realização de uma porção daquele sonho, que há pouco tempo seria considerado apenas e somente um sonho.

Em 1975, em plena ditadura, Luiz Inácio da Silva, o Lula, foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Em 1980, foi preso, com base na Lei de Segurança Nacional, em razão de greve dos metalúrgicos, ficando 31 dias preso. Retirante nordestino, torneiro mecânico formado pelo Senai, assumiria a Presidência da República em outubro de 2002, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, algo difícil de se acreditar à época em que fundou o partido, em fevereiro de 1980.

No campo político mundial, com a evolução dos fatos e o fabuloso desenvolvimento dos meios de comunicação, tornou-se clara a luta pelo fim da pobreza e da miséria humanas. O discurso de que a mão invisível, o mercado, por si só seria capaz de resolver tais dramas está claramente enfraquecido no contexto mundial. O "Leviatã" deve prosseguir, mas seus resultados serão cada vez mais direcionados para a redução da pobreza. Obviamente existem miríades de problemas como os conflito no Oriente Médio, a miséria de grande parte da África e a ocorrência de ciclos econômicos. Mas a nave vai.

O expressivo crescimento econômico mundial, no entanto, cobra um preço muito elevado destruindo o meio ambiente. À semelhança da evolução política, as questões ambientais se encaminham para uma trajetória positiva, apesar de todos os percalços.

Em suma, nos dias atuais a questão maior é como atingir desenvolvimento econômico e social sem destruir o planeta. Esta é a busca. Quando a alcançarmos estaremos mais próximos do que sugeriu Luther King: livres enfim.

José Henrique do Carmo é mestre em Desenvolvimento Econômico e professor aposentado de Economia Internacional da UFPR.

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