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Investir no exterior não é apostar contra o Brasil

A questão não deveria ser se investir no exterior significa acreditar ou não no Brasil. A pergunta mais importante é outra: quanto risco faz sentido concentrar em um único país? (Foto: Sebastião Moreira/EFE)

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Há uma ideia curiosa no debate sobre investimentos no exterior: a de que tirar parte do patrimônio do Brasil seria, de alguma forma, uma aposta contra o país. Como se proteger o próprio dinheiro em outra moeda ou em outros mercados significasse acreditar menos no Brasil. É justamente o contrário. Diversificar internacionalmente não é escolher entre Brasil e exterior. É reconhecer que nenhum patrimônio deveria depender inteiramente de um único país, uma única moeda ou um único ciclo econômico.

O motivo é bastante concreto. Ao longo do tempo, inflação, desvalorização cambial, mudanças na taxa de juros e crises econômicas podem corroer o poder de compra de um patrimônio. E esse efeito nem sempre aparece de forma evidente no extrato bancário: o dinheiro continua lá, mas compra menos.

Diversificar não é abandonar o Brasil. É evitar que o destino de todo um patrimônio dependa exclusivamente dele. E, paradoxalmente, quanto mais sólida for a proteção patrimonial, maior pode ser a liberdade para continuar investindo

É por isso que a diversificação internacional deveria ser encarada menos como uma aposta sobre qual país vai se sair melhor e mais como uma forma de administrar riscos. Uma empresa não costuma depender de um único cliente para sobreviver. Um investidor também não deveria concentrar todo o seu patrimônio em uma única economia.

Isso não significa, porém, que o dinheiro investido no exterior deixe de ter relação com o Brasil. Para a maioria dos brasileiros, a vida continua acontecendo aqui. É aqui que estão a família, os negócios, os imóveis, os projetos e boa parte dos gastos. O patrimônio construído fora do país, muitas vezes, será utilizado justamente para financiar uma vida no Brasil.

Essa distinção é importante porque o debate costuma transformar uma decisão de alocação patrimonial em uma espécie de declaração de confiança – ou desconfiança – em relação ao país. Mas o patrimônio não deveria ser tratado como uma questão de lealdade nacional. O objetivo de quem investe é preservar e ampliar seu poder de compra ao longo do tempo. E, para isso, faz sentido ter exposição a diferentes economias, moedas, setores e mercados.

Há ainda um efeito menos óbvio nessa discussão. Um patrimônio mais protegido pode dar ao investidor maior liberdade para assumir riscos dentro do próprio Brasil. Quem não precisa liquidar investimentos em um momento de crise para pagar uma despesa ou realizar um projeto tem mais condições de atravessar períodos de turbulência sem tomar decisões precipitadas.

É nesse sentido que a diversificação internacional pode ser positiva também para a economia brasileira. Um patrimônio que atravessa melhor os ciclos econômicos preserva a capacidade de consumo, de investimento e de empreendedorismo de seu proprietário. O capital pode circular entre diferentes mercados ao longo do tempo, mas as decisões de vida continuam, em grande parte, ligadas ao país onde esse investidor vive.

No fim, a questão não deveria ser se investir no exterior significa acreditar ou não no Brasil. A pergunta mais importante é outra: quanto risco faz sentido concentrar em um único país? Diversificar não é abandonar o Brasil. É evitar que o destino de todo um patrimônio dependa exclusivamente dele. E, paradoxalmente, quanto mais sólida for a proteção patrimonial, maior pode ser a liberdade para continuar investindo, empreendendo e construindo no próprio país.

Thaise Saeter Rytenband é sócia e fundadora da Convex Research e do multi family office Convex Wealth.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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