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Maurício Souza em treino da seleção masculina de vôlei antes do início dos Jogos Olímpicos de Tóquio.| Foto: Miriam Jeske/COB

Há uma anedota antiga que propunha contar como funcionava o famoso e antigo “matador nordestino”, que aqui terá nomes fictícios e não está vinculada a nenhuma região do país, até porque tais figuras ainda existem em qualquer lugar e o importante é o sentido da piada: a natureza humana e sua maldade em nome de fazer sua justiça própria.

Walter era famoso na região, tinha fama de bravo, era envolvido com drogas e fazia parte de uma poderosa gangue. Decidido por qualquer razão a matar o jogador de futebol Souza, ele um dia chamou Felipe, matador profissional, para uma conversa privada:

“Felipe, preciso que você faça um servicinho pra mim.”
“Pois não, seu Walter. Do que se trata?”
“Você conhece o Souza, aquele jogador de futebol do Parmito FC?”
“Sim, conheço de nome. Por quê?”
“Rapaz, eu tenho uma diferença com ele, não gosto dele e acho que ele é prejudicial para a sociedade. Além do mais, ele joga num time que eu não gosto, aliás, odeio. Sou torcedor e patrocinador do Estrela Vermelha FC, o principal adversário dele. Por isso te chamei: preciso que você elimine aquele sujeito. Preciso que você mate o cara. Eu soube que você é bom nisso, faz um serviço limpo. Eu te ofereço 10 mil e um bom emprego.”
“Olha aqui, seu Walter, eu não sou desse tipo que faz qualquer serviço. Eu só faço um serviço na razão, quando é uma causa justa! Quando sei que tenho razão e o sujeito merece a punição. Aí então eu faço. Fora disso não faço não.”
“Mas, Felipe, o cara não vale nada! Eu te garanto!”
“Não, não. Isso é o senhor que está dizendo. Eu só conheço de nome o tal do Souza, e por isso preciso de uns dias pra conhecer melhor. Vou avaliar a situação e volto pra falar com o senhor na semana que vem.”

Daí em diante o matador Felipe passou a acompanhar os passos do jogador Souza. No primeiro dia, viu que ele não deu a esmola pedida por um pobre, e ainda explicou ao pedinte que ele estava sem dinheiro. E “isso certamente devia ser mentira dele”, pensou Felipe.

No dia seguinte, viu que a guarda municipal multou o Souza porque ele estava ainda atando o cinto de segurança, mas já com o carro em movimento. “Isso é uma falta grave”, achou ele.

No terceiro dia, observou que Souza estava com seus filhos e um deles pediu sorvete ao pai, que negou alegando que estava na hora do almoço. “Bem que podia levar o sorvete para o menino comer depois do almoço”, pensou Felipe. E a semana foi assim: todos os dias Souza cometia estes tipos “horríveis” de pecados, bem típicos de “pessoas más”.

Até que no domingo Felipe foi assistir ao jogo em que Souza jogaria. Em um momento da partida, Souza leva um cartão amarelo porque chutou a bola no gol após ter sido marcado seu impedimento – disse que não ouviu o apito e ainda tirou a camisa pra comemorar o gol. Felipe tomou ali sua decisão: realmente o Souza não vale nada nem como cidadão, nem como pai e também como jogador de futebol. Por isso merece mesmo morrer!

Felipe, então, retornou à casa do Seu Walter e disse a ele que aceitava o serviço, explicando que estava convencido de que o justiçamento era merecido. E fecharam o negócio. No mesmo dia Felipe foi lá e matou Souza com um tiro na nuca – sem chance de se defender. Sem conseguir se conter, Walter foi atrás e em seguida deu, ele próprio, mais um tiro no morto. Felipe recebeu os 10 mil reais e o emprego na gangue de Walter.

Foi assim que “mataram” o Maurício do Vôlei. O que fizeram não tem nada a ver com homofobia, tampouco racismo ou seja lá qual adjetivo que o “Seu Walter” ou o “Felipe” arranjem para escarrar aos ventos e aliviar seu ódio pelo “Souza”. Eliminá-lo era a única opção deles para esta “vingança”, até porque, na verdade, a gangue e o time deles patrocinaram tudo.

