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Lutero e a epistemologia agostiniana
| Foto: Wikimedia Commons

Muitas vezes, pensa-se que a Reforma Protestante foi um movimento estritamente religioso, reduzindo sua esfera de impacto às quatro paredes da igreja. Contudo, antes de labutar sobre a natureza da salvação, Lutero, o líder da Reforma Protestante, teve de resolver uma questão ainda mais básica, que esteve diretamente relacionada com a educação de seu tempo e não menos na nossa: a natureza do conhecimento.

Em seu livro História da Reforma, Carter Lindberg defende o impacto significativo da Reforma em áreas de conhecimento, dizendo, especificamente, que as “doutrinas reformadas da justificação e vocação também tiveram grande impacto no desenvolvimento da educação e das ciências”.

É verdade que houve muitas contribuições posteriores dos reformados (Calvino na economia e na política, os puritanos na ética e no trabalho etc.), mas a raiz dessas contribuições estava na mudança radical de paradigma epistemológico que Lutero promoveu, ou seja, na mudança da autoridade sobre a reflexão em torno das etapas, da natureza e dos limites do conhecimento humano.

Para compreendermos isso, devemos nos lembrar que Martinho Lutero era um monge da era medieval e, como tal, estava inserido em um sistema escolástico de ensino. O escolasticismo surge em meados do século 9.º, tem seu auge no século 13 e é comandado por religiosos que buscavam satisfazer as demandas por respostas racionais às exigências da filosofia pagã.

Apesar de ser considerada uma escola de pensamento, se olharmos com exatidão, veremos que a escolástica não se enquadra nessa categoria conceitual. Na verdade, o escolasticismo é mais um método filosófico que foi utilizado e aprimorado nas universidades da Idade Média do que propriamente uma escola em seu sentido corporativo e organizacional como conhecemos atualmente. Também sabemos que a escolástica foi um momento histórico especialmente livresco, ou seja, um período completamente dado ao estudo formal de abordagens técnicas e à leitura. É um método que levou os intelectuais da Baixa Idade Média a um nível de rigor ímpar na história.

Essa tese é reforçada por alguns escritores e estudiosos, como o brasileiro Mário Ferreira dos Santos, defensor da ideia de que “a escolástica representa um período de máxima importância da filosofia. (…) Mas o que a tornou imensamente válida, e de uma importância ímpar, foi a realização da mais extraordinária análise que se conheceu na história do pensamento humano. A análise, levada em extensão e intensidade, permitiu que surgissem novos veios para o filosofar, veios que ainda não foram devidamente explorados”.

O movimento escolástico foi representado por grandes intelectuais medievais, tais como Alberto Magno (1206-1280), Alexandre de Hales (1185-1245), Roger Bacon (1220-1292) e São Boaventura (1221-1274). Contudo, ela “alcança seu ponto mais alto” através do dominicano São Tomás de Aquino (1225-1274). Assim como a grande maioria dos teólogos medievais, Tomás tinha um enorme apreço pelo pensamento de Aristóteles (384-322 a.C.), um filósofo grego pagão. Aristóteles concebia o centro da natureza humana no intelecto e cria que a mente humana possui potencialidades naturais capazes de explicar a razão de todas as coisas.

Tomás de Aquino tratou de “batizar” Aristóteles e empregou seus métodos de lógica na elaboração de uma epistemologia cristã: “Tomás de Aquino, o ícone do escolasticismo católico romano, concebeu a razão natural como independente da revelação de Deus em Cristo Jesus. A erudição, a moralidade, a vida política e a ‘teologia natural’ foram, então, tal como áreas autônomas da razão natural, praticadas de uma forma pagã-aristotélica.”, diz Herman Dooyeweerd.

O Aquinate sustentava a ideia aristotélica de que o intelecto de forma natural (sem a revelação da Palavra) poderia alcançar a plena verdade sobre a realidade. Como defende Francis Schaeffer, na “concepção tomista, a vontade humana está decaída, mas não o intelecto”. Lindberg comenta que, de acordo com Tomás, “a graça não despreza a natureza, mas sim a completa. Por isso, a frase escolástica famosa facere quod in se est (faz o que está dentro de ti) significa que a salvação é um processo que se desenvolve dentro de nós na proporção em que nos aperfeiçoamos”.

Essa concepção de intelecto intacto e de potencialidade racional natural predominou nas universidades medievais durante muito tempo, levando os teólogos escolásticos a ignorarem os efeitos noéticos da queda, depositando uma altíssima confiança na razão natural para se obter o conhecimento de Deus, do homem e da natureza.

No entanto, a mudança de paradigma epistemológico começou a ocorrer exatamente com Lutero. Poucos sabem, mas, um mês antes das 95 Teses, Lutero produziu um controverso documento chamado Disputa contra a Teologia Escolástica, que consistia numa coletânea de 97 proposições contrárias à filosofia e à teologia predominantes entre os escolásticos do seu período. Em sua 43.ª Tese, Lutero defende: “É um erro dizer que nenhum homem pode se tornar um teólogo sem Aristóteles. Contrário à opinião geral”. Vemos um reflexo dessa rejeição de Lutero ao aristotelismo medieval quando reformas curriculares na Universidade de Wittenberg haviam substituído estudos escolásticos por estudos bíblicos baseados em Agostinho: “Nossa teologia e Santo Agostinho estão progredindo bem, e com a ajuda de Deus, tornaram-se proeminentes na universidade. Aristóteles está sendo gradualmente tirado do trono; sua condenação final é só uma questão de tempo [...] De fato, ninguém pode esperar ter sequer um aluno caso se recuse a ensinar essa teologia, isto é, aulas com base na Bíblia, sem Santo Agostinho ou em algum outro mestre de eminência religiosa”, escreve Lutero na primavera de 1517 a um amigo em Erfurt. Mas por que Santo Agostinho?

Santo Agostinho (354-430 d.C.) foi um teólogo católico que defendeu a completa corrupção da natureza humana baseado no testemunho das Escrituras de que o homem está morto em seus delitos e pecados e naturalmente destituído do conhecimento de Deus (Efésios 2,1; Romanos 3,23). Agostinho ensinou a necessidade de total redenção do homem mediante Jesus Cristo, inclusive a redenção da mente (Rm 12,2). Para Agostinho, o homem natural – sem a regeneração que é dom de Deus – não pode jamais alcançar conhecimento verdadeiro ou exato sobre qualquer coisa, nem sobre si mesmo, nem sobre a natureza nem sobre os limites de ambos, já que todos esses conhecimentos dependem do conhecimento de Deus.

A Escritura – essa revelação especialmente escrita de Deus – deveria ser a autoridade máxima ao ensinar o homem sobre sua verdadeira natureza, sobre o verdadeiro ser de Deus e sobre a criação ou realidade. O homem deveria crer na autoridade das Escrituras. A fé na Palavra divina deveria anteceder e guiar o uso da razão natural: crede, ut intelligas (“creia para que possa entender”), dizia Santo Agostinho.

Lutero herdará de Agostinho essa noção de autoridade das Escrituras acima da razão e a aplicará não só à sua maneira de pensar, mas sobre o que significa pensar e conhecer à luz das Escrituras. Com essa mudança de autoridade no ponto de partida do pensamento – isto é, de um escolasticismo tomista-aristotélico para uma epistemologia agostiniana fundamentada na Bíblia –, todo o empreendimento intelectual cristão a respeito de qualquer área da vida havia sido radicalmente transformado. Será que os professores reformados que flertam com as pedagogias dicotômicas entendem ainda hoje esse legado?

Fernando Razente é historiador com atuação em rádio, assessoria e mídia.

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