Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Artigo

O “bom selvagem” está de volta

sinodo amazonia bom selvagem
Representantes de povos indígenas participam da abertura do Sínodo da Amazônia, em outubro de 2019. (Foto: Giuseppe Lami/EFE/EPA)

Ouça este conteúdo

O Sínodo da Amazônia, realizado em 2019, em Roma, foi marcado por aquilo que poderia ser chamado de “a volta do nativo” ou “o retorno do ‘bom selvagem’”.

O mito do “bom selvagem” tem uma história interessante, que já vem de 500 anos. À medida que o Novo Mundo foi descoberto e explorado, os europeus encontraram povos indígenas por toda parte. As reações variaram. Os católicos deram início a corajosos empreendimentos missionários, considerando os povos nativos como pagãos necessitados do Evangelho. Por outro lado, a maioria dos colonos calvinistas da Nova Inglaterra não evangelizava os indígenas: em sua opinião, isso era inútil, pois os selvagens não poderiam pertencer aos eleitos, já que não tinham alma. Relatos dos primeiros exploradores da África refletiam uma visão semelhante. Eles consideravam os africanos tribais uma forma um pouco mais desenvolvida dos chimpanzés e gorilas que também haviam encontrado.

Considerar os povos indígenas como uma subespécie servia para justificar as atrocidades cometidas pelas potências coloniais. Povos indígenas foram exterminados em massacres, suas populações foram dizimadas por doenças trazidas pelos europeus, contra as quais não tinham imunidade; eles foram escravizados, deportados, expulsos de suas terras e eliminados quando eram vistos como obstáculos.

A resposta intelectual a essas atrocidades foi caminhar para o extremo oposto. O mito do bom selvagem começou a florescer no terreno fértil da França iluminista e antirreligiosa. Os povos indígenas não eram selvagens, mas inocentes e puros filhos de Adão e Eva ainda vivendo no Éden. Os verdadeiros bárbaros seriam os europeus. Durante os séculos 16 e 17, a figura do “bom selvagem” foi usada como uma crítica à civilização europeia, então mergulhada nas guerras religiosas francesas e na Guerra dos Trinta Anos. Em seu famoso ensaio Dos Canibais, Michel de Montaigne (ele próprio católico) relatou que os tupinambás do Brasil comiam cerimonialmente os corpos de seus inimigos mortos como uma questão de honra. No entanto, ele lembrava a seus leitores que os europeus se comportavam de maneira ainda mais bárbara, ao queimarem uns aos outros vivos por divergências religiosas.

A visão de mundo dos “ecoguerreiros” de hoje está impregnada de um entusiasmo sentimental pelos povos indígenas e sua cultura

Em inglês, a expressão “noble savage” (“bom selvagem” ou “selvagem nobre”) apareceu pela primeira vez na peça A Conquista de Granada pelos Espanhóis (1672), de John Dryden:
“Sou tão livre quanto a natureza fez o homem pela primeira vez,
Antes que surgissem as leis vis da servidão,
Quando o nobre selvagem corria livre pelas florestas.”

O personagem nobre de origem humilde já era uma figura comum no teatro desde a Antiguidade. No século 18, o bom selvagem juntou-se a personagens como a “Leiteira Virtuosa” e o “Criado Mais Sábio que o Patrão”: figuras simples, mas nobres ou astutas, usadas para destacar a virtude natural e expor a hipocrisia.

Enquanto isso, no mundo artístico do século 19, os impressionistas romantizavam prostitutas, dançarinas, artistas de circo e trabalhadores rurais. O pós-impressionista Paul Gauguin levou o sonho do bom selvagem à sua conclusão lógica, ao deixar a França para viver no Taiti, entre aqueles que considerava inocentes filhos do Éden.

Assim, a ideia do bom selvagem chegou até os dias atuais. Hoje, são os ativistas ecológicos que se deixam seduzir mais frequentemente por essa noção. A visão de mundo desses “ecoguerreiros” está impregnada de um entusiasmo sentimental pelos povos indígenas e sua cultura. Como ocorreu na origem do conceito, esse entusiasmo costuma ser o outro lado de uma condenação da cultura ocidental moderna.

A versão contemporânea do mito afirma que nós, que desfrutamos dos benefícios da tecnologia moderna e de uma sociedade organizada, somos os verdadeiros bárbaros, porque destruímos o mundo natural pelo consumismo e pela ganância. Os povos indígenas seriam aqueles que mostram o caminho. Eles viveriam em harmonia com Pachamama, a Mãe Terra. Em sua inocência edênica, estariam integrados ao mundo ao seu redor de maneira bela e natural.