Maurício Souza deu uma opinião que, aliás, é a de muita gente também, divergindo da linha editorial, pedagógica, didática, cultural, ideológica, antropológica ou o que queira significar uma história em quadrinhos direcionada majoritariamente a jovens e crianças do mundo todo, promovendo um novo “modelo” de super-herói. A HQ é pública e seus autores não pediram licença a nenhuma pessoa, família, sociedade ou governo para contar sua história, seu enredo e as características de seus personagens. Como fazem sempre com suas produções, agora impuseram às crianças e aos jovens uma espécie de tirania politicamente correta, julgando que isso é bom.

Portanto, como qualquer crítico ou qualquer do povo, também nós ou Maurício Souza podemos divergir publicamente da história, do enredo e dos personagens do quadrinho? Ou isso já foi proibido também? Posso discordar disso publicamente na minha rede social ou neste artigo, num think tank ou em uma mídia convencional? Posso deduzir por minha conta as consequências diretas que considero que a história em quadrinhos e os seus personagens possivelmente produzirão nesta multidão mundial de crianças e jovens? Como qualquer outra HQ?

Se os produtores da série de filmes 007 resolverem que a próxima edição vai trazer uma mulher asiática que mudou de sexo para o papel do James Bond, nós poderemos discordar e sugerir que a nova espiã seja, por exemplo, uma 008 para que o 007 continue nos padrões da nossa utopia?

Se eu não posso fazer isso, alguém retirou minha liberdade. E, quando alguém retira a liberdade de outrem sem que tenha havido uma acusação formal de crime e um devido processo legal com ampla defesa, temos tirania e ditadura imposta à nossa volta pelos caçadores de almas da atualidade sob uma roupagem aparentemente nova, mas em verdade muito antiga. Estes tiranos e ditadores já estavam em Gênesis 10,10, no reino de Nimrode, conhecido como caçador de almas e que casou com sua mãe, Semíramis: “O princípio do seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar”. Babel significa confusão; Ereque significa lenta; Acade significa sutil; Calné, até a fortaleza de anu, o deus das trevas; a terra de Sinar é a Babilônia.

É impossível dissociar o mal que está se instalando neste mundo de visível confusão sutil, lenta e constante, percebida bem claramente quando observamos parte dos brasileiros que viviam ou ainda vivem em suas “bolhas” emocionais, ideológicas, econômicas, jornalísticas, judiciárias, sindicais, acadêmicas e artísticas, dentre outras, que ficaram disfuncionais a partir de 2019 e sofrem, pelo menos desde então, de uma dissonância cognitiva coletiva e pasteurizada. Todos parecem iguais, com suas mentes subtraídas por uma força invisível.

Disso resulta e até explica esta “loucura” percebida por muitos nos grupos familiares, grupos sociais, grupos de amigos, onde é comum se fazer um juízo de um fato ou de uma pessoa pública com uma percepção e entendimento exatamente oposto ao da pessoa ao seu lado, seja a qual destes grupos pertencer. Por exemplo, não há qualquer racionalidade ou razoabilidade no debate entre dois jornalistas em que um deles pertença à bolha jornalística, ideológica ou emocional, e o outro seja independente. Acaba não havendo debate, pois o da bolha deseja ferozmente que o fato não seja da forma como é.

É impossível dissociar o mal que está se instalando neste mundo de visível confusão sutil, lenta e constante, percebida bem claramente quando observamos parte dos brasileiros que viviam ou ainda vivem em suas “bolhas”.

Por isso jornalistas de bolhas criaram novos adjetivos, neologismos para que o fato e a verdade não sejam o fato e a verdade que você e eu vemos, e para que a narrativa enviesada seja vista e contada com igual ou maior importância que a verdade do fato que não se deseja ver. Inventaram que o nome disso é “pós-verdade”, ou também “narrativa”. Isso está ocorrendo no mundo inteiro e é sintomático desta “loucura” bíblica explicada assim pelo Glenio Paranaguá: “Para Deus o mundo está louco; para o mundo a Sua Palavra é loucura; e os dois são inimigos”. E, na internet, este pessoal criou mais monstros: as incompreensíveis “agências de verificação de fatos”, para irem além do que a bolha judiciária tem ido, para dizer o que é verdade e o que não pode ser verdade. Isso realmente deve ser a terra de Sinar, a Babilônia.

Juarez Dietrich é advogado, Master of Laws (LL.M), pós-graduado em Processo Civil, ex-membro do banco de conselheiros do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e do European Corporate Governance Institute, ex-diretor financeiro da OAB Paraná e especialista do Instituto Millenium.

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