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Aristóteles ensinando Alexandre, o Grande, de Charles Laplante (1866).
Aristóteles ensinando Alexandre, o Grande, de Charles Laplante (1866).| Foto: Wikimedia Commons

Lançado em meados de 2015, o livro Submissão, de Michel Houellebecq, causou grande alvoroço, especialmente por sua visão distópica da França em 2022, dominada pelo Islamismo. Não obstante, apesar de essa polêmica ser objeto de profícua discussão, eu gostaria, aqui, de focar em uma passagem muito interessante, a qual talvez tenha passado despercebida para a maioria dos leitores. Nela lemos: “Os estudos universitários no campo das Letras [‘poder-se-ia dizer o mesmo quanto às Humanidades em geral’] não levam, como se sabe, praticamente a nada, a não ser, para os estudantes mais dotados, a uma carreira de ensino universitário no campo das Letras – em suma, temos a situação um tanto cômica de um sistema sem outro objetivo além de sua própria reprodução, acompanhada por uma taxa de não aproveitamento superior a 95%” (página 15).

Essa passagem, que aparece no início do livro, é uma das muitas ponderações interessantes do personagem principal. Mas por que tais considerações são valiosas e objeto de reflexão?

Com efeito, essa passagem, independentemente da intenção do autor ao escrevê-la, aponta para algo que realmente ocorre sobretudo nas Humanidades em geral: o fato de termos um sistema caríssimo com poucos resultados positivos, seja para a sociedade, seja para a área mesma. E com isso não estou afirmando, enfatizo, que as Humanidades devam ser deixadas de lado. De forma alguma. Afinal, as Humanidades são fundamentais para nossas universidades e para a sociedade. Elas assoalharam o caminho para a civilização e suas benesses. Não apenas isso: fiaram o tecido social moral que nos mantém coesos e nos assegura uma boa vida, uma vida com sentido.

Portanto, o que cabe aqui criticar é aquilo em que nossas Humanidades foram, especialmente desde o século 20, transformadas (a exemplo do que lamentavelmente vem ocorrendo em outras áreas, cabe notar). Como colocado na passagem citada acima, os estudos nessa área se tornaram cada vez mais distantes e isolados da sociedade, e mesmo da realidade. Assim, o que temos atualmente é exatamente a descrição feita por Houellebecq: um sistema vicioso e circular que se autossustenta. Formamos circularmente sujeitos que vão formar outros sujeitos e assim ad nauseam. E isso dentro de uma bolha, sem avanço para a área, e muito menos para a humanidade. São “estudos” amiudamente realizados de forma burocrática que servem apenas para atender a exigências formais (quantitativas) da área mesma.

Nesse sentido, tendo isso em mente decidi, certa vez, ver o que alguns de meus “pares” estavam “produzindo”. Confirmando meu insight inicial, percebi que os textos publicados orbitavam sempre em torno dos mesmos temas, frequentemente a partir das “pesquisas” realizadas em suas dissertações e teses. Sim: a maioria de nós, acadêmicos, realiza uma prática conhecida como “salami slicing” – fatiamento de salame. Talvez muitos desconheçam a expressão (um tanto impolida, reconheço). Mas todos que transitamos pelo meio acadêmico certamente conhecemos muito bem sua ampla e difundida prática. Dessa forma, mesmo uma dissertação ou tese publicadas podem ser reformuladas em diversos artigos, atendendo, dessa forma, a demanda (quantitativa) por mais publicações. Assim, “salami slicing” é uma prática generalizada em um modelo focado na quantidade em detrimento da originalidade (espírito empreendedor) e da relevância. Ou seja, em um modelo meramente burocrático vige inevitavelmente o “fatiamento de salame”.

Mas o ponto é: não apenas o custo desse modelo é altíssimo, mas sua relevância e impacto são quase inexistentes (como podemos depreender do Leiden Ranking, o qual se baseia em dados bibliográficos da Web of Science database, da Clarivate Analytics). Aliás, isso já foi demonstrado de forma iniludível pelo professor Marcelo Hermes (UnB), por exemplo, em diversos artigos, alguns aqui na Gazeta do Povo, nos quais ele, muitas vezes com colaboradores, desenvolve análises cientométricas que comprovam que produzimos muito, mas que essa quantidade não reflete qualidade (praticamente ninguém cita o que publicamos).

Não há mais como negar que nossos investimentos têm sido, especialmente a partir das políticas criadas nas gestões do PT, um abjeto fracasso. Em vez de baseadas em fatos, na realidade e nas vontades individuais (expressas pelo mercado), elas foram fundadas sobre ideologias fadadas ao fracasso em geral e em uma visão planificadora em particular.

