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Janeiro Branco e a indústria da raiva: brain rot e rage bait como sintomas do nosso tempo

(Foto: Aarón Blanco Tejedor/Unsplash)

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Janeiro é apresentado no Brasil como o mês da saúde mental – o Janeiro Branco, uma campanha criada em 2014 com o objetivo de trazer para o espaço público temas como sofrimento psíquico, cuidado emocional e prevenção ao adoecimento mental. A escolha de janeiro não é casual: é o tempo social dos balanços, das promessas de recomeço, das listas de metas e expectativas de transformação.

Mais do que um apelo ao otimismo, o Janeiro Branco funciona como um convite para que cada pessoa possa rever sua própria história emocional – seus vínculos, sofrimentos, escolhas e modos de viver –, além de cumprir uma função essencial de combate aos estigmas que ainda cercam o sofrimento psíquico e as psicoterapias. Ainda assim, é justamente nesse mês que o mal-estar contemporâneo se torna mais visível: não estamos apenas cansados de um ano que passou. Estamos esgotados, talvez, de um modo de existir que pode não nos servir mais.

Entre a podridão mental e a indústria da raiva, estabelece-se um circuito fechado: quanto menos o sujeito consegue simbolizar, mais reage; quanto mais reage, menos consegue pensar

Em 2024, o Dicionário Oxford escolheu brain rot como a palavra do ano – “apodrecimento do cérebro”, termo que passou a nomear a sensação de deterioração mental produzida pela superexposição a conteúdos banais, repetitivos e hiperinflados. Em 2025, a expressão eleita foi rage bait: a fabricação deliberada de provocar raiva como motor de engajamento.

Essas palavras não descrevem modismos linguísticos. Elas descrevem um estado psíquico coletivo. A brain rot não é excesso de informação. É a perda progressiva da capacidade de suportar a própria vida psíquica. O sujeito não tolera silêncio, dúvida, espera. Precisa ser continuamente excitado, interrompido, atravessado por estímulos que o salvem do encontro consigo.

Freud já indicava que o aparelho psíquico adoece quando submetido a excitações que não podem ser ligadas. Winnicott falava do espaço potencial como condição para existir criativamente. Hoje, esse espaço está tomado por demandas de reação. Quando o pensamento cede, entra em cena a raiva.

O rage bait não cria raiva: ele a explora. Opera como dispositivo de captura de afetos brutos. Não quer convencer, quer ativar. Não convoca o simbólico, convoca o reflexo. O ódio deixa de ser experiência para se tornar função algorítmica. No Brasil, isso não acontece em um terreno neutro.

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O retrato traçado no livro Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, revela um país que vive sob a marca da insegurança permanente: medo difuso, desconfiança interpessoal e sensação de abandono institucional. Ao mesmo tempo, valores rígidos de pertencimento – família, fé, identidade – funcionam como âncoras defensivas diante de um mundo percebido como cada vez mais ameaçador.

Esse arranjo psíquico-social produz sujeitos fatigados, mas também hipersensíveis a estímulos que ofereçam culpados, certezas e alívios imediatos. A raiva digital não é ruído: é sintoma. Entre a podridão mental e a indústria da raiva, estabelece-se um circuito fechado: quanto menos o sujeito consegue simbolizar, mais reage; quanto mais reage, menos consegue pensar.

Talvez o Janeiro Branco devesse ser menos um apelo ao otimismo e mais um gesto de resistência: recusar a convocação permanente à raiva, sustentar o desconforto de não responder, proteger o pouco de espaço psíquico que ainda resta. Porque hoje, cuidar da saúde mental não é aprender a ser feliz. É aprender a não ser capturado.

Camila Camaratta é psicanalista.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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