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O dia 22 de abril, efeméride do descobrimento do Brasil, não é feriado nacional, não é objeto de comemoração, mal é lembrado pela maioria dos brasileiros, é geralmente ignorado pelos media, por podcasteiros e youtubeiros ou, quando recordado, o é desentusiasmadamente e até em tom acusador e lamentoso.
Data de fundação deste país, passa em branco, o que representa mais um sinal de antiportuguesismo ou lusofobia, sentimento de rejeição da herança portuguesa do Brasil, do ciclo prévio a 1822, a cujo respeito há narrativas falsas, exageradas, parciais, sempre denegridoras de nossa formação e do papel nele desempenhado por Portugal (eis os erros mais propalados: Portugal apropriou-se do ouro do Brasil, este foi povoado pelos piores, a escravidão foi cruel, havia racismo; fomos colônia, e de exploração; ter-nos-ia sido melhor a dominação holandesa ou inglesa).
O antilusitanismo não existia até 1822. Até então, não havia brasileiros no sentido de nacionalidade, e sim portugueses da América ou d’além-mar, sem anseios de separação nem de recusa da sua matriz portuguesa. Com a separação, em 1822, certos cabecilhas de então puseram-se a afirmar a identidade nacional, que instituíram por contraposição aos portugueses: ser brasileiro definia-se, primacialmente, como ser antiportuguês e, de consequência, adverso ao nosso passado e à nossa formação como povo. A contar daí, tal característica entranhou-se no espírito dos brasileiros.
Em 1936, Sérgio Buarque de Holanda deu à luz Raízes do Brasil, celebrado desde então como obra superior e que, na verdade, constitui o mais cabal panfleto de injustiça para com o legado português no Brasil, na linha do qual Antônio Viana Moog redigiu Bandeirantes e Pioneiros. A seguir, a obra marxista de Caio Prado Júnior insistiu no vezo antilusitano, que o péssimo 1808, de Laurentino Gomes, explorou e reforçou. Livros escolares e a historiografia marxista, de que se imbuíram os ensinos médio e universitário, vão no mesmo sentido. Para a maioria dos brasileiros, de senso comum, nosso passado não nos dignifica e não nos merece apreço nem recordação.
O antiportuguesismo não implica desprezo ou animadversão para com Portugal hodierno, tampouco para com os portugueses atuais; implica obscurecimento, negação, depreciação da origem, da formação, do passado português do Brasil, da parte de seus naturais
Ademais, um dos defeitos de caráter nacional consiste na carência de ombridade de muitos brasileiros assumirem suas responsabilidades por seus erros ou deficiências, já individuais, já coletivas: culpa-se terceiro abstrato, a saber, o regime de 1964, o capitalismo, a sociedade em geral e, antes de todos, a herança colonial, à qual se irroga culpa por nossos males presentes e passados.
Contudo, nos últimos 204 anos, o quanto os brasileiros realizaram de positivo e de negativo fizeram-no como obra sua, e não mais como obra portuguesa em nosso território, ou seja, desde a independência, o desenvolvimento brasileiro, para bem e para mal, decorreu da vontade e da ação dos brasileiros, que dispuseram de autonomia política e de tempo com que remediassem os pretendidos malefícios de nossa formação.
Por outro lado (e ainda bem), vários autores reconheceram as virtudes da formação portuguesa do Brasil: os positivistas Miguel Lemos, Raimundo Teixeira Mendes e Luís Pereira Barreto; o historiador paranaense Rocha Pombo; Eduardo Prado; José de Alencar; Tito Lívio Ferreira; Gilberto Freyre e outros.
Olavo de Carvalho acertada e oportunamente denunciava os malefícios do vezo antiportuguês e aconselhava a leitura da obra de Gilberto Freyre, cujos livros decisivos, neste domínio, são: O mundo que o português criou, Uma cultura ameaçada, O Luso e o Trópico, Um brasileiro em terras portuguesas, Novo Mundo nos Trópicos. Graças à influência de Olavo, parte da obra de Gilberto Freyre foi republicada.
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Carlos Lisboa de Mendonça publicou 500 anos do descobrimento. Uma nova dialética, em que copiosamente retifica as interpretações depreciativas de nosso passado. No mesmo sentido contribuíram Agassiz Amorim Almeida, em seu 500 anos do povo brasileiro, e Tito Lívio Ferreira, em seu esclarecedor O Brasil não foi colônia. Presentemente, os youtubeiros e autores Marcelo Andrade e Aurélio Schommer têm atuado nessa vertente. No Paraná, o historiador David Carneiro expôs o papel construtor de Afonso Botelho de Sampaio e Sousa, português que, no século XVIII, operou no atual Paraná.
Antes de todos eles, os positivistas, na pessoa de Luís Pereira Barreto, Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos, aceitavam o legado português e valorizavam-no: o primeiro afirmou-o em Soluções positivas da política brasileira (1880); aos dois últimos deve-se a primeira comemoração que se fez no Brasil (em 1880), da vida e da obra de Camões.
O antiportuguesismo não implica desprezo ou animadversão para com Portugal hodierno, tampouco para com os portugueses atuais; implica obscurecimento, negação, depreciação da origem, da formação, do passado português do Brasil, da parte de seus naturais. A avassaladora emigração de brasileiros para Portugal (480 mil indivíduos em 2026) não o desmente: os brasílicos emigrantes (já na segunda geração) portam antiportuguesismo em sua formação cultural, a par de insuficiente instrução em português.
O funesto fenômeno da lusofobia acha-se cabalmente estudado por Carlos Fino em Portugal-Brasil: raízes do estranhamento (2021), de leitura indispensável.
Sirva este artigo de estímulo à leitura dos livros dos autores a que me referi. São fontes essenciais para a retificação de erros que formam a mentalidade do brasileiro de senso comum; quem os ler convencer-se-á do quão deformada é a percepção popular (e também culta) de nosso passado e de que a efeméride de 22 de abril, dia do Descobrimento do Brasil, faz jus a celebrações, a título de nascimento deste país, cuja formação em nada nos deve envergonhar.
Arthur Virmond de Lacerda Neto é escritor.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