Mas isso se refere ao fato de elas serem um desperdício de recursos. Se não bastasse isso, elas muitas vezes têm um impacto negativo, como o mostram muitos dos títulos de dissertações, teses, artigos, focados em temas bizarros relacionados com o pós-modernismo, com a ideologia de gênero etc, assim como dentro daqueles guetos de mediocridade frequentemente chamados pelo pomposo título de “estudos”: “estudos de gênero”, “estudos de diversidade”, “estudos pós-modernos”, “estudos de sexualidade”, “estudos étnicos”, “estudos multiculturais”, “estudos de inclusão”, “estudos de desigualdade”, etc. Sempre precedidos pelo termo “estudos” (para simularem importância teórica), tais “estudos” fazem parte da degeneração das Humanidades, causando (dada sua aversão à ciência, aos fatos e ao saber mesmo) efeitos nocivos sobre a sociedade, sobre a qual pesa o efeito pernicioso de ideias não apenas medíocres, mas lesivas (se não fossem danosas seriam apenas diversão circense). Vou me eximir de citar exemplos deletérios aqui, pois já o fiz alhures, especialmente ao explicar seu dano ao tecido moral social. Vou focar, agora, nos exemplos aparentemente “indiferentes”, “inofensivos”, os quais aparentam alguma seriedade acadêmica.

Com efeito, confesso que é frequentemente entediante investigar o que se faz nas Humanidades. Há dez anos desisti, por exemplo, de buscar por novidades relevantes em torno daquele que foi meu objeto de pesquisa por vários anos. Por quê? Ora, porque as ditas “novidades” apenas reescrevem o que os autores clássicos já haviam dito de forma muito mais perspicaz. E essa é uma diferença entre os atuais “burocratas acadêmicos” e os clássicos: os autores clássicos tinham insights (e muitos nem sequer tinham um título de “doutor”). Os atuais apenas reescrevem, de forma burocrática e entediante, aquilo que encontramos nos clássicos. Nesse sentido, a maior parte daquilo que se produz hoje nas Humanidades está fadada ao (merecido) esquecimento, e isso não por preconceito, mas em virtude de sua irrelevância mesma. Eis a razão de tal produção ter, como demonstrado pelas referidas análises cientométricas do professor Marcelo Hermes, um impacto ou pífio ou até mesmo nulo. Ou seja: praticamente ninguém lê ou cita esses trabalhos.

Dessa forma, há, como mencionei acima, um problema mesmo quanto a essa pesquisa aparentemente “inofensiva”: Seu custo é altíssimo! Não apenas isso, ela afasta a universidade daquele que é um de seus propósitos mais nobres: conduzir-nos à prosperidade (material e “espiritual”: intelectual, estética etc.).

Sobre seu custo tomemos em consideração a primeira universidade criada pelo governo federal em 1920, a Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ). Seu orçamento anual é de R$ 3,7 bilhões. Quantas cidades no Brasil têm tamanho orçamento para atender centenas de milhares de habitantes? Pois é, a UFRJ tem esse orçamento para atender aproximadamente 67 mil estudantes (graduação e pós-graduação). Vejam, então, o custo de cada estudante para os pagadores de impostos. Notemos também o exemplo da universidade em que leciono, a Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), a qual possui um orçamento de mais de R$ 800 milhões para atender em torno de 20 mil alunos. Embora com variações, o custo de cada aluno para os pagadores de impostos é altíssimo.

E quanto aos subsidiados com bolsas? Uma bolsa mensal da Capes para mestrado é de R$ 1,5 mil. De doutorado, R$ 2,2 mil. A de pós-doutorado é de R$ 4,1 mil. E há atualmente diversas modalidades de bolsas criadas nas gestões do PT (com as quais são agraciados muitíssimos sujeitos incompetentes). Em um país no qual (segundo dados de 2018 da Pnad Contínua) 60% dos trabalhadores (54 milhões) recebiam, à época da pesquisa, menos do que um salário mínimo (na ocasião equivalendo a R$ 954), tais valores e o custo de um “estudante” são incompatíveis com a realidade. Não apenas isso, é terrivelmente injusto, especialmente na medida em que consideramos que, dado nosso equivocado sistema de tributação, são os mais pobres aqueles que mais pagam impostos (proporcionalmente ao seu rendimento).

Agora, voltando às supostas pesquisas “inofensivas”, vemos, então, que elas são danosas à economia e à sociedade. Temos dezenas de milhares de indivíduos, por exemplo, em programas de pós-graduação simplesmente fazendo uma colcha de retalhos de textos clássicos para, ao fim, entregar sua dissertação ou tese como “pré-requisito para a obtenção de título de mestre ou doutor”. E com isso atendem a uma mera exigência formal, sendo agraciados ou com um título de mestre ou com um título de doutor. E aqui vemos o problema do intervencionismo em concreto.

