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Há uma geração inteira que nunca conheceu a política sem a mediação das redes sociais. Para milhões de jovens brasileiros da Geração Z, o debate público não aparece por meio de notícias, mas chega pelo feed do Instagram e pelos vídeos curtos do TikTok, cujos algoritmos estão programados para evidenciar os conteúdos mais polêmicos. No ambiente marcado pela economia da atenção, indignação e conflito valem mais do que diálogo e reflexão.
Um estudo recente realizado pela pesquisadora Catharina Vale, da Universidade Católica Portuguesa, com jovens de metrópoles brasileiras apontou justamente esse fenômeno: as redes sociais têm contribuído para processos de isolamento político, personalização das escolhas e aumento da polarização. Para se ter uma ideia do impacto, esse grupo representa 29% dos eleitores do país atualmente.
Esse grupo, que exerce um papel ativo na sociedade, corresponde à chamada Geração Z, a primeira a crescer na era dos smartphones e das redes sociais digitais. Segundo Valerie Grubb, autora do livro Conflito de Gerações (Autêntica, 2018), esses jovens adultos são experts em tecnologia e ávidos participantes do ambiente virtual marcado pelo consumo imediato. Ou seja, gastam menos tempo com o consumo de conteúdos informativos “tradicionais”, mais elaborados e aprofundados.
Muitos jovens da Geração Z nunca experimentaram a vida política sem a mediação das redes sociais. A maioria deles não vivenciou, por exemplo, as Jornadas de Junho de 2013, e os eventos políticos anteriores que caracterizam o cenário brasileiro atual estão muito distantes
O relatório anual do Instituto Reuters, por exemplo, indica que, quanto mais jovem a faixa etária, menor o consumo de notícias e maior o uso das redes sociais como fonte de informações. Os dados mostram que o Brasil é o primeiro país onde as redes sociais lideram o consumo de conteúdos em comparação com TVs, sites e aplicativos de notícias, rádios e impressos.
As sedutoras narrativas simplificadas das redes sociais e de especialistas em podcasts ganham força ao oferecer explicações fáceis para problemas complexos. Ao mesmo tempo, testemunhos pessoais de influenciadores se tornam referência para as gerações mais novas. Nesse cenário, a experiência pessoal vale mais do que o conhecimento secular. E é justamente a identificação dos grupos sociais com esses “representantes” que gera maior engajamento, alimentando determinado perfil e orientando ações extremistas.
Nas redes sociais, quanto mais alguém interage com determinado posicionamento político, mais conteúdos daquela mesma perspectiva a pessoa recebe. Aos poucos, criam-se bolhas informacionais em que opiniões divergentes desaparecem ou são apresentadas como perfis a serem combatidos. O resultado é um ambiente de aparente liberdade de opinião, cujos conteúdos são visibilizados de acordo com os interesses de grandes corporações proprietárias de plataformas, associados a grupos políticos.
Muitos jovens da Geração Z nunca experimentaram a vida política sem a mediação das redes sociais. A maioria deles não vivenciou, por exemplo, as Jornadas de Junho de 2013, e os eventos políticos anteriores que caracterizam o cenário brasileiro atual estão muito distantes. Guerra Fria, ditadura militar, impeachment de Fernando Collor, Plano Real e primeira eleição de Lula são, literalmente, eventos do século passado.
A baixa compreensão sobre política tem resultado em comentários radicais, acusações gratuitas e teorias conspiratórias que geram engajamento, compartilhamentos e audiência. Em consequência, posições moderadas e a busca de consensos tendem a perder visibilidade. As redes sociais recompensam aqueles que investem nelas dentro das regras privadas que elas impõem aos usuários na forma de “visibilidade” e “monetização”.
A democracia depende do conflito de ideias, mas não sobrevive quando cada cidadão passa a habitar uma realidade diferente. Em tempos de hiperconectividade, talvez a maior urgência da Geração Z seja reaprender a ouvir quem pensa diferente. Afinal, sem esse exercício, a política deixa de ser espaço de construção coletiva e se transforma apenas em um espelho das nossas próprias convicções.
Guilherme Carvalho, doutor em Sociologia com pós-doutorado em Jornalismo, é professor do Centro Universitário Internacional Uninter e autor do livro Mídia, opinião pública e sociedade (Intersaberes, 2021).
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



