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Opinião do dia 1

Fani, a dama que fica

A primeira tentação que temos ao perder um amigo é a de elogiar aquele que nos deixa. "Dos amigos não se diga senão o bem" – o adágio latino apenas reforça essa ideia.

Não fujo à regra ao falar de Fani Lerner. Mas se assim ajo é antes por absoluto respeito à verdade do que pelo respeito e carinho que por ela tive. Estou certo de que só falaram bem dela todos os que a conheceram, digo sem nenhum medo de errar. Jamais detectei uma restrição de qualquer pessoa a Fani nos meus longos anos de convivência com ela e Jaime Lerner.

Divergências administrativas ela contornava com a sabedoria que só estadistas mostram: argumentava, com doçura, em favor de suas teses, fazendo novos aliados surgirem dos antigos adversários. Seu alvo final é o que interessava: a criança, o adolescente, o idoso, a família.

Usar adjetivos para elogiá-la não é o caso. Muito menos citar estatísticas e relatórios definidores de sua ação social nas três administrações de Jaime na Prefeitura de Curitiba e nas duas no governo do estado. Até conheço boa parte dos números que resumem seu trabalho sem paralelo porque fiz parte dos Conselhos do Provopar Municipal e do Estadual e dirigi a Creche Ana Proveller (que leva o nome de sua mãe), parceria, então, da prefeitura com o Instituto Ciência e Fé.

Com uma luz própria, ela recorria, no entanto, às vezes, à inventividade de Lerner para apoiá-la em concepções pioneiras que amadurecia e depois transformaria em prática única no Brasil, como o chamado Vale-Creche, resultante de contribuições de empresas para o programa de expansão de creches que desenvolvia em Curitiba com foco nos bairros periféricos. A então prefeita Luiza Erundina, de São Paulo, esteve entre os que vieram conhecer essa ação de Fani em favor da criança, sobretudo a carente. Reconhecimento que, em 2002 – ela já distante do poder – a Fundação Kellog, dos EUA, tornaria mundial concedendo-lhe premiação de US$ 100 mil pelo conjunto de sua obra em favor da infância paranaense. Fani tinha intenção de, em parceria com uma universidade particular, criar um centro de introdução da criança carente às novas realidades tecnológicas. Seria uma espécie de Villette, modelo pedagógico francês.

A conhecida "multimistura" foi outro ovo de Colombo: o alimento resultava da utilização de verduras e frutas que seriam descartados no Ceasa. Passando por tratamento adequado, moderna engenharia de alimentos, seria enlatada e abasteceria creches, asilos e escolas, assim como abrigos e albergues do estado todo. Em cooperação com a Fundação Ayrton Senna, a multimistura foi uma das marcas mais identificadoras das preocupações de Fani em combater a fome dos desvalidos com baixos investimentos. Inexplicavelmente (ou terá explicação?), esse programa, cujas benesses não poderão jamais ser avaliadas na exata dimensão, foi desativado pelos novos senhores do poder estadual.

Mas o que sempre me impressionou em Fani foi sua simplicidade, o forte sotaque "leite quente", as tiradas linguísticas bem curitibanas a denunciar uma familiaridade surpreendente (para uma filha de imigrantes judeus-poloneses) com a realidade de Curitiba e do Paraná, que ela ajudaria a definir na sua fase áurea. Falava com muito carinho de Irati, onde chegou a morar quando criança e onde seu pai, seu Manoel, comercializava batatas em larga escala. O Manoel que era só saudade no inventário afetivo dela e da família toda, cedo levado pela morte.

Foi com toda essa simplicidade que mostrou liderança não repetível na ação social da capital: formou um amplo, diversificado, atento e fiel voluntariado unido a ela e ao Provopar. Voluntários, mulheres na maioria, que deram sangue, suor e lágrimas no atendimento às crianças, em périplos intermináveis, por muitos anos.

Conhecia os curitibanos, sabia das conexões familiares e de seus inúmeros desdobramentos, das ruas da cidades e de suas peculiaridades, dos usos e costumes, dos longos serões familiares com cadeiras nas calçadas, dos pontos de "footing" de sua mocidade de normalista do Instituto de Educação, das sessões vespertinas de cinema na João Pessoa, das rivalidades entre os colégios. Era memorialista ímpar: boa parte da vida curitibana vira desfilar a partir do final dos anos 50 na loja A Moderna que sua mãe tinha na Praça Zacarias. Uma parceira inseparável era a irmã Esther.

Brasileiríssima, não conhecia o polonês. Falava esparsas palavras de iídiche. Sabia, isso sim, quem era quem em Curitiba, desde as lideranças de Vila Lindoia, onde começou a vida lecionando em escola pública, dando jeito, quase sempre, de suprir deficiências básicas de alguns alunos muito pobres. Com igual simplicidade tratava a todos, o patriciado de Curitiba, os líderes políticos e os "socialites" do país com que se relacionavam ela e Jaime.

Os últimos dias foram vividos no apartamento, ao lado de Jaime. Uma espécie de UTI doméstica dava garantia a um tratamento já, acredito, fundamentalmente paliativo. Mas nos olhos tinha brilho forte, dizem os que a viram mais recentemente. A mesma luminosidade que levava aos pequeninos carentes de creches periféricas, aos quais abraçava e beijava o ano todo. E não apenas em tempos de eleições. Assim como, entusiasmado, a via um de seus fãs ardorosos, o taumaturgo e místico de Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, frei Miguel, que um dia me disse: "Fani? Ela é diferente, ela é uma alma nossa."

O bondoso capuchinho queria se referir, naturalmente, a cristãos exemplares, almas excelsas. Como ele o foi e também era a Fani, que agora retorna à Casa do Pai. Uma singular filha de Israel, semeadora da paz.

Aroldo Murá G. Hayger, jornalista, é professor do Grupo Uninter e presidente do Instituto Ciência e Fé. É autor de Vozes do Paraná.

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