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Eleição 2026: preservar vínculos importa mais do que vencer debates

As datas mais importantes que antecedem e que sucedem o primeiro e o segundo turno das eleições 2026
Principal momento das eleições de 2026 é a votação em outubro, com primeiro e segundo turnos. (Foto: Nelson Jr./Tribunal Superior Eleitoral)

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Chegamos em 2026 carregando um alerta importante: a política deixou de ser apenas um tema de debate público e passou a funcionar como um dos principais gatilhos de estresse emocional e ruptura de vínculos sociais, especialmente nas eleições. O que antes era divergência de opinião transformou-se, em muitos casos, em hostilidade, afastamento familiar e adoecimento. As evidências acumuladas desde as últimas eleições mostram que o impacto da polarização não se limita às urnas, ele atravessa casas, relações e rotinas.

Na análise comportamental, esse processo é conhecido como polarização afetiva: quando a diferença política passa a ser tratada como ameaça pessoal. Isso produz respostas de aversão, hostilidade e desumanização direcionadas ao grupo considerado “oposto”. Surge então a lógica de que “quem você vota” define quem merece afeto, confiança ou respeito. Em contextos mais extremos, esse processo já resultou em agressões físicas registradas em eleições anteriores.

Não é necessário abandonar convicções políticas para preservar saúde emocional e relações afetivas. O que precisa mudar não é o posicionamento, mas o repertório comportamental utilizado para lidar com a divergência

Os números ajudam a dimensionar esse fenômeno. Pesquisa Datafolha de 2022 revelou que 46% dos brasileiros evitaram falar sobre política com amigos ou familiares por medo de conflitos. O monitoramento da Rede de Observatórios da Segurança mostrou que os episódios de violência política aumentaram mais de 300% entre 2020 e 2022, incluindo agressões físicas, ameaças e até homicídios motivados por posições partidárias. A repercussão pública desses dados reforça a percepção social de que o ambiente político se tornou estressante e imprevisível.

Esse clima não passa ileso pela saúde emocional. Nos consultórios psicológicos, relatos de profissionais indicam aumento de queixas relacionadas a insônia, crises de ansiedade, dores psicossomáticas, irritabilidade e distúrbios gastrointestinais durante os períodos eleitorais. A Associação Brasileira de Psiquiatria estimou, em 2022, que uma parcela significativa dos atendimentos emergenciais estava ligada ao agravamento da ansiedade em contextos de conflitos sociais e políticos. Muitos pacientes descrevem exatamente o mesmo padrão: adoeceram tentando “provar que estavam certos”.

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Do ponto de vista comportamental, essa exaustão não é casual. Ambientes digitais reforçam estímulos aversivos, como conteúdos inflamados, ataques e discursos extremos, aumentando a probabilidade de respostas agressivas. Curtidas e compartilhamentos funcionam como reforçadores para comportamentos polarizados, enquanto nuances e diálogos são frequentemente punidos por ambos os lados. A consequência é previsível: mais confronto, menos vínculo.

Diante disso, há uma questão central para 2026, ano de eleições: não é necessário abandonar convicções políticas para preservar saúde emocional e relações afetivas. O que precisa mudar não é o posicionamento, mas o repertório comportamental utilizado para lidar com a divergência. Isso envolve trocar rótulos por curiosidade, desacelerar antes de reagir, escolher dialogar em vez de demolir e proteger vínculos sem abrir mão da firmeza. O problema nunca foi conversar sobre política; o problema é conversar como se o objetivo fosse destruir quem pensa diferente.

Famílias que romperam nas eleições de 2022 começam agora um movimento de reconciliação. São reencontros que exigem coragem e reconhecimento de que perder um vínculo significativo é um custo alto demais por uma disputa que se repete a cada quatro anos. Pode-se ganhar o argumento e perder a relação. Pode-se vencer o debate, mas comprometer a rede de apoio que sustenta a vida cotidiana.

Com a chegada de 2026, mais um ano de eleições, a política volta às telas, às ruas e às conversas. Mas não precisa voltar acompanhada da mesma intensidade emocional que produziu tanta dor. Cada eleitor terá um voto, mas cada pessoa carrega um corpo que adoece, uma rotina que se desgasta e vínculos que precisam durar muito mais do que a campanha de um candidato.

Preservar os afetos não enfraquece a democracia, fortalece. Democracias emocionalmente saudáveis discordam com firmeza, mas não com ódio. Se a polarização afetiva afetasse apenas o debate público, já seria motivo de preocupação. O que vimos na última eleição, porém, é que ela também destruiu jantares, amizades, grupos de família e até a forma como alguém se percebe no mundo.

Por isso, antes que os discursos inflamados, as hashtags e os embates sobre eleições voltem a ocupar todos os espaços, vale uma pergunta simples e profundamente necessária: quem eu não quero perder por causa de política? Responder com sinceridade pode ser o primeiro gesto de cuidado emocional de um país que ainda tem a chance de aprender com suas cicatrizes.

Aline de Sousa Ribeiro, psicóloga comportamental, especialista em neurociências, ACT e recursos humanos, é diretora da AR Consultoria e Saúde.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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