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Cansaço do dia a dia pode esconder doença grave que atinge 64 milhões de pessoas

O diagnóstico precoce da insuficiência cardíaca e o controle rigoroso dos fatores de risco são medidas fundamentais. (Foto: Patty Brito/Unsplash )

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O cansaço extremo ao realizar pequenos esforços ou o inchaço nos pés ao fim do dia podem ser muito mais do que reflexos do envelhecimento ou de uma rotina corrida: podem ser sinais de um coração pedindo socorro. Em julho, quando é lembrado o Dia Nacional de Alerta contra a Insuficiência Cardíaca (IC), é fundamental voltar a atenção para um problema que muitas vezes avança de forma silenciosa.

Na insuficiência cardíaca, o coração perde parte de sua capacidade de bombear o sangue de forma adequada, prejudicando a oxigenação de todos os órgãos e tecidos do corpo. É essa falha na bomba cardíaca que explica a falta de ar progressiva, a fadiga intensa e o acúmulo de líquidos no organismo, sintomas que limitam severamente a rotina dos pacientes.

Estamos diante de um problema de saúde pública sem precedentes. A insuficiência cardíaca crônica atinge cerca de 64 milhões de pessoas no mundo, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, é uma das principais causas de internação, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Para o desenvolvimento da doença contribuem diversos fatores de risco, entre os quais se destacam hipertensão, diabetes, tabagismo, doença arterial coronária e infarto.

A ciência tem avançado de forma significativa, permitindo a disponibilização de terapias medicamentosas capazes de modificar de maneira importante a evolução da insuficiência cardíaca

O cenário nacional ganha uma dimensão ainda mais preocupante quando consideramos que a maioria dos brasileiros (aproximadamente 76%) depende diretamente do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao analisarmos as internações, observamos que a mortalidade hospitalar vem apresentando uma preocupante tendência de crescimento nos últimos anos. Isso sinaliza um importante alerta: as hospitalizações atuais ocorrem em pacientes clinicamente mais graves e com quadros mais complexos, exigindo cuidados e suporte médico intensivos.

Para os pacientes que atingem os estágios mais avançados da doença, o transplante cardíaco é, em muitos casos, o tratamento de escolha. Embora seja uma intervenção eficaz, a realidade é que essa opção está longe de ser acessível para a maioria. Há uma extensa fila de espera e um grande descompasso entre o número reduzido de órgãos disponíveis e a demanda, que cresce continuamente. Essa espera prolongada faz com que muitos pacientes precisem recorrer a dispositivos de assistência circulatória mecânica para sobreviver até que a cirurgia possa ser realizada.

Por isso, o principal foco da cardiologia atual é agir muito antes, evitando que o paciente chegue a essa fase crítica. A ciência tem avançado de forma significativa nesse sentido, permitindo a disponibilização de terapias medicamentosas capazes de modificar de maneira importante a evolução da insuficiência cardíaca.

Recentemente, ganharam destaque os resultados do estudo clínico de fase III FINEARTS-HF, publicados no periódico The New England Journal of Medicine. A pesquisa avaliou a finerenona, medicamento que atua bloqueando o receptor da aldosterona, hormônio que, quando produzido em excesso, contribui para o acúmulo de líquidos e para a rigidez do músculo cardíaco.

Para compreender esse avanço, é importante lembrar que a insuficiência cardíaca pode ser dividida, principalmente, em dois tipos: a de fração de ejeção reduzida, quando o músculo cardíaco perde força para contrair e bombear o sangue, e a de fração de ejeção levemente reduzida ou preservada, quando o coração se torna mais rígido e apresenta dificuldade para relaxar e se encher adequadamente de sangue.

Os resultados mostraram que a finerenona reduziu em 16% o risco combinado de morte cardiovascular e hospitalizações nesse segundo grupo de pacientes, ou seja, naqueles com fração de ejeção do ventrículo esquerdo maior ou igual a 40%, uma forma bastante comum da doença.

Além disso, observou-se que esses pacientes apresentaram um risco 24% menor de desenvolver diabetes tipo 2, uma comorbidade que duplica o risco de insuficiência cardíaca e agrava significativamente o estado geral de saúde.

A insuficiência cardíaca é uma síndrome complexa e desafiadora, mas seu curso pode ser transformado. O diagnóstico precoce e o controle rigoroso dos fatores de risco são medidas fundamentais. Ao aliar conscientização da população ao acesso a terapias inovadoras e eficazes, torna-se possível reduzir o número de internações e proporcionar mais qualidade de vida, permitindo que o coração dos pacientes continue batendo com força e saúde.

Miguel Morita é cardiologista e professor de Cardiologia da Universidade Federal do Paraná.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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