
Ouça este conteúdo
Na discussão sobre o autismo e sua evolução nos últimos anos, apenas uma coisa é certa: o diagnóstico está se tornando cada vez mais frequente. A partir daí, começam as zonas cinzentas: trata-se de um transtorno ou apenas de uma “variante neurológica”?
As diferenças em sua manifestação — por idade, por sexo — são tão grandes que não cabem em um único termo? Que parte de seu desenvolvimento se deve a causas genéticas e que parte se deve a fatores ambientais e sociais?
Os diagnósticos de autismo (ou TEA, transtorno do espectro autista, como é oficialmente conhecido) estão aumentando em ritmo acelerado em todo o mundo, especialmente no Ocidente. Há apenas cinco anos, a taxa de prevalência na população geral era estimada em menos de 1%; hoje, estima-se que seja quase o dobro desse número.
Além disso, o aumento está ocorrendo em todas as faixas etárias. Os casos diagnosticados — que, como veremos, não refletem necessariamente a prevalência real — permanecem mais elevados entre os menores de idade, mas o maior aumento relativo está ocorrendo entre os adultos, especialmente entre aqueles com idade entre 25 e 40 anos.
Crescimento repentino
Tradicionalmente, tem-se dado mais atenção ao desenvolvimento do autismo em crianças, tanto por razões culturais (há muito tempo é considerado um transtorno associado à infância) quanto por razões práticas, já que, devido às suas consequências no processo de aprendizagem, sua prevalência tem sido registrada nas estatísticas educacionais oficiais.
Embora os especialistas geralmente acreditem que o autismo se manifeste antes dos dois anos de idade, a idade média do diagnóstico situa-se entre os cinco e os seis anos.
O pico de prevalência "oficial" ocorre normalmente por volta dos 15 anos. Em alguns países onde o tema foi estudado com mais detalhe, como o Reino Unido e os Estados Unidos, a prevalência já ultrapassa os 3% nessa idade e, mesmo assim, acredita-se que muitos casos permaneçam sem diagnóstico, uma vez que, ao chegarem à adolescência, muitos rapazes e, sobretudo, moças aprendem a "mascarar" os sintomas.
Na Espanha, as estatísticas oficiais sobre a taxa de transtorno do espectro autista (TEA) em crianças em idade escolar revelam uma proporção menor do que nesses países, mas mostram claramente seu crescimento nos últimos 15 anos.
Enquanto era de 0,16% entre todos os estudantes não universitários no ano letivo de 2011-12 (menos de um em cada 600 estudantes), em 2017-18 atingiu 0,41% e, em 2023-24 — o último ano para o qual existem dados corroborados — chegou a 0,95% (um em cada 105).
Assim como em outros países, o transtorno do espectro autista (TEA) na população adulta espanhola não foi amplamente estudado. De fato, apenas 10% dos diagnosticados oficialmente com TEA têm mais de 30 anos, embora, em princípio, não haja cura.
Os especialistas geralmente concordam que muitos indivíduos autistas de gerações anteriores foram diagnosticados erroneamente com outras condições, como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) ou transtornos de personalidade, entre outros. Esse diagnóstico incorreto frequentemente leva a tratamentos inadequados, que podem resultar em depressão, ansiedade ou estresse crônico.
Nesse sentido, um estudo que analisou suicídios na Inglaterra entre 2014 e 2017 é significativo: das vítimas, apenas 1% tinha um diagnóstico reconhecido de TEA, mas os autores estimaram que, na realidade, 10% delas "apresentavam altos níveis de traços autistas". Isso corrobora outra descoberta, também do Reino Unido: 15% dos hospitalizados por tentativa de suicídio têm diagnóstico de autismo.
Uma definição escorregadia, uma cura complexa
A verdade é que nem a etiologia nem a própria descrição do autismo são totalmente claras. Para começar, alguns psicólogos, psiquiatras e associações de pacientes defendem o uso do termo "condição" em vez de "transtorno" para se referir a ele.
Essa solicitação se enquadra no paradigma da chamada "neurodiversidade" — um termo que se originou precisamente na comunidade autista — segundo o qual o TEA, assim como a dislexia ou o TDAH, deve ser valorizado como uma "variante neurológica", não como uma deficiência, mas simplesmente como uma alternativa tão valiosa quanto as variantes "neurotípicas".
Algumas pesquisas sugerem que apresentações clínicas bastante distintas coexistem sob o mesmo nome de autismo; outras, no entanto, propõem uma etiologia comum
Outra fonte de incerteza em torno do autismo reside em suas diferentes manifestações em crianças e adultos. De acordo com um estudo publicado há alguns meses na revista Nature, liderado por pesquisadores da Universidade de Cambridge, essa diferença decorre do fato de que os casos de autismo diagnosticados em crianças e adultos apresentam “perfis genéticos” e “trajetórias comportamentais” bastante distintos.
Entre outras coisas, os autores apontam que os primeiros não têm uma correlação genética clara com o TDAH, enquanto os últimos têm. Como Uta Frith, pesquisadora do University College London, disse ao El País, este estudo “demonstra que o autismo não é uma única condição”.
Ela acrescenta: “É hora de reconhecer que o autismo se tornou um termo genérico para diferentes condições. Se falarmos de uma ‘epidemia de autismo’, uma ‘causa do autismo’ ou um ‘tratamento para o autismo’, a pergunta imediata deve ser: de que tipo de autismo estamos falando?”