Tivemos, nas gestões do PT, um crescimento (planejado) exponencial do número de doutores, o que levou um ex-presidente da Capes a se ufanar dos dados divulgados à época (um aumento dos títulos de doutorado – de 6,9 mil em 2002 para 21,4 mil em 2017). Mas, dado se tratar (a política de aumento de títulos de doutor) de uma forma de intervenção, o resultado são os 30,7% de doutores desempregados segundo dados de 2016 do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), órgão ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia. O número atual deve ser bem maior – na prática, vemos que a maioria está desempregada e adotando atividades como a de motorista por aplicativo, dentre outras formas emergenciais de obter renda.

O mesmo intervencionismo se deu quando entrei em uma universidade federal como professor, ocasião em que ganhava muita popularidade o programa “Universidade para Todos”. À época lembro-me de dizer aos meus alunos que a universidade não era para todos, uma vez que se trata de ensino “superior” (obviamente sou, desde então, acusado de “elitismo”). Portanto, ela deveria ser rigorosamente seletiva. Afinal, seu custo e impacto social são imensos. Políticas acadêmicas irresponsáveis podem ter efeitos terríveis sobre a sociedade, sobre a economia etc.

Pois me parece que é isso o que estamos, agora, enfrentando. Temos um contingente de diplomados desempregados, muitos deles analfabetos funcionais bacharéis em algum curso na área das Humanidades (alguns dos quais se tornaram ou se tornarão professores nos ensinos fundamental e médio, o que explica parte de nossa tragédia educacional), “especialistas” em temas irrelevantes atinentes ao “multiculturalismo”, à “ideologia de gênero”, altamente “qualificados” para discutir temas como reforma agrária, aquecimento global, “preconceito linguístico”, banheiros transgênero, “sexualidade fluida”, “decolonialismo”, “mansplaining”, “manterrupting”, “gaslighting”, políticas afirmativas, políticas redistributivas e tantas outras tolices engendradas desde dentro de nossas universidades (especialmente das Humanidades e, muitas vezes, com bolsas como as do Pibic/CNPq) e simplesmente ignoradas pela sociedade civil (e por qualquer sujeito dotado de bom senso), a qual paga (mediante seus impostos) para que alguns realizem suas perversões acadêmicas. E seu custo é, insisto, altíssimo, como podemos depreender dos dados citados acima.

Mas o problema persiste sendo o que costumo chamar de “modelo socialista de gestão universitária”, ou seja, um modelo que insere informações falsas no mercado (nesse caso, no mercado educacional). O resultado é sempre o mesmo: miséria. Isso foi demonstrado de forma indisputável por Mises em 1920 em seu seminal O cálculo econômico sob o socialismo. Sabemos, há pelo menos um século, que a planificação é sempre causa de miséria e desperdício (hoje nos faltam bons profissionais que realizem serviços que não demandam diploma – e por isso alguns desses serviços se tornaram caros – e sobram bacharéis, mestres e doutores).

Tal intervencionismo ocorreu de diversas formas, como na criação arbitrária, e mesmo irresponsável, de diversos novos programas de pós-graduação. Trata-se de um projeto desvinculado da realidade. Como mencionei acima, ingressei em uma universidade federal em 2005. Naquele ano acompanhei o crescimento do número de cursos e de vagas na universidade (sob o lema “universidade para todos”). Desde então o crescimento (quantitativo) foi exponencial (muitos novos cursos, muitas novas vagas, muitos títulos de mestre e doutor etc.). Em seguida aumentaram o número de pós-graduações (imagino que para absorver graduados que não seriam absorvidos pelo mercado, garantindo-lhes ao menos uma bolsa). Em seguida aumentaram as bolsas para pós-doutorado (imagino que para absorver os doutores que não seriam absorvidos pelo mercado, garantindo-lhes ao menos uma bolsa).

E agora, que não há mais bolsas (sim, um dia a conta dos excessos chega), para onde vão esses doutores? Ora, para algum aplicativo como o Uber ou algo do tipo. Há doutores recebendo menos de um salário mínimo para desempenhar atividades desgastantes que não requerem tal título. E esses são os “sortudos”, pois há, é claro, os desempregados.

Esse é o resultado de políticas planificadoras na educação: miséria e desperdício. Esse é o atual estado de coisas que vige em nossas Humanidades, um estado causado por ideologias nefastas que hoje estão, nelas (nas Humanidades), tal como um câncer, enraizadas. O mais grave é que fizeram e seguem fazendo metástase. E enquanto houver investimento estatal essa metástase seguirá se espraiando.

Portanto, em minha opinião o CNPq não contemplar as Humanidades no mais recente edital de bolsas para iniciação científica é algo necessário. Precisamos, agora, redimensionar os investimentos feitos em educação, focando prioritariamente em pesquisas que poderão trazer um impacto positivo sobre nossa economia mediante o avanço científico e tecnológico.

Carlos Adriano Ferraz, professor na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), é graduado, mestre e doutor em Filosofia, com estágio doutoral na State University of New York, foi professor visitante na Universidade Harvard e é diretor do Docentes pela Liberdade no Rio Grande do Sul.

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