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Opinião do dia 1

Fenômeno fora de campo

No país do futebol convencionou-se estabelecer um sabático quadrienal – sagrado como todos – durante o qual nada deve acontecer para não esfriar a paixão e desviar as atenções do altar verde riscado de branco.

A própria sucessão presidencial é programada para manter-se em fogo brando numa disfarçada quarentena onde as decisões continuam a ser tomadas pelos fados, mas instrumentadas por um objeto caprichoso, pretensamente imponderável, agora denominado jabulani.

Ninguém contou com o frio intenso (das 19 Copas, 14 foram sediadas no Hemisfério Norte, nesta época tépido, banhado pelo sol), nem com a globalização que ensinou aos azarões todos os segredos dos campeões. Ninguém contou com o obstinado vento das transformações incapaz de respeitar rotinas, arranjos e fez deste intervalo uma caixinha de surpresas senão maior, pelo menos igual às outras que estão sendo abertas três vezes ao dia na África do Sul.

O fenômeno desta temporada é disciplinado, joga em todas as posições, não veste camisa, não tem bandeiras nem canta hinos. Chama-se Fi­­cha Limpa. Quando começou a rolar há dois anos ninguém lhe deu importância, não teve obstáculos porque todos imaginaram que o memorial com 2 milhões de assinaturas resultaria, no máximo, num evento na praça dos 3 Poderes. E foram todos dormir descansados.

Convertida em projeto de lei a iniciativa po­­pular foi para a Câmara, venceu a pantanosa tra­­mitação com razoável velocidade, o percurso no Senado foi fulminante, sancionada pelo presidente sem vetos foi levada como consulta ao TSE. Logo esclareceu-se a sua validade – as fichas sujas seriam barradas já nestas eleições – e, poucos dias depois, nossa máxima instância eleitoral novamente atalhou com precisão as inomináveis armadilhas contidas num fraseado propositalmente dúbio, finório.

A Lei da Ficha Limpa valerá para todos os candidatos condenados por crimes graves em tribunais colegiados, mesmo que a sentença seja anterior à sanção da lei (4 de junho). Além dos casos de condenação – Paulo Maluf é o mais notório, verdadeiro símbolo da impunidade – a lei vale também para os políticos que renunciaram ao mandato para evitar cassação por quebra de decoro.

Em apenas dois anos – menos tempo do que o confuso processo de engenharia usado por Dunga para montar a seleção de futebol – a sociedade brasileira conseguiu assumir-se co­­mo uma entidade com valores próprios e vontades autônomas. Sem tutores e cabrestos.

Ao contrário das demagógicas caças aos marajás, a Lei da Ficha Limpa atua diretamente sobre o foco da nossa crônica infecção moral apoiada num princípio claro e incontestável: só legisladores e governantes decentes são capazes de fazer e cumprir leis decentes. E já que os partidos sempre mostraram-se incapazes de sobrepor-se aos seus mesquinhos interesses eliminando previamente pulhas e trapaceiros, o saneamento das listas de candidatos passa ser feito através de um crivo legal quase automático.

Esta Copa do Mundo ainda poderá oferecer muitas alegrias e esplêndidos espetáculos. Mas à sua sombra, quietos, sem vuvuzelas, alguns milhões de torcedores começaram o paciente trabalho de construir uma nação firme, convicta e honrada.

Alberto Dines é jornalista

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