No entanto, outro estudo recente oferece uma possível explicação unificada para o desenvolvimento da maioria dos casos de autismo. De acordo com essa pesquisa, em muitos casos de autismo idiopático (o tipo não associado a uma mutação genética e o mais comum), proteínas cerebrais do tipo CPEB4, associadas ao desenvolvimento neuronal, apresentam uma quantidade reduzida de um grupo específico de aminoácidos — o éxon 4 —, levando a comportamentos disfuncionais. Um dos autores afirmou que a compreensão desse mecanismo abre caminho para tratamentos que poderiam reverter os efeitos: "Em princípio, haveria plasticidade cerebral suficiente."
No entanto, segundo José Ramón Alonso, professor de Biologia Celular e Patologia da Universidade de Salamanca, é preciso cautela, pois a pesquisa mostra apenas uma correlação parcial.
Além disso, a possibilidade de reverter os efeitos é pequena, uma vez que a disfunção ocorre durante a fase embrionária: “Se tivéssemos que reparar algo na gema de um ovo quando o que temos é um pintinho, simplesmente não teríamos tempo”.
A influência dos fatores ambientais
Outro aspecto estudado e, simultaneamente, debatido em relação ao autismo é a influência de diversos fatores ambientais. Por exemplo, algumas pesquisas indicaram uma correlação entre a exposição fetal à poluição ambiental, transmitida pela mãe, e a probabilidade de desenvolvimento de autismo. Isso poderia explicar — embora seja difícil determinar com precisão — o maior aumento do transtorno do espectro autista (TEA) em países mais desenvolvidos.
O aumento no número de casos não se deve apenas a uma melhoria no diagnóstico, mas também à influência de certos fatores ambientais e sociais típicos da vida moderna
Outro fator associado à probabilidade de desenvolvimento de autismo na literatura científica é a idade mais avançada dos pais na concepção. Como essa idade está aumentando na maioria dos países, pode ser entendida como mais uma causa da "epidemia" do transtorno do espectro autista (TEA).
Da mesma forma, foi sugerido que o estresse vivenciado pela mãe durante a gravidez também aumenta o risco e que a sobrecarga sensorial característica da vida moderna pode estar agravando a condição de muitas crianças e adolescentes com autismo, para os quais esses tipos de ambientes são geralmente considerados particularmente desconfortáveis.
Essas investigações qualificariam a ideia repetida, porém imprecisa, de que o aumento no diagnóstico de TEA não se deve a um aumento nos casos, mas apenas ao fato de que agora aprendemos a detectá-lo.
Uma diferença marcante entre os sexos
É sabido que a taxa de prevalência (pelo menos a taxa de diagnóstico) em homens é muito maior do que em mulheres. Tradicionalmente, é entre três e cinco vezes maior, dependendo do país e da faixa etária.
Por exemplo, na Espanha, dados do Ministério da Educação mostram que 80% dos alunos diagnosticados com TEA são do sexo masculino, porcentagem que praticamente não mudou desde o início da coleta de dados. Uma situação semelhante existe em outros países.
Essa diferença marcante, aliada ao fato de que os diagnósticos de autismo na idade adulta estão aumentando mais rapidamente em mulheres do que em homens, sugere que muitas meninas e adolescentes com TEA podem estar sem diagnóstico.
Para alguns, isso é mais uma prova da invisibilidade do feminino, neste caso, na prática clínica: o quadro clínico do autismo teria sido construído com base em suas manifestações em homens, e as meninas também teriam sido criadas com qualidades supostamente estereotipicamente femininas (sociabilidade, condescendência), que atenuam algumas manifestações do autismo.
Sem necessariamente considerar isso uma estratégia sutil de heteropatriarcado, é razoável pensar que as maiores habilidades linguísticas das meninas durante seus anos escolares — demonstradas por diversas avaliações internacionais, como o PIRLS e o PISA — de fato contribuíram para certo subdiagnóstico, embora também se possa argumentar que o oposto ocorreu com os meninos.
Um estudo recente, utilizando dados de jovens suecos, revelou que a diferença entre a prevalência em homens e mulheres diminui ao longo do tempo de duas maneiras: à medida que os indivíduos envelhecem — praticamente desaparecendo aos 20 anos — e ao comparar estudos mais recentes com estudos mais antigos. Ambas as descobertas ressaltam a importância do fator "cultural" em relação ao fator "biológico" no diagnóstico do transtorno do espectro autista (TEA).
No entanto, como tudo relacionado ao autismo, essa observação também requer nuances. Pouco depois da publicação do estudo sueco, um grupo de pesquisadores britânicos escreveu uma resposta apontando que suas conclusões não deveriam ser generalizadas.
O principal motivo é que os autores utilizaram um método “passivo” para calcular a taxa de TEA, dividindo o número de casos diagnosticados pela população total. Contudo, argumentaram os pesquisadores britânicos, isso exclui os casos não diagnosticados, que podem ser numerosos.
Um método mais realista seria o método “ativo” de contagem: aplicar um teste de autismo a um segmento inteiro da população, independentemente de suspeitarem ou não de ter o transtorno.
Em edições subsequentes de um estudo britânico que seguiu essa metodologia, observaram os autores da resposta, a diferença entre meninos e meninas mal diminuiu e também não apresentou muita variação por idade.
Assim, parece que, na análise da diferente taxa de prevalência por sexo, o que acontece é semelhante ao que ocorre na própria definição de autismo ou na explicação de suas causas biológicas e ambientais: por enquanto, há mais perguntas do que respostas.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: ¿“Epidemia” de autismo? Muchos diagnósticos, y muchas dudas por resolver







