
Ouça este conteúdo
O setor elétrico brasileiro vive um paradoxo difícil de ignorar. Em determinados horários, o país produz energia renovável em abundância e ainda assim precisa reduzir a geração porque o sistema não consegue absorver toda a eletricidade disponível. Horas depois, quando a demanda cresce, voltamos a acionar fontes mais caras para manter o equilíbrio. Esse fenômeno, conhecido como curtailment, revela mais do que um ajuste operacional e expõe os limites de um modelo energético centralizado diante de transformações tecnológicas aceleradas.
Curtailment é a redução programada da produção quando há excesso momentâneo de energia ou restrições na rede. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) coordena esses ajustes para preservar a estabilidade, evitando sobrecargas e oscilações que poderiam comprometer o abastecimento.
Hoje, o desafio não é produzir eletricidade, mas utilizá-la com inteligência em um sistema que mudou mais rápido do que suas instituições
O Brasil continua sendo um sistema predominantemente hidrelétrico. Mais da metade da eletricidade vem das usinas hidráulicas, que funcionam como uma espécie de bateria natural do sistema ao compensar variações da solar e da eólica. Nas horas centrais do dia, quando a geração solar se intensifica, as hidrelétricas reduzem produção; no início da noite, ampliam gradualmente a geração para acompanhar o aumento do consumo. A energia eólica complementa esse arranjo, muitas vezes com produção noturna, mas a expansão acelerada da solar criou um ritmo que a infraestrutura não acompanhou na mesma velocidade.
Grande parte do descompasso está na transmissão. A energia é produzida longe dos grandes centros consumidores e depende de uma rede robusta para chegar ao destino final. A expansão das linhas não acompanhou o crescimento dos parques renováveis, e o resultado aparece na forma de reduções operacionais da geração.
Como sugeriu o economista norte-americano Mancur Olson, autor de Ascensão e Declínio das Nações, sociedades estáveis tendem a acumular coalizões distributivas que tornam adaptações institucionais mais lentas ao longo do tempo, fenômeno frequentemente descrito como uma espécie de esclerose institucional. O setor elétrico brasileiro, marcado por encargos e incentivos específicos, ilustra essa rigidez justamente quando a inovação tecnológica exige respostas mais rápidas.
No Brasil, a transmissão é competência federal. A União planeja, regula e realiza leilões de concessão, enquanto empresas privadas ou estatais constroem e operam as linhas. Trata-se de um monopólio natural altamente regulado, com decisões concentradas em poucos órgãos nacionais. Estados possuem pouca autonomia direta nesse processo, o que amplia o intervalo entre diagnóstico e execução.
VEJA TAMBÉM:
Não se pode afirmar que faltaram investimentos ao longo das últimas décadas. O país ampliou sua rede e realizou diversos leilões. O que ocorreu foi um desalinhamento entre a velocidade da inovação tecnológica na geração e o ritmo institucional da infraestrutura. Em termos econômicos, construir usinas tornou-se mais rápido do que ajustar regras e expandir redes.
Esse cenário convida a uma reflexão mais ampla sobre governança energética. Em sistemas mais descentralizados, estados possuem maior autonomia para testar soluções locais e acelerar projetos conforme suas necessidades regionais. Isso não elimina desafios técnicos, mas reduz a rigidez institucional. Há também a questão do custo de capital e da burocracia. Projetos energéticos exigem segurança jurídica e previsibilidade regulatória; quando esses elementos se tornam lentos ou incertos, o risco é incorporado ao financiamento, tornando o sistema mais caro justamente quando a transição exige agilidade.
O curtailment não é apenas um detalhe técnico. Ele indica que o desafio deixou de ser produzir energia limpa e passou a ser integrá-la com eficiência. Sem transmissão adequada, armazenamento e maior flexibilidade institucional, o país continuará convivendo com o paradoxo de desperdiçar energia durante o dia e pagar caro para mantê-la à noite.
O Brasil possui vantagens naturais extraordinárias. Transformar esse potencial em eficiência econômica depende menos de construir novas usinas e mais de alinhar governança, infraestrutura e sinalização de mercado. Hoje, o desafio não é produzir eletricidade, mas utilizá-la com inteligência em um sistema que mudou mais rápido do que suas instituições.
Jorge Amaro Bastos Alves é economista.



