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A turma que mais fala em democracia é a que menos a pratica. O presidente da República e candidato à reeleição Lula avalia não participar de debates e sabatinas no primeiro turno. Já recusou uma: a do G4 Educação com O Antagonista, marcada para 4 de agosto, na qual foi o único dos cinco convidados a dizer não.
E, para 16 de agosto, data do primeiro debate presidencial, na Band, Lula marcou o comício de lançamento da campanha em São Bernardo do Campo. Um funcionário público decidiu que a mais importante ferramenta da democracia, o debate de ideias, não merece sua agenda – e que o povo não merece conhecer suas propostas.
Vale voltar à Atenas do século V a.C. para lembrar o que está sendo deixado de lado aqui. A democracia ateniense não inventou o voto, mas trouxe a obrigação de convencer diante de quem discorda. Da filosofia grega, o método socrático nos mostra que uma tese só pode ser, de fato, descoberta e verificada quando submetida ao contraditório, e é dele que nasceu boa parte do que o Ocidente sabe. Dois mil e quinhentos anos depois, um presidente da República foge do confronto (de novo).
Nenhum país perde a democracia porque alguém perdeu um debate. Perde-a aos poucos, quando debater vira uma gentileza, um favor, e a cadeira vazia se torna um hábito
Por que Lula foge? Pode ser o cerco. A oposição chega fragmentada, mas unânime contra ele. Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Flávio Bolsonaro (PL). A esquerda concentrou-se em uma só figura, e essa figura receberia todos os ataques. Mas será só isso? A sabatina de 4 de agosto tem como tema questões econômicas, como os desafios da dívida pública crescente e a alta taxa básica de juros.
A dívida bruta do governo geral alcançou 81,1% do PIB em maio, o maior nível em cinco anos, e o país desembolsou mais de R$ 1 trilhão em juros em doze meses, perto de 8% do PIB. O PT está no poder no Brasil desde 2003, com uma breve ausência entre 2016 e 2022, retornando em 2023. Talvez não seja apenas o medo de ficar sozinho contra quatro. Talvez seja a ausência de respostas depois de anos como presidente.
Como pode funcionar uma democracia se quem deve explicações se recusa a dá-las? O mandato presidencial não é propriedade de quem o exerce; é um mero empréstimo concedido pelo povo, que se renova mediante prestação de contas. E prestar contas é responder às dores dos trabalhadores, empresários, jornalistas e de todo o povo brasileiro. Quem só fala onde não pode ser interpelado não está querendo governar uma república, e sim iludir uma plateia.
Precisamos de mais vozes dispostas a debater, de espectros diferentes, porque é disso que uma democracia se alimenta. As primárias americanas e as sociedades de debates das universidades brasileiras mostram que argumentar em público é um hábito treinado e necessário para a saúde democrática.
É o que faz o Instituto Amplifica com o Campeonato de Debates por Elyt, com inscrições abertas até 1º de agosto para jovens de 18 a 35 anos. Serão dezesseis selecionados: oitavas on-line entre 3 e 7 de agosto e fases seguintes presenciais, em São Paulo. A final será disputada no palco do 13.º Fórum Caminhos da Liberdade, do IFL-SP, com transmissão da Gazeta do Povo. Ao campeão, troféu, mentoria em oratória e retórica, bolsa integral para a próxima turma do Amplifica e uma bolsa para a Galt's Gulch Conference 2027, em Nova Orleans.
Nenhum país perde a democracia porque alguém perdeu um debate. Perde-a aos poucos, quando debater vira uma gentileza, um favor, e a cadeira vazia se torna um hábito.
Yuri Quadros é diretor do Instituto Aliança, fellow do Amplifica e conselheiro da Rede Liberdade.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



