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O governo Lula está alicerçado nele próprio, em sua figura e em sua legitimidade popular e política, que ele decidiu transferir (provisoriamente, é claro) para sua escolhida

A posse de Dilma Rousseff introduz uma faceta inédita na cultura política brasileira: o populismo de segunda geração. Pelas próprias circunstâncias que marcaram a escolha da candidata, que a deve, quase que exclusivamente a uma decisão pessoal de Lula empurrada goela abaixo do PT, a presidenta não poderá se livrar facilmente da imagem de uma mera projeção da expressão política de seu mentor; pelo menos até tomar consciência plena de que na democracia brasileira, presidentes podem ser muito poderosos, o que os faz rapidamente se sentirem tentados a desafiar tutelas e cabrestos.

Não foi assim com Getulio Vargas, que depois de 15 anos de poder não havia querido ou conseguido que alguma liderança política aliada se fortalecesse para prolongar seu domínio da cena brasileira; acabou deposto.

Dutra, que o sucedeu, não tinha qualquer identidade política com o varguismo, apesar de ter sido seu ministro da Guerra e foi muito mais uma escolha de conveniência militar do que qualquer outra coisa. Getulio voltou ao poder, ele, pessoalmente, cinco anos depois de deposto e sua fragilidade política ficou tragicamente demonstrada rapidamente com o seu encurralamento moral e o desfecho que todos conhecemos.

Juscelino, apesar de alguns traços populistas de seu governo, nunca se caracterizou como um "pai dos pobres". Ao contrário, simbolizava a emergência do Brasil moderno e capitalista. Espertamente, manteve as oligarquias políticas tradicionais atendidas pelo clientelismo e pela entrega a alguns suseranos regionais de partes de seu governo. Seu sucessor, Jânio Quadros era, sim, a quintessência do populismo, mas carecia de um mínimo de sobriedade e serenidade para exercer o poder (Conta a lenda que um de seus aliados políticos teria declarado melancolicamente que, se alguém tivesse trancado Janio no banheiro do palácio, ele teria recobrado a serenidade e não teria provocado todo o estrago que gerou durante mais de meio século na política nacional).

Lula foi um fenômeno diferente: seu governo está alicerçado fundamentalmente nele próprio, em sua figura e em sua legitimidade popular e política, que ele decidiu transferir (provisoriamente, é claro) para sua escolhida. E não fez qualquer questão de disfarçar: depois de declarar que não procuraria influir nas escolhas de sua sucessora, não teve qualquer hesitação em cabalar em favor de alguns aliados para integrarem ou continuarem a integrar o ministério; desautorizou o ministro da Fazenda em relação a cortes orçamentários no próximo governo, assumiu compromissos que terão de ser honrados por sua sucessora sem maiores cerimônias. Para não deixar qualquer sombra de dúvida, vive repetindo que o governo Dilma será uma continuação do seu.

Em muitos aspectos isso será inevitável, mesmo porque muito do que Lula estabeleceu como metas de seus dois governos ainda estão por ser cumpridas: o PAC ainda está com menos da metade realizado e o PAC 2 ainda pertence ao domínio dos sonhos e das boas intenções. Portanto será natural que, quando a transposição do rio São Francisco ficar pronta ou a Ferrovia Transnordestina passar de 1% para 100% de execução, quando os aeroportos brasileiros se tornarem locais minimamente eficientes, todos se lembrem das promessas de Lula e associem essas realizações com seu governo e sua mera continuação por Dilma Rousseff.

Entre os riscos que correremos, está a promessa/ameaça de Lula de provar que o mensalão não existiu e que os companheiros envolvidos em trapalhadas financeiras foram vítimas da incompreensão das elites. "Menos", companheiro! "Menos"!

Uma coisa é certa: não morreremos de tédio nos próximos quatro ou oito anos.

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR

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