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Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), também conhecido pelos títulos nobiliárquicos de Barão de Mauá (1854) e Visconde de Mauá (1874), é tido por alguns, como este colunista que vos escreve, por exemplo, não apenas como o maior empreendedor do Brasil Império (1822-1889), mas como o maior empresário brasileiro de todos os tempos, tendo contribuído de forma decisiva para o avanço e o desenvolvimento do país.
Nascido na cidade de Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, em uma família de poucos recursos, ainda nos tempos finais do Brasil Colônia, Irineu perdeu o pai muito cedo e, ainda criança, foi enviado ao Rio de Janeiro para viver sob os cuidados de um tio. Iniciou sua trajetória profissional em pequenos comércios e, autodidata que era, aprendeu com rapidez e excelência os ofícios que lhe eram confiados, ascendendo de forma célere na hierarquia até tornar-se sócio de seu antigo patrão. Essa ascensão meritocrática precoce já era um prelúdio do talento de um jovem que mudaria não apenas o próprio destino, mas também o de sua nação.
Nos anos seguintes, o Barão de Mauá seria responsável por desenvolver no Brasil empreendimentos inimagináveis para o contexto do século XIX. Em 1846, fundou o Estaleiro de Ponta da Areia, em Niterói (RJ), o primeiro grande estaleiro do país, especializado na produção de navios a vapor. Em 1851, criou a Companhia de Navegação do Amazonas, introduzindo a navegação a vapor na região, fator fundamental para sua ocupação econômica. Já em 1854, inaugurou a primeira ferrovia do Brasil, ligando o Porto de Mauá, na Baía de Guanabara, a Petrópolis. O evento marcou a entrada do país na era ferroviária e contou com a presença de Dom Pedro II, que, na ocasião, concedeu a Irineu o título de Barão de Mauá.
A esses feitos somam-se outros empreendimentos igualmente grandiosos, que redefiniram os rumos daquela nação ainda nascente: a implantação do primeiro sistema de iluminação pública a gás do Brasil; a instalação de cabos telegráficos submarinos, conectando o país às redes internacionais de comunicação; e a fundação do maior banco privado do Império, com filiais em centros financeiros como Londres, Montevidéu, Buenos Aires e Nova York. O sucesso de seus empreendimentos permitiu que o Barão de Mauá acumulasse, em seu auge, uma fortuna superior ao orçamento anual do próprio Império. Mas, infelizmente, O sucesso jamais será perdoado, título, aliás, de sua autobiografia, escrita nos últimos anos de vida.
A verdade é que empreender no Brasil é nadar contra a corrente; que a riqueza desperta antipatia; que o país pune quem tenta antecipar o futuro
Na obra, Irineu Evangelista de Souza descreve a construção de um ambicioso projeto de desenvolvimento nacional, sustentado na convicção de que a infraestrutura era condição primordial para o progresso e de que o capital privado deveria liderar os investimentos. Ao Estado, no caso o Império, caberia o papel de garantidor das regras, jamais o de competidor. Defensor exemplar do liberalismo clássico, Mauá segue, com justiça, como um farol para os liberais até os dias de hoje.
O sentido profundo do título de sua obra, contudo, emerge quando a visão de Estado, personificada na figura do imperador e de sua burocracia, passa a entrar em choque com os objetivos do empresário. Mudanças arbitrárias de regras, retirada de garantias, decisões políticas discricionárias, favorecimento a concorrentes alinhados ao poder e perseguições veladas passaram a compor o ambiente institucional. O Estado patrimonialista ora o utilizava quando conveniente, ora o asfixiava quando sua autonomia se tornava incômoda. O empresário bem-sucedido, ao fim e ao cabo, tornava-se suspeito.
A queda de Mauá, que, ao perceber o ocaso de sua trajetória, decidiu registrar para a posteridade tanto suas realizações quanto os ataques sofridos, não foi fruto de erros estratégicos empresariais, mas de choques regulatórios e políticos, ditados pelo humor e pelos interesses circunstanciais dos líderes da época. Sua crítica, portanto, é essencialmente institucional.
Mais de um século depois, causa espanto constatar que as causas de sua derrocada permanecem tão presentes, ou até mais, do que nos tempos do Brasil Império. É desalentador perceber que, como herança, não assimilamos o apetite ao risco e ao empreendedorismo, mas a obsessão pela estabilidade do serviço público; que, em vez de estabilidade regulatória, herdamos conchavos e patrimonialismo; que, em lugar da admiração por quem cria o novo e antecipa o futuro, cultivamos inveja e ressentimento; e que, ao invés de estimular o sucesso de quem ousa sair da zona de conforto, reproduzimos o confronto de classes sob a pequenez de críticas enviesadas.
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Como exemplo contemporâneo do preço cobrado pelo sucesso conquistado pelo esforço próprio, temos o caso recente da jovem brasileira Luana Lopes Lara. Sua trajetória extraordinária e inteligência notável permitiram que alcançasse o topo do ranking de bilionários mais jovens do mundo a construir a própria fortuna. Por si só, sua história já revela garra, força e resiliência. Formada em balé clássico pelo Teatro Bolshoi do Brasil, demonstrou desde cedo disciplina e rigor. Mais tarde, seus talentos para a matemática a levaram a cursar Ciências da Computação no MIT (Massachusetts Institute of Technology).
Após concluir a graduação e acumular experiências no mercado financeiro de Nova York, Luana fundou, junto a um colega do MIT, a Kalshi, uma empresa que opera uma espécie de bolsa de eventos futuros, na qual se negociam probabilidades associadas a acontecimentos econômicos, políticos, esportivos, culturais e outros.
Até então desconhecida em sua terra natal, Luana passou a ocupar manchetes no Brasil e no mundo após sua empresa receber aportes de grandes nomes do venture capital, o que a tornou bilionária. O que deveria ser motivo de prestígio e inspiração acabou, por aqui, gerando reações que buscaram imputar à jovem sentimentos de culpa, vergonha e constrangimento por seu sucesso, algo que ocorreu, aliás, ao vivo em uma entrevista para uma rede de notícias.
Mentalidades como essa são, infelizmente, heranças que carregamos desde os tempos do Barão de Mauá e que, com elevado grau de segurança, explicam grande parte de nossas mazelas institucionais. A verdade é que empreender no Brasil é nadar contra a corrente; que a riqueza desperta antipatia; que o país pune quem tenta antecipar o futuro. Que os ensinamentos deixados por Irineu Evangelista de Souza possam nos guiar rumo a um país melhor e que jovens como Luana Lopes Lara jamais temam pelo próprio sucesso, pois não há absolutamente nada a ser perdoado, mas sim celebrado.
Wesley Reis é economista.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



