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Matar meu companheiro foi o que me salvou a vida

  • PorArlene Adams
  • The New York Times
  • 11/09/2019 17:51
Matar meu companheiro foi o que me salvou a vida
| Foto: Pixabay

Na madrugada de 15 de setembro de 2010, minhas filhas e eu estávamos dormindo profundamente em casa, no Brooklyn, quando meu companheiro chegou – bêbado, depois de horas na rua, e partiu para a brutalidade.

Fazia anos que eu já vinha aturando agressões verbais, surras, violência sexual; naquela noite, porém, enquanto ele me socava a cabeça vezes sem conta, algo dentro de mim se rompeu. E, no auge do confronto, eu o acertei com a faca que pegara para me defender. Ele morreu a caminho do hospital.

Em questão de segundos, nossa vida mudou para sempre: fui separada de minhas duas filhas, Armani e Jameeyah, que tinham apenas 4 e 2 anos. Eu mesma tinha 22 e corria o risco de pegar prisão perpétua por homicídio. Achava que minha vida se acabara ali. Arrasada, passei a ter pensamentos suicidas.

Durante o ano e meio que passei em Rikers Island, aguardando julgamento, as meninas ficaram com minha mãe, e as assistentes sociais as levavam para me ver. Toda visita era triste; todas chorávamos na despedida e elas me perguntavam quando eu voltaria para casa. Eu também temia pela forma como a violência que testemunharam poderia afetá-las.

Precisei perder tudo o que tinha para perceber meu valor e me esforçar para me tornar uma pessoa e uma mãe melhor

Um dia, a pedido de uma das detentas, comecei a participar das sessões de estudos bíblicos e, aos poucos, fui me sentindo mais esperançosa. Passei a me dedicar a melhorar como pessoa. Concluí o curso de equivalência escolar e participei de programas de treinamento em assuntos como controle da raiva e segurança alimentar, para melhorar minhas chances de reconstruir a vida quando – e se – fosse solta. Estava decidida a ter, e a oferecer para minhas filhas, uma vida nova e melhor.

Por causa da violência doméstica que eu sofrera, recebi uma proposta de acordo – e, em 23 de março de 2012, confessei-me culpada por homicídio simples e fui solta, mas cumpri cinco anos de condicional supervisionada depois disso.

Depois da minha libertação, quis melhorar não só minha condição e a das minhas filhas, mas também ajudar outras pessoas que foram afetadas pelo encarceramento e a violência doméstica. Entretanto, a vida pós-prisão se revelou cheia de obstáculos. Tive de fazer um curso de competência parental, procurar apartamento e conseguir um emprego para recuperar a custódia das meninas. Mandei ficha e fiz entrevista para todas as vagas possíveis e imagináveis, mas, assim que o empregador via meu histórico, eu era rejeitada. Diante da ameaça do desemprego e da situação de rua, comecei a me sentir desmotivada e perdida.

Foi quando passei a fazer terapia por causa da vergonha e do remorso imensos que sentia por não estar com minhas filhas em um período tão crítico da vida delas, e durante o tratamento comecei a entender o estresse pós-traumático que estava sofrendo e a me recuperar dele.

Depois de um tempo, finalmente fui aceita no curso de Serviço Social do New York City College of Technology e consegui um trabalho no câmpus onde estudava. Três anos após sair de Rikers, finalmente conseguira economizar o suficiente para alugar um apartamento para mim e as meninas – e, pela primeira vez em seis anos, dormi em uma cama só minha.

No fim de 2017, comecei a trabalhar em uma agência de bem-estar infantil, a New York Foundling – e, de repente, era eu quem pegava os pequenos e os levava para visitar os pais presos, crianças como as minhas. Tentava fazê-las entender que não estavam sozinhas e que as coisas iam melhorar.

Depois que saí de Rikers, foi difícil permitir que alguém entrasse na minha vida. Estava mais preocupada em ser mãe e não me via construindo um futuro com ninguém – mas, quando ainda estudava na City Tech, conheci Karriem. Trocávamos sorrisos sempre que nos víamos no câmpus, até que reuni coragem para me aproximar. Hoje tenho um companheiro que me ama e cujo único interesse é nos proteger.

Recebi o certificado do curso de Serviço Social e Psicologia em maio de 2016, e passei a me dedicar à faculdade. Depois que nosso filho, Karter, nasceu, nossa família se mudou para Winston-Salem, na Carolina do Norte, em agosto de 2018. Ainda estou tentando me achar na cidade nova e continua sendo difícil encontrar trabalho por causa do meu histórico.

Precisei perder tudo o que tinha para perceber meu valor e me esforçar para me tornar uma pessoa e uma mãe melhor. Apesar disso, e de todos os obstáculos e dificuldades, continuo a me empenhar ao máximo, hoje e sempre.

Arlene Adams é defensora de filhos de pais presos.

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

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