Para construir confiança, presidente eleita terá de alocar recursos escassos no que é prioritário ao país

Só não encontra resistência para governar quem inspira a maior dose de confiança nos partidários, gerando o mínimo de medo nos adversários. Tancredo encarnava essa dosagem melhor que Ulisses ou qualquer dos oposicionistas de primeira hora. Foi por não despertar medo em relação à segurança ou ao futuro profissional dos militares em vias de deixar o poder que o governador de Minas tornou-se nome de consenso, explicava em 1985 aos argentinos o ex-embaixador Oscar Camilión.

Desde o discurso da vitória eleitoral temos assistido a esforço sistemático da presidente eleita para exorcizar os medos acordados pelo malfadado plano de direitos humanos, as propostas de controle da imprensa e os excessos retóricos como o de querer "extirpar" setores da oposição.

Sem deixar nada ao acaso, a ação desdobra-se em três áreas: a de liberdades e direitos individuais (liberdade de imprensa, apelos à união dos cidadãos, liberdade religiosa); a da estabilidade econômica (eliminação do déficit, redução da dívida pública e dos juros, contenção de gastos, combate à inflação); a da política externa (condenação ao apedrejamento no Irã, sensibilidade a direitos humanos, acenos amistosos ao governo Obama).

Uma interpretação malevolente poderia assimilar esse comportamento à entrevista de Leonel Brizola em Lisboa antes de voltar do exílio. Diante do espanto do entrevistador com a radicalidade do seu tom contemporizador, desculpou-se: "Antes de desembarcar tenho de tirar os índios da praia!"

O provável é que a explicação seja mais saudável. A futura presidente e seus conselheiros sabem que é nos primeiros meses que os governos costumam extraviar-se ou encontrar-se.

Jânio ("o povo ama os governos ásperos") e Collor com o confisco da poupança e o "tiro único para matar o tigre" assustaram os cidadãos e perderam o país. Lula, ao contrário, começou devagar, acalmando medos e consolidando a base sobre a qual soube edificar seu governo.

A presença de Palocci no ponto de partida dos dois governos nutre a natural expectativa de que se repita a abordagem de prudência que deu certo no governo anterior.

Afastar medos é condição necessária, porém não suficiente para o passo seguinte: construir a confiança. Esta requer fatos concretos como o que se aguarda na questão dos investimentos.

Desperta esperança a prioridade da presidente eleita de elevar a capacidade do investimento em infraestrutura, que será posta à prova no projeto de trem-bala. O bom-senso fez adiar a licitação, mas o projeto é irremediável. Não só pelo custo e a inviabilidade de tarifa capaz de pagar o investido.

Em relação às prioridades, tampouco faz sentido projeto de puro prestígio em país que não consegue construir metrôs e trens suburbanos para atender à população sacrificada. Sem falar na calamidade de estradas e portos, hoje incapazes de escoar a produção atual da agricultura, quanto mais a da expansão de mais 40% que se espera para os próximos anos.

O que fará a presidente eleita: agregará mais um esqueleto ao cemitério de dinossauros do nosso truncado desenvolvimento ou alocará recursos escassos ao que é de fato prioritário do ponto de vista social e econômico?

Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda no governo Itamar Franco.

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