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Nos anos 90 e começo dos anos 2000, muitas escolas ofereciam aulas de informática, com os alunos sentados à frente de monitores volumosos para aprender como navegar na internet. Para a geração atual, já nascida como nativa digital, essa etapa se tornou desnecessária. Agora, é possível ir além e introduzir aulas de programação e inteligência artificial na educação básica. Essa é a estratégia que países como Índia e China têm adotado, integrando tecnologia à rotina escolar, fortalecendo a educação digital e preparando profissionais desde cedo para estarem melhor equipados para o setor.
O caminho para reduzir a escassez de talentos em tecnologia se tornou mais acessível com a chegada da inteligência artificial. Ferramentas como GitHub Copilot e GitHub Spark permitem que jovens que já atuam com programação e estudantes usem a linguagem natural para entender e escrever código, ganhando uma noção mais intuitiva sobre o processo. Desde 2020, a Índia tornou aulas de programação obrigatórias para estudantes a partir de 11 anos como parte da sua política educacional. Com o uso da linguagem natural e assistentes de IA, até mesmo crianças podem programar em línguas como hindi ou bengali, antes mesmo de aprenderem inglês.
Com três países do Brics liderando o ranking global de comunidades desenvolvedoras, o potencial para crescimento e competição na corrida tecnológica e da IA é evidente
A China, por sua vez, tem investido fortemente em robótica e educação de IA em escolas básicas desde 2017, alimentando um mercado de educação em programação que movimentou cerca de R$ 4 bilhões naquele ano. A partir de setembro de 2025, o país anunciou que crianças a partir de seis anos teriam aulas de IA obrigatórias na escola. Nos anos iniciais, o currículo escolar focará em conteúdos introdutórios e teóricos. Para estudantes mais velhos, a proposta é oferecer aulas práticas, incluindo o uso de ferramentas de IA e o desenvolvimento de pequenas aplicações.
No Brasil, alguns esforços governamentais já podem ser vistos em iniciativas como o programa Mais Ciência na Escola, lançado em junho de 2024. O objetivo é promover a inclusão digital por meio de “laboratórios de criação” em escolas públicas e do ensino de conceitos tecnológicos baseados em experimentação, conhecimento prático e investigação.
O programa envolve investimentos de R$ 100 milhões e está sendo financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) do governo federal. A iniciativa faz parte do Plano Nacional de Educação Digital (PNED) e foca em escolas municipais e estaduais do país. Dessa forma, jovens terão a oportunidade de ter contato com conceitos básicos de tecnologia e de considerar a TI como uma possível trajetória de carreira no futuro.
Contudo, apesar desses esforços, iniciativas brasileiras são menos objetivas quando comparadas a estratégias adotadas por outros países. Sendo uma das maiores economias do mundo, o Brasil pode se inspirar na Índia e na China para reforçar a formação de novos profissionais de tecnologia. De acordo com o relatório Octoverse 2025, o Brasil já está classificado como a quarta maior comunidade no GitHub, repositório para pessoas desenvolvedoras, com um crescimento anual acima de 28%. O país quadruplicou sua comunidade de desenvolvedores desde 2020 e é esperado que supere a China no ranking global nos próximos cinco anos.
Com três países do Brics liderando o ranking global de comunidades desenvolvedoras, o potencial para crescimento e competição na corrida tecnológica e da IA é evidente. Ainda assim, a estratégia correta para garantir uma trajetória sólida de longo prazo começa com a educação básica. A inteligência artificial já está tornando as linguagens de programação mais acessíveis, mas apresentar esses conceitos desde cedo na escola é a solução estrutural para enfrentar a escassez de talentos no mercado.
O tamanho da comunidade brasileira de desenvolvedores, combinado com a demanda constante por especialistas e iniciativas governamentais em andamento, pode ser a chave para transformar esse desafio em um motor de inovação para todo o país.
Julio Viana é gerente regional do GitHub no Brasil.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







