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Basta alguém subir no microfone certo e gritar “fascismo!” para que metade da plateia já se prepare para o Apocalipse. Democracia vira monstro, parlamento vira fantasma, imprensa vira cúmplice invisível. Tudo isso sem que nenhum tribunal seja fechado, nenhum partido dissolvido, nenhum cidadão silenciado de verdade. Fascismo de bolso: cabe na mão, pesa no coração, mas não altera a realidade.
O fascismo clássico não é só uma palavra de indignação. Ele exige Estado totalizante, partido único, supressão formal da oposição, controle absoluto da imprensa e subordinação ética do indivíduo ao Estado. Sem esses elementos, qualquer uso do termo é teatro de cena, show de efeito, narrativa performática.
No debate público, é preciso lembrar: discursos inflamados movem emoções, não governos. Comparações entre períodos distintos exigem cuidado. Paralelos podem existir, mas não transformam contextos desiguais em equivalentes históricos
O erro fica ainda mais claro quando se comparam contextos distintos sem cuidado. A ditadura militar brasileira (1964–1985) foi autoritária: perseguiu opositores, censurou jornais, expulsou cidadãos. Mas não se estruturou como um Estado fascista clássico. Partidos controlados, tribunais parcialmente autônomos e instituições sobrevivendo formalmente mostram que se tratava de autoritarismo militar, com seus limites, e não fascismo histórico.
E então vem o espetáculo: aplicar o mesmo termo a governos contemporâneos – como na comparação entre o regime militar e o governo Bolsonaro – cria narrativa anacrônica. Diferenças de contexto, natureza institucional e intensidade de poder desaparecem, e o fascismo se transforma em rótulo simbólico, desligado da realidade. O público recebe a impressão de que os dois regimes são equivalentes, mesmo que um seja democracia e o outro autoritarismo militar do passado.
Essa retórica inventa vilões imaginários, mobiliza emoções e transforma debates complexos em trivialidades de rede social. Palavras carregadas de história inflamam corações, mas não substituem análise rigorosa. Quando conceitos viram espetáculo, o que deveria alertar entretém; o que deveria explicar confunde.
No debate público, é preciso lembrar: discursos inflamados movem emoções, não governos. Comparações entre períodos distintos exigem cuidado. Paralelos podem existir, mas não transformam contextos desiguais em equivalentes históricos. O fascismo verdadeiro não se anuncia em palavras dramáticas; constrói-se quando instituições são dissolvidas e a pluralidade é subjugada.
Quem lida com palavras carregadas de história deve saber: elas inflamam, seduzem, assustam, mas não alteram a realidade. A democracia sobrevive com instituições fortes, cidadãos críticos e debates informados – não com espetáculo de microfone ou rótulos de bolso.
Carlos Henrique Gileno é professor doutor do Departamento de Ciências Sociais da UNESP, campus de Araraquara.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







