
Ouça este conteúdo
Beirute voltou a aprender em minutos aquilo que certas capitais aprendem em décadas. Na semana passada, Israel lançou sua maior ofensiva sobre o Líbano desde a abertura da frente com o Hezbollah, atingindo mais de cem alvos em cerca de dez minutos. A defesa civil libanesa falou em 254 mortos e mais de 1.100 feridos. O governo israelense disse ter alvejado centros de comando do Hezbollah. O que o resto do mundo viu foi fumaça subindo de bairros densamente povoados, hospitais sobrecarregados e a velha pedagogia da devastação aplicada mais uma vez sobre uma sociedade já exaurida.
Nesse tipo de conflito, os fatos militares costumam esconder os fatos políticos. Benjamin Netanyahu segue réu em um processo por suborno, fraude e quebra de confiança que se arrasta desde 2020. O dado mais eloquente dos últimos dias foi quase simbólico demais para parecer casual. Enquanto vigorou o estado de emergência ligado à guerra, o julgamento ficou suspenso.
Quando a emergência foi levantada, as audiências foram retomadas. O primeiro-ministro não inventou a realidade regional, mas descobriu nela o melhor ambiente para dilatar o tempo da Justiça, reorganizar a pressão doméstica e converter sobrevivência política em linguagem de segurança nacional.
É nesse ponto que a retórica da autodefesa começa a servir a outra coisa. Em 1º de abril, o gabinete aprovou a criação de 34 novos assentamentos na Cisjordânia, em um movimento descrito por observadores como uma das maiores expansões desse tipo em anos. Ao mesmo tempo, a memória dos protestos gigantescos de 2023 contra a reforma judicial vai sendo soterrada pela urgência bélica. A mesma sociedade que levou centenas de milhares às ruas para conter a captura do Judiciário foi empurrada de volta para a disciplina emocional da guerra, em que toda objeção passa a soar como deserção moral.
Quando a norma permanece no papel e a força reorganiza o mapa, o dano ultrapassa a região. O que se corrói é a credibilidade da própria ordem internacional, que passa a soar como sermão seletivo, severo com adversários, complacente com aliados
O problema já deixou de caber na categoria banal da polarização. O que se consolidou em Israel foi uma coalizão que deslocou o eixo do debate nacional para a combinação explosiva de securitização permanente, maximalismo territorial e cálculo pessoal de poder. O assentamento deixa de ser apenas um fato demográfico e passa a ser doutrina.
A guerra deixa de ser somente resposta e assume utilidade institucional. O estado de exceção, quando se prolonga, vira método de governo. E todo método de governo prolongado acaba produzindo uma classe interessada em sua continuidade.
Do outro lado da fronteira, o Líbano aparece ao mesmo tempo como vítima, refém e pretexto. O país atravessa uma crise tão profunda que mal consegue exercer o monopólio da força dentro de suas próprias fronteiras. Ainda assim, o quadro real é mais complexo do que a caricatura ocidental costuma admitir. Uma pesquisa recente da Gallup mostrou que 79% dos libaneses defendem que apenas o Exército nacional mantenha armas.
Ao mesmo tempo, o próprio impasse do desarmamento do Hezbollah permanece ligado à presença militar israelense em posições no sul do país e à continuidade dos ataques. Em outras palavras, a soberania libanesa está espremida entre uma milícia que se recusa a desaparecer e um vizinho armado que insiste em tratá-la como abstração negociável.
O Hezbollah nasceu em 1982 no interior de uma ocupação israelense do sul do Líbano. Isso não absolve seus crimes, sua lógica paramilitar nem sua função imperial para o Irã. Mas ajuda a compreender por que ele continua encontrando legitimidade em certos estratos sociais sempre que a força aérea israelense transforma bairros, estradas e infraestrutura civil em mensagem estratégica.
O ciclo é conhecido. Israel agride para enfraquecer o Hezbollah. O Hezbollah resiste e sobrevive para provar que a resistência ainda é necessária. A cada rodada, os civis enterram os mortos e os dirigentes dos dois lados recolhem dividendos políticos.
VEJA TAMBÉM:
Também por isso a conversa sobre direito internacional costuma ser tratada como ornamento retórico por governos que dependem dela apenas quando lhes convém. A Onu considera sem efeito jurídico a anexação do Golã e trata como inválidas as medidas destinadas a alterar o caráter e o status de Jerusalém. As resoluções existem. O fato consumado também.
Quando a norma permanece no papel e a força reorganiza o mapa, o dano ultrapassa a região. O que se corrói é a credibilidade da própria ordem internacional, que passa a soar como sermão seletivo, severo com adversários, complacente com aliados.
A questão, no fim, é mais simples do que o jargão diplomático gostaria. Quanto da atual escalada responde a uma necessidade real de segurança de Israel e quanto serve à blindagem política de um premiê sitiado por seus próprios processos, por sua coalizão e pela memória ainda incômoda das ruas israelenses que tentaram contê-lo antes que a guerra devolvesse ao poder a sua desculpa favorita.
O povo israelense tem direito à segurança. O que não tem é a obrigação de confundir esse direito com o interesse de um líder que aprendeu a governar sob o ruído das sirenes e a respirar melhor quando os tribunais perdem centralidade.
Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University- EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR).
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