Mas, naturalmente, isso não era verdade nos séculos 16 e 17, e nem o é hoje. Embora algumas tribos fossem caçadoras-coletoras pacíficas, muitos povos indígenas seguiam sistemas de crenças sombrios e praticavam costumes terríveis. Os sacrifícios humanos realizados pelos maias e astecas contradizem qualquer ideia de que esses povos fossem simples ou admiráveis. Os missionários jesuítas na América do Norte oferecem outra forte correção ao mito do bom selvagem. São João de Brébeuf e seus companheiros mantiveram registros detalhados de sua convivência com os iroqueses e hurões. Seus diários revelam condições verdadeiramente horríveis entre povos descritos como sanguinários, presos à superstição, à violência e ao medo.

O bom selvagem é sempre apresentado em contraste com aquilo que, hoje, poderia ser chamado de “selvagem urbano”. Assim como Montaigne denunciava os bárbaros europeus de sua época, atualmente o verdadeiro selvagem seria o cidadão urbano moderno, supostamente civilizado. Sob a fina camada de boas maneiras e vida organizada, há um bárbaro sedento de sangue. Nas circunstâncias certas, também nós retornaríamos ao tribalismo primitivo. Essa ideia foi retratada de forma brilhante no filme O Homem de Palha e no romance O Senhor das Moscas, de William Golding, no qual um grupo de estudantes ingleses, isolados numa ilha, rapidamente se transforma em bárbaros violentos.

Mas, evidentemente, tanto a ideia do bom selvagem quanto a do selvagem urbano são generalizações simplistas. E, como toda generalização, contêm ao mesmo tempo uma verdade e uma mentira. O fato é que o ser humano da floresta e o ser humano da cidade são muito semelhantes, e somente uma antropologia cristã tradicional consegue dar sentido a esse paradoxo.

Tanto o habitante da Amazônia quanto o habitante de Manhattan são ambos seres eternos. Ambos são nobres e ignóbeis. Ambos são pecadores, mas ambos podem tornar-se santos

O erro da ideia do bom selvagem é o excesso de otimismo. Ela se baseia na suposição de que os seres humanos são essencialmente bons. O erro da ideia do selvagem urbano é presumir que os seres humanos são essencialmente maus.

A teologia cristã afirma que os seres humanos foram criados bons porque foram criados à imagem de Deus, e Deus não pode criar algo mau. O habitante da Amazônia e o habitante de Manhattan são ambos seres eternos e, portanto, essencialmente bons. Contudo, tanto o selvagem da floresta quanto o selvagem da cidade perderam essa bondade original e, em sua condição natural, permanecem não redimidos, escravizados pelo pecado e submetidos a forças mais sombrias. Assim, ambos são nobres e ignóbeis. Ambos são pecadores, mas ambos podem tornar-se santos. Somente a fé cristã estabelece essa realidade e oferece a redenção necessária.

O erro fundamental dos teólogos modernistas que promoveram sua agenda durante o Sínodo da Amazônia é que eles teriam sucumbido ao mito do bom selvagem. Contaminados por um falso otimismo universalista combinado com um sentimentalismo ingênuo, imaginam que nós, do mundo desenvolvido, somos os verdadeiros selvagens, enquanto os inocentes povos amazônicos não necessitariam de conversão. Ironicamente, essa atitude seria, por si só, paternalista e racista. Ela não concede aos povos indígenas a verdadeira dignidade de serem personalidades humanas complexas, conforme compreendidas pela teologia cristã. Em vez disso, a noção do bom selvagem encoraja seus admiradores a tratar os indígenas como curiosidades culturais: peças de museu que alguém admira e contempla antes de seguir adiante.

Não seria racista, colonialista nem imperialista sugerir que os povos indígenas da Amazônia são pecadores que precisam se converter, ter fé em Jesus Cristo e ser batizados. Eles precisam ouvir a Boa Nova do Evangelho, responder com fé alegre e encontrar redenção, bem como o caminho da santidade e da plenitude humana... exatamente como seus irmãos e irmãs na cidade grande.

Dwight Longenecker é padre católico na Carolina do Sul (EUA), formado pela Universidade de Oxford, e autor de 20 livros.

©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: The Return of the “Noble Savage”

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.