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Artigo

Jornalismo, a hora da reinvenção

  • PorCarlos Alberto Di Franco
  • 26/07/2020 17:30
Jornalismo, a hora da reinvenção
| Foto: Pixabay

Há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acreditam, ingenuamente, que a balburdia do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõe a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem, talvez involuntariamente, que a internet tende a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório, um ambiente embalado ao som de Samba de Uma Nota Só.

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes.

Em tempos de tentativas de censura à liberdade de expressão,  precisamos desenvolver um constante exercício de autocrítica. A reinvenção do jornalismo passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.

A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos e não para suas audiências. Como disse João Pereira Coutinho, “não são as redes sociais que matam os jornais; são eles próprios que se suicidam quando seguem o exemplo das redes”.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeça para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Consumidores de jornais mostram cansaço com o excesso de negativismo de nossas matérias. Trata-se de um fato percebido nas redes. Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política, em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.

Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.

Não se trata, por óbvio, de ficarmos reféns do leitorado. Os jornais, frequentemente, têm o dever ético de dizer coisas que podem não agradar a seus leitores. Mas é preciso não perder conexão com as percepções do público.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção.

Carlos Alberto Di Franco é jornalista.

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Comentários [ 12 ]

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  • J

    Jorge Dias

    ± 24 horas

    "O jornalismo como conhecemos acabou." - William Waack, 2016, após a vitória do Trump, onde a mídia não enxergou a óbvia vitória.

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    • N

      Neuclair

      ± 1 dias

      O jornalismo mudou, ao invés de notícia pura e isenta tenta nos empurrar opiniões sobre fatos e acontecimentos; o pior de tudo é que estas opiniões vem eivadas de êrros e mentiras que o tempo logo desmente e joga a credibilidade deles no lixo.

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      • M

        Magaly FragaMoreira

        ± 1 dias

        Muito bem analisado e colocado. O engajamento politico de alguns jornalistas estão cansando os leitores.

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        • M

          Mário Kume

          ± 1 dias

          O mundo todo mudou radicalmente, porem o jornalismo fez uma curva descendente nunca vista antes. Os bons sobreviveerão, porem aqueles que todos os dias apenas reportavam notícias, a maioria sensacionalistas, visando o faturamento da emissora deu com o burro na água. Com as mídias sociais só vai sobrar aqueles que são competentes e competencia significa não impor nada, no mínimo opinar e as conclusões ficam por conta dos leitores, sempre.

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          • J

            João Teixeira Pires

            ± 1 dias

            Vejo um movimento de "juniorização" do jornalismo, ou seja, muitos profissionais inexperientes sendo apresentados como analistas políticos, econômicos e sociais. Alguns deles não passam de bons relatores de notícias, descritivos, com uma boa memória. Esse contexto fragiliza as análises, induzem ao senso comum, enviesado. Penso que a principal causa disso seja a prioridade pelo lucro das empresas de comunicação que os abrigam. Jornalistas experientes e bons analistas são mais caros; fazer um jornalismo neutro e investigativo é mais caro também. Falar o que as pessoas não gostam de ouvir custa audiência. Temos que buscar caminhos para mudar essa lógica.

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            • C

              Carlos Indio do Brasil de Paula Neves.

              ± 1 dias

              O problema da imprensa, entre as questões tecnológicas, é que como leitor, não suporto a tentativa de determinados articulistas de tentarem vender um fato, segundo suas concepções. Como leitor, estou interessado no fato, para poder fazer o meu juízo de valor. Infelizmente, causa tristeza quando percebemos nitidamente a intenção, por trás da notícia. Isso é insuportável.

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              • A

                Ana Luiza

                ± 1 dias

                Reinventar jornalismo nada... reinventar os jornalistas!

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                • M

                  Maquiavel

                  ± 1 dias

                  Realmente hoje em dia está difícil encontrar um jornalismo sério e imparcial, o que se vê são jornalistas militantes, tanto de direita como de esquerda, dando sua opinião política pessoal, sem objetivismo e respeito com a verdade dos fatos!

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                  • R

                    Raul

                    ± 1 dias

                    O que mais tenho visto ultimamente nos jornais, são os artigos de opinião travestidos de informação.

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                    • J

                      José Aldo

                      ± 1 dias

                      Pra quem não acha que as redes sociais e o jornalismo tradicional não são excludentes o jornalista usou adjetivos bem negativos sobre a primeira... O que felizmente acabou foi a hegemonia de grandes corporações de jornalismo e a credibilidade de diversos jornalistas supostamente isentos e objetivos...

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                      • J

                        JJP

                        ± 2 dias

                        o jornalismo nunca vai acabar, o que praticamente acabou foram os jornais, aqueles de papel..... isso sim acabou

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                        1 Respostas
                        • A

                          ARY JOSE FREITAS

                          ± 2 dias

                          O jornalismo tem que melhorar e muito, não pode alterar notícias com pareceres ideológicos, criando fake news da informação. No rádio e na tv vemos a deformação das notícias diariamente que desacreditam todo o trabalho do jornalismo.

